|
EDIÇÃO
EXTRA: Os naufrágios
VEJA, Abril de 1912
O
infortúnio do Titanic e a escalada de acidentes neste
início de século colocam
em xeque a segurança prometida pelas companhias
marítimas aos passageiros.
Como evitar as tragédias?
 |
| O SS Atlantic, da White Star Line, que sucumbiu em 1873: 562 mortos perto de Halifax, Nova Scotia, no trajeto de Liverpool a NY |
Naufrágios de transatlânticos
não são novidades em águas internacionais, mas a tragédia
do RMS Titanic, ao suplantar de forma arrebatadora todos os seus predecessores
no mundo ocidental, coloca um ponto de interrogação ao lado das
garantias de segurança fornecidas pelas companhias marítimas. Afinal,
a fama que acompanhou o Titanic durante seu período de construção
era a de ser um navio livre de qualquer perigo - lema que refletiu até
mesmo na incrédula declaração do vice-presidente da White
Star Line, Philip Franklin, logo depois de ouvir a notícia do desastre:
"Pensei que o Titanic fosse inafundável, era essa a opinião
dos melhores especialistas. Não consigo entender".
 |
| O fogo consome o General Slocum: mais de mil mortos, na maioria mulheres e crianças |
A duras penas, as famílias
de mais de 1.500 passageiros tragados pelas águas geladas do Atlântico
descobriram que, em se tratando de travessias marítimas, não há
homens ou máquinas que possam oferecer garantias. O naufrágio do
Titanic supera em número de vítimas a maior marca deste século,
a do navio americano SS General Slocum, que pegou fogo quando navegava pelo East
River de Nova York no dia 15 de junho de 1904 e causou a morte de 1.020 pessoas,
na maioria mulheres e crianças da comunidade alemã da cidade, que
haviam fretado o navio para uma excursão. Naquela ocasião, de acordo
com o relato de alguns sobreviventes - em número de aproximadamente 300
-, a calamidade foi potencializada pelo estado deteriorado de conservação
de coletes salva-vidas, bóias de segurança e botes. Fúnebres
recordes - O terrível destino do Titanic também fez suplantar
outras duas infaustas marcas de desastres marítimos, todas ocorridas também
nos primeiros anos desde século, dado alarmante para o mundo da navegação.
A mais recente tragédia ultrapassa o maior acidente da história
de um navio civil com bandeira britânica. Em maio de 1902, o SS Camorta,
pertencente à British India Steam Navigation Company, afundou na baía
de Bengala em meio a um ciclone, matando todos os 655 passageiros e 82 tripulantes.
Além disso, torna-se o maior infortúnio já registrado nas
águas do Atlântico. Antes, o SS Norge, transatlântico dinamarquês
que também tinha como destino Nova York e colidiu com a ilhota rochosa
de Rockall, a oeste da Escócia, havia produzido 635 vítimas em junho
de 1904.
 |
| O SS Norge: recordista antes do Titanic |
Ao menos por enquanto, o acidente
de maior proporção da história das águas internacionais
segue sendo o naufrágio do junco Tek Sing, navio à vela chinês
que afundou em fevereiro de 1822 ao sul da China, depois de colidir com um recife.
A embarcação tinha como destino Jacarta, na Indonésia, e
transportava cerca de 1.800 passageiros e uma grande carga de porcelana. Mais
de 1.600 pessoas morreram - as demais foram resgatadas pelo navio inglês
East Indiaman, que passava pelas redondezas na manhã seguinte e avistou
alguns sobreviventes. Resta saber se a cega competição entre as
linhas marítimas ocidentais, cada qual correndo ferozmente para suplantar
a concorrência, não acabará por relegar a segurança
a segundo plano e repetir tormentos como o do Titanic. |