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Vida Moderna
VEJA, 20 de novembro de 1889

Um novo cabaré de Paris,
o Moulin Rouge, agita a capital francesa com seus espetáculos de
cancã
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| A casa de espetáculos: a aristocracia
vai a Montmartre |
Alguns centímetros de pernas femininas, logo
acima dos joelhos, estão transformando Paris numa festa.
As pernas são das dançarinas de cancã de um
novo cabaré da cidade-luz, o Moulin Rouge (Moinho Vermelho),
inaugurado com pompa e circunstância no mês passado.
Não bastasse a já escandalosa coreografia da "quadrilha
naturalistas", como a dança também é conhecida,
com seu ir e vir de pernas para o alto, deixando à mostra
a roupa de baixo das bailarinas, o Moulin Rouge decidiu apimentar
seus espetáculos acrescentando o precioso palmo de nudez
de suas coristas. Bem ou mal, não se fala em outra coisa
na capital francesa. A idéia dos donos do cabaré,
os experientes empresários de espetáculos Charles
Zidler e Joseph Oller, foi criar uma casa capaz de atrair a fina
flor da elite parisiense para a marginalizada região de Montmartre.
Para tanto, precisavam de uma atração sem igual. Zidler
se encarregou pessoalmente de descobrí-Ia. Atraído
pela boa carreira que a quadrilha naturalista fazia no Elysée-Montmartre,
o empresário não titubeou: abriu a carteira e, de
uma só tacada, contratou todo o elenco do eventual concorrente
- que agora está entregue exclusivamente a um balé
de moscas. Com o incremento da nudez de centímetros, compreendidos
entre o fim das meias pretas e a barra das calças brancas
das dançarinas, o Moulin Rouge se tornou o senhor dos cabarés.
Por conta dele, a noite parisiense está mais festiva do que
nunca - e escandalosa também.
Até a reforma, o local onde hoje se ergue o bem freqüentado
moinho, no Boulevard Clichy, era um ponto condenado - por ali passaria
uma nova avenida. Em função disso, ninguém
se preocupava sequer em limpar o Rainha Branca, um galpão
de espetáculos de baixo nível que ocupava aquela área.
O trajeto do leito carroçável, no entanto, foi alterado.
A mudança foi decisiva para que Zidler e OlIer comprassem
o terreno e construíssem o Moulin Rouge sobre os escombros
do Rainha Branca, evitando que lá estivesse hoje um curral
de vacas, como se chegou a propor. Em lugar disso, os parisienses
ganharam uma casa decorada com gosto e ostentação,
embelezada por um amplo e agradável jardim, onde está
montado o gigantesco elefante de madeira há pouco exibido
na Exposição Universal. Junto a ele, uma bailarina
de formas exuberantes faz apresentações de dança
do ventre, enchendo também os olhos dos freqüentadores
do cabaré.
A grande estrela do Moulin Rouge, no entanto, é a dançarina
Louise-Joséphine Weber, que toda a Montmartre chama de "La
Goulue" (A Gulosa), apelido ganho na infância por causa
de sua sofreguidão quando posava para os pintores, já
deslumbrados com sua beleza. Aos 23 anos, mas famosa em toda a região,
ela foi contratada por um salário mensal de 800 francos,
cerca de 290 000 réis, quase o preço de uma passagem
de ida e volta para Paris numa segunda classe. Traços finos,
formas bem torneadas e uma elegância que não perde
nem mesmo quando executa os movimentos mais ousados do cancã
distinguem La Goulue de suas companheiras de palco.
A tradição da dançarina de encantar pintores
continua. O mais novo talento a sucumbir aos seus encantos é
ninguém menos do que o melhor pincel do submundo parisiense,
o anão Henri de Toulouse-Lautrec, Famoso no Montmartre por
seus criativos retratos de personagens da região. Lautrec
freqüenta o Moulin Rouge desde sua inauguração.
De origem aristocrática, o pintor sofreu um grave acidente
aos 13 anos, que o deformou para sempre. Complexado por sua aparência
física, Lautrec cedo se refugiu entre os marginais. Desenhista
de incrível habilidade, ele tem se especializado desde então
em traduzir para telas a vida dos marginais da capital francesa.
"Quero pintar a verdade, e não o ideal", diz. Fascinado
pela gravura, Lautrec vem desenvolvendo um belíssimo trabalho
em cartazes para os shows do Moulin Rouge. Sua atração
por La Goulue pode transformá-Ia na mais famosa dançarina
de cabaré de todos os tempos, imortalizada nos traços
de um artista raro, dono de uma obra absolutamente pessoal. Com
o maxixe começando a fazer espécie no Rio de Janeiro,
não é difícil imaginar que casas de espetáculos
como o Moulin Rouge logo entrarão para o cotidiano da capital
- tornando as noites cariocas ainda mais escandalosas. E a cidade,
uma verdadeira festa.
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