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Brasil
VEJA, 20 de novembro de 1889

Numa sexta-feira de boatos
e agitação, 600 militares se revoltam, saem à
rua, e o Brasil entra na era republicana
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| Campo de Santana: palco de todos os acontecimentos |
O major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, 46 anos, saiu
alarmado da sede do Ministério da Guerra, no Campo da Aclamação,
na tarde de quinta-feira passada, dia 14. Sem maiores explicações,
havia recebido ordens para deslocar o 9º Regimento de Cavalaria
e o 2º de Artilharia do quartel São Cristóvão
para o da Praia Vermelha. Era um obstáculo a mais, e talvez
intransponível, para a conspiração que desde
o início do mês Sólon penava em fazer andar
adiante. Ainda antes de receber suas ordens no ministério,
o major gaúcho havia conversado com o tenente-coronel Benjamin
Constant Botelho de Magalhães, 53 anos, e com relutância
concordara em adiar a deflagração do movimento militar.
O adiamento era necessário, argumentou Constant, professor
de Matemática na Escola Militar e líder dos cadetes,
porque ainda havia muitos oficiais a serem convencidos a aderir
à conspiração. Sólon agora recebia ordens
de levar para a Praia Vermelha, muito mais distante do centro do
Rio de Janeiro que São Cristóvão, justamente
os dois regimentos mais mobilizados contra o governo liderado por
Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto. O que
fazer?
Parado ali no Campo da Aclamação que teve
o nome mudado em 1831, mas a população carioca insiste
em chamar de Campo de Santana , Sólon achou que a conspiração
se esvaziaria se os dois regimentos fossem transferidos para a Praia
Vermelha e decidiu agir no momento. Teve uma idéia originalíssima,
genial mesmo. Seguiu direto para a Rua do Ouvidor, o centro nervoso
do Rio de Janeiro, repleto de cafés e redações
de jornais, e começou a dizer a amigos e em rodas de bar
que o governo havia mandado prender o marechal Deodoro da Fonseca
e Benjamin Constant. Espalhou ainda que várias guarnições
estavam sendo transferidas do Rio para o interior do país
e que quem manteria a ordem na capital seria a Guarda Negra - a
organização criada pelo vereador José do Patrocínio
e integrada por ex-escravos -, que, a pretexto de apoiar a princesa
Isabel, havia sido usada para dissolver comícios republicanos.
Da Guarda Negra também faziam parte "capoeiras", arruaceiros
e ex-policiais, formando uma espécie de "Patrociniolândia"
ou "Isabelândia" - um movimento que, tocando na política,
tinha elementos de banditismo.
Condecorado por bravura na Guerra do Paraguai, militante na campanha
pela Abolição da Escravatura e republicano, o major
Sólon tinha como objetivo, ao espalhar o boato, levar as
tropas do Exército a odiar ainda mais o Visconde de Ouro
Preto - a ponto de saírem à rua para derrubá-Io.
Na seqüência da revolta talvez surgisse a República.
E era justamente a República que Sólon queria.
Se tudo tivesse dado errado, a idéia de Sólon de
soltar o boato poderia ter-lhe valido o título de "o precipitado
do ano". O risco era muito grande, pois, até a tarde de quinta-feira,
a conspiração andava aos trancos. A sedição
militar vinha se desenvolvendo desde o final de outubro, numa série
de escaramuças entre oficiais e o gabinete ministerial presidido
por Ouro Preto, 53 anos. Primeiro, o visconde imaginou que o oficial
de guarda do Ministério da Fazenda, o tenente Pedro Carolino,
estava dormindo em serviço e mandou prendê-Io. Depois,
o ministro da Guerra demitiu, por desacato, o tenente-coronel João
Nepomuceno de Medeiros Mallet do comando da Escola Militar do Ceará.
O governo também suspendeu Benjamin Constant do cargo de
professor da Escola Militar e puniu seus alunos por terem afrontado,
em público e em manifesto, o ministro da Guerra. E, por fim,
o 22º o Batalhão de Infantaria foi transferido para a Amazônia
por ter participado das manifestações de solidariedade
a Benjamin Constant.
O descontentamento na tropa crescia, mas não havia quem
o congregasse. A idéia republicana grassava com maior vigor
na recém-criada Escola Superior de Guerra, em São
Cristóvão, e na Escola Militar, na Praia Vermelha,
onde o republicano Benjamin Constant era admirado. Mas os cadetes
das escolas não eram muito bem vistos pela tropa, nem Benjamin
Constant tinha ascendência sobre ela. Era preciso um líder,
um respeitado oficial de carreira na tropa que sintetizasse o protesto
militar. Era preciso o marechal Manoel Deodoro da Fonseca, 62 anos,
e a ele acorreram os oficiais revoltosos, tentando trazê-Io
para a causa republicana.
No dia 4 de novembro, graças a um pedido de seu sobrinho,
o tenente Clodoaldo da Fonseca, 29 anos, Deodoro recebeu em sua
casa um grupo de oficiais. O marechal, que padecia de falta de ar
devido à sua arteriosclerose, os atendeu na cama. Os militares
lhe disseram que o Visconde de Ouro Preto pretendia reorganizar
a Guarda Nacional - um corpo militar formado e armado por homens
ricos no interior do país - e fortalecer a Polícia
no Rio para contrapô-las ao Exército. "Só mesmo
mudando a forma de governo", comentou Deodoro. Os jovens oficiais
ficaram surpresos com o comentário do marechal, e o capitão
Antônio Menna Barreto arriscou uma pergunta. "Podemos agir
afoitamente no sentido de congraçarmos mais elementos?".
Deodoro respondeu como quem dá uma bênção:
"Podem". E lá se foram os afoitos, congraçar-se com
os elementos civis da causa republicana, principalmente com o jornalista
Quintino Bocaiúva, 52 anos, líder do Partido Republicano
Brasileiro, e o advogado Aristides Lobo, 51. Ambos entraram em contato
em São Paulo com o advogado campineiro Manuel Ferraz de Campos
Sales, que colocou os republicanos paulistas a par da conspiração.
Se entre os casacas se falava de República, entre os militares
a conversa dominante era a de derrubar o governo de Ouro Preto,
e não a monarquia. Na reunião no Clube Militar na
noite de sábado, dia 9, na mesma hora em que a monarquia
se deliciava no baile da Ilha Fiscal, em nenhum momento se colocou
a necessidade de proclamar a República. Até Benjamin
Constant não usou a palavra república. Só disse
à platéia de cerca de 100 militares que, se em oito
dias não conseguisse resgatar a honra castrense, iria para
a rua quebrar a espada e derramar sangue.
De República se falou a sério com Deodoro na segunda-feira
da semana passada, dia 11. Graças ao pedido de outro de seus
sobrinhos militares, o capitão Hermes da Fonseca, 34 anos,
o marechal concordou em receber Quintino Bocaiúva e Aristides
Lobo. A dupla chegou à casa de Deodoro no Campo de Santana
às 7 horas da noite e lá encontraram o contra-almirante
Eduardo Wandenkolk, 51 anos, o primeiro oficial da Marinha a aderir
à conspirata. Benjamin foi claro: disse que era preciso proclamar
a República e que só Deodoro tinha liderança
o suficiente para fazê-lo. Quintino e Aristides bateram na
mesma tecla: a de que o marechal precisava decidir-se, e já.
Deodoro ouviu a todos em silêncio. "Eu queria acompanhar o
caixão do imperador, que já está idoso e a
quem respeito muito, mas o velho já não regula", disse
o adoentado marechal de 62 anos a respeito do monarca de 63, para
prosseguir com exaltação: "Se ele assim quer, que
leve a breca a monarquia! Façamos a República".
Constant falou então de seu receio quanto à posição
do poderoso marechal Floriano Peixoto, que ocupava o cargo de ajudante
de general, o segundo posto na hierarquia do Ministério da
Guerra. Deodoro os tranqüilizou, contando que uma vez Floriano
lhe dissera que não se meteria em coisa alguma para derrubar
ministérios, mas acrescentara, pegando num botão de
sua farda: "Seu Manoel, a monarquia é inimiga disto. Se for
para derrubá-Ia, estarei pronto". Floriano não estava
muito "pronto" para derrubar a monarquia, conforme demonstrou no
seu encontro com Deodoro, no dia seguinte, terça-feira. Foi
uma conversa um tanto torta. Floriano supôs que Deodoro estivesse
falando apenas de um golpe para derrubar o Visconde de Ouro Preto,
e mesmo assim recomendou prudência. "Só te digo, Manoel,
que nada deves fazer antes de ter procurado um entendimento com
o governo." Como Deodoro insistisse, afirmando que mesmo contando
apenas "com quatro gatos pingados colocaria a procissão na
rua" , Floriano terminou a conversa meio que concordando, mas com
ironia e usando o termo "casacas" para falar dos civis. "Enfim,
se a coisa é contra os casacas, tenho lá em casa uma
espingarda velha".
Posição ambígua, a do alagoano Floriano Peixoto,
50 anos. Ouviu de um marechal a pregação de um golpe
militar, e teria duas alternativas: aderir ao golpe ou mandar prender
Deodoro por conspiração. Achou, no entanto, uma terceira
alternativa. Para Deodoro, insinuou que concordava com a sedição,
mas não se comprometeu. Para Cândido de Oliveira -
o ministro que assumira interinamente a Pasta da Guerra em razão
da doença do titular, o visconde de Maracaju, e agora voltava
para a da Justiça -, Floriano fez chegar uma carta na manhã
de quinta-feira, dia 14. "A esta hora V. Exa. deve ter conhecimento
de que tramam algo por aí além. Não dê
importância, confio na lealdade dos chefes". Na mesma
carta, Floriano agradece ao ministro favores prestados em seu protegido.
O 'tramam algo" de Floriano chegou a mesa do Visconde de Ouro Preto,
que se alarmou e convocou uma reunião em seu gabinete no
mesmo dia. "Estou perfeitamente seguro que a ordem pública
não será alterada", garantiu-Ihe o ministro da Guerra,
visconde de Maracaju. Ouro Preto foi direto ao centro da questão,
querendo saber do envolvimento na trama do militar de maior prestígio
no Exército. "Consta-lhe alguma coisa a respeito do marechal
Deodoro?", perguntou. "Nada consta", respondeu o ministro da Guerra,
"e suponho que não se envolverá em distúrbios,
até porque se acha enfermo".
Nessa reunião, portanto, não se falou em prisão
de Deodoro, mas o boato do major Sólon já começava
a surtir efeito, ainda que alguns dos líderes da revolta
não soubessem que a mudança histórica estava
em marcha. Era o caso de Constant, que estivera com Deodoro e estava
desolado ao cair da noite. Ao descer do bonde no Largo de São
Francisco, encontrou por acaso Aristides Lobo e Francisco Glicério
e Ihes deu péssimas notícias sobre o estado de saúde
do marechal. "Creio que ele não amanhece, e se ele morrer
a revolução está gorada", anunciou.
"Os senhores, civis, podem salvar-se, mas nós, militares,
arrostaremos as conseqüências das nossas responsabilidades."
Dito isso, Constant seguiu para o Clube Naval para uma reunião
com o contra-almirante Wandenkolk e outros oficiais da Marinha.
O boato da prisão de militares havia chegado aos ouvidos
de Quintino Bocaiúva, que enviou um mensageiro ao Clube Naval
para saber se Constant estava bem. Através do mensageiro,
o tenente-coronel respondeu que sim, estava bem, mas que o levante
estava adiado para o domingo, dia 17, em função do
agravamento da doença de Deodoro. Quintino recebeu a resposta
de Benjamin, assustou-se com a perspectiva de adiamento e procurou
o major Sólon. De comum acordo os dois decidiram que, apesar
da prostração de Deodoro e do bilhete de Constant,
era tudo ou nada: mantiveram a data da insurreição
para o dia seguinte.
A partir daí, a movimentação politicomilitar
se subdividiu em três cenários, espalhados pelo Rio
de Janeiro. Num estavam as tropas rebeladas, em São Cristóvão,
nos quartéis e na Escola Militar. Noutro ponto estava o marechal
Deodoro, que abandonou a casa de seu irmão em Andaraí,
no número 4 da Rua Barão de Mesquita, onde havia passado
o dia tentando se recuperar de seus problemas cardíacos,
e retomou ao seu sobrado no Campo de Santana. E no terceiro situava-se
o Visconde de Ouro Preto, também em sua casa, nas cercanias
da estação de trem São Francisco Xavier, onde
recebeu as primeiras notícias sobre a sublevação.
Pouco antes da meia-noite, o visconde recebeu um telefonema do
chefe de Polícia, conselheiro José Basson de Miranda
Osório, informando que o 1º Regimento de Cavalaria estava
em armas. Ouro Preto não esperou que lhe mandassem condução:
seguiu a pé pela Rua de São Francisco Xavier, acompanhado
pelo coronel Gentil José de Castro, que estava hospedado
em sua casa, na esperança de tomar um tílburi. Nas
proximidades da Ponte do Maracanã, Ouro Preto encontrou com
o carro de Polícia que ia buscá-Io em casa. Subiu
nele, deu uma passada pelo Quartel de Cavalaria Policial - onde
só se encontravam quarenta praças e dois oficiais
- e seguiu para a Secretaria de Polícia.
O chefe de governo sentiu na Secretaria de Polícia que a
resistência ao golpe não havia começado com
a energia que ele considerava necessária para o caso. O responsável
pelo início tímido da resistência foi o ajudante-general
Floriano Peixoto, inaugurando um comportamento que iria se repetir
em todas as suas atitudes ao longo do dia. Floriano soubera da sublevação
de toda a 1ª Brigada através do capitão Godolfim,
que lhe falara em nome do tenente-coronel João Batista da
Silva Teles. Ouro Preto perguntou a Floriano por que não
prendera imediatamente o capitão Manoel Joaquim Godolfim,
já que ele se apresentara em nome de uma força que
se armara sem ordem superior. "Respondeu-me que não o prendera
para ganhar tempo e poder se acautelar", diz o ex-presidente do
Conselho de Ministros. No raciocínio de Floriano, se o capitão
Godolfim não voltasse ao quartel, os revoltosos logo saberiam
que havia sido preso e atacariam o governo militarmente antes que
a reação pudesse ser concatenada. No terreno político,
Ouro Preto convocou uma reunião ministerial no Arsenal da
Marinha e para lá se dirigiu, enquanto Floriano foi para
o Quartel General no Campo de Santana.
No arsenal, o visconde levou quinze minutos para acordar o porteiro,
fazer chamar o inspetor e conseguir que o responsável peta
guarnição se apresentasse à sua frente. Já
no Quartel-General, Floriano recebeu o tenente-coronel Silva Teles,
comandante interino da 2ª Brigada, amotinada, e não lhe deu
qualquer ordem, quanto mais a de prendê-Io - limitou-se a
recomendar-lhe prudência e disse que gostaria de falar com
Deodoro e Benjamin Constant. No aguardo da chegada de seus colegas
de ministério, Ouro Preto enviou um telegrama para D. Pedro
II, no seu palácio, em Petrópolis, relatando a sublevação.
O imperador recebeu o telegrama na manhã de sexta, dia 15,
mas não fez nada com ele. D. Pedro II continuou seu cotidiano
como se nada tivesse ocorrido. Chegou então ao arsenal da
Marinha o ministro da Guerra, o visconde de Maracaju, que sugeriu
que se transferissem todos para o Quartel-General, a começar
por Ouro Preto. Ouro Preto aceitou a sugestão e, por volta
das 7 horas da manhã, chegou ao Quartel-General - encalacrou-se
na ratoeira na qual seria cercado e derrubado.
No ínterim, os oficiais da 2ª Brigada ouviram Silva Teles
relatar como tinha sido o seu encontro com Floriano Peixoto e acharam
melhor avisar Benjamin Constant, que até aquela hora, plena
madrugada de sexta-feira, pensava que o levante só aconteceria
no domingo. Constant, que é o diretor do Instituto dos Meninos
Cegos, também no Campo de Santana, e lá mora com a
família, estava dormindo placidamente. Acordado, animou-se
logo. "Preparemo-nos para vencer ou morrer", disse o tenente-coronel
aos oficiais. "Guardemos o último cartucho para saltar nossos
miolos caso sejamos infelizes na luta contra o governo infame."
Previdente, Maria Joaquina, mulher de Constant, deu-lhe um sobretudo
civil para que escondesse a farda, embrulhou seu quepe num jornal
e recomendou ao marido que, caso fosse parado pela polícia,
dissesse que era um médico indo visitar um paciente. Constant
enviou seu cunhado, o tenente Bittencourt Costa, à casa de
Deodoro, no outro lado do Campo, e seu irmão, o major Marciano
Botelho de Magalhães, para sublevar seus alunos na Escola
Militar da Praia Vermelha.
Deodoro, a princípio, não quis acreditar no recado
recebido no meio da madrugada. "É mentira! Isso não
passa de uma cilada do governo!", gritou. Quando lhe falaram que
era o próprio Constant quem mandava o recado, mudou de atitude.
"Ah, foi ele'? Nesse caso é verdade", disse. Levantou-se
com dificuldade, fardou-se, colocou um revólver no bolso
e os arreios de sua montaria num saco de lona. Não levou
a espada por não poder suportar-lhe o peso sobre o ventre.
Antes de sair teve de enfrentar a oposição doméstica,
materializada nos pedidos de sua mulher, Mariana, de 63 anos. "Receando
seriamente um grave acidente na enfermidade do marido, ela procurou
impedir por todos os meios que Deodoro saísse de casa" ,
conta o doutor Carlos Gross, médico do marechal. Deodoro
embarcou num carro e ordenou que o cocheiro seguisse para São
Cristóvão.
Constant chegou antes de Deodoro a São Cristóvão
e dirigiu-se primeiro para a Escola Superior de Guerra, nas vizinhanças
dos quartéis que abrigavam a 2ª Brigada. Todos os sessenta
cadetes da escola estavam em armas - portando revólveres,
carabinas e espadas - à espera das ordens de Constant. Os
três regimentos da 2ª Brigada também já se encontravam
em pé de guerra. Foi dado o toque de reunir e as colunas
se organizaram. A frente marchava o 1º Regimento de Cavalaria, com
lanceiros e carabineiros, comandado pelo tenente-coronel João
Batista da Silva Teles. Depois, desfilavam dois pelotões
da Escola Superior de Guerra, liderados pelo tenente reformado Pedro
Paulino da Fonseca, irmão de Deodoro. Em seguida saiu o 2º
Regimento de Artilharia, com dezesseis "bocas de fogo" (canhões),
comandado pelo major João Carlos Lobo Botelho. Nesse regimento
marchou o funcionário público Antônio Rodrigues
de Campos Sobrinho, que pediu para participar do movimento e foi
alocado ali. Campos Sobrinho foi o único civil a partir com
os revoltosos, fazendo o papel de "povo em armas" .
Fechando o cortejo marchava o 9º Regimento de Cavalaria, comandado
pelo major Sólon. Marchava a pé a cavalaria, devido
à falta de cavalos, e levava atrás uma carroça
com munições. Esse regimento levava caraabinas Winchester,
arma nova no Exército, que ninguém em São Cristóvão
sabia usar direito. As forças do Exército sublevadas
em São Cristóvão reuniam cerca de 450 praças
e cinqüenta oficiais. Somados os sessenta alunos da Escola
Superior de Guerra, o contingente reunia algo em tomo de 600 homens.
Era um contingente problemático na base e no topo. Na base
porque a tropa, além de estar mal armada, não foi
plenamente informada pelos líderes de que estava saindo à
rua para derrubar a monarquia. No topo, também havia problemas
porque só marchavam oficiais de média patente. E também
porque, entre os comandantes, contavam-se alguns monarquistas em
posições estratégicas. Era o caso do tenente-coronel
Silva Teles, que comandava interinamente toda a 2ª Brigada, substituindo
o general Almeida Barreto, e de Lobo Botelho. O major Botelho ficou
tão incomodado ao chegar no Campo de Santana que, pretextando
estar doente, retirou-se para sua casa. Mesmo assim, partiram os
revoltosos. Não levavam bandas nem fanfarras, pois as tropas
eram poucas e os músicos se incorporaram a elas.
Constatando que com aquele contingente, aquele armamento e aqueles
oficiais os revoltosos não iriam muito longe, Constant enviou
o tenente Lauro MüIler para saber o que era feito de Deodoro,
que ele presumia doente. MülIer chegou à casa do marechal
no Campo de Santana, mas ele já havia saído para São
Cristóvão. O marechal topou com a coluna sublevada
na altura do Gasômetro do Mangue. Foi ovacionado por oficiais
e soldados e continuou a acompanhá-los de dentro de seu carro.
Nas imediações da Praça 11 de Junho, Deodoro
enviou o capitão Godolfim e oito soldados para fazer o reconhecimento
no Campo de Santana. Goldofim retomou em minutos com notícias
dúbias. Havia forças da Polícia e da Marinha
fora do Quartel-General no Campo de Santana, e do Exército
e dos Bombeiros dentro dele. Mas as tropas da ordem, apesar de em
maior número e mais bem aparelhadas, estavam em posição
de descanso.
Deodoro ordenou que o cortejo continuasse avançando e, com
extrema dificuldade, abandonou o carro e montou num cavalo. Mais
alguns minutos e a coluna sublevada chegou à saída
da Rua Visconde de ltaúna, que desemboca no Campo de Santana.
Estavam ali forças da Polícia e da Marinha para dar
combate aos revoltosos. Houve momentos de hesitação
nas fileiras da ordem, que Deodoro aproveitou com habilidade de
autoridade. "Então, não me prestam continência?",
perguntou o marechal, severo, a marinheiros e policiais. Em resposta,
todos apresentaram-lhe armas. A revolta republicana ganhava na primeira
refrega, sem disparar um tiro, e o govemo perdia uma partida decisiva
Havia, no entanto, muito o que fazer para a sedição
triunfar: dentro do Quartel-General havia cerca de 2.000 soldados
Mas as coisas dentro do Quartel-General iam pessimamente para o
Visconde de Ouro Preto. "Quem contemplasse aquela força suporia
que ali se achava para uma simples parada ou acompanhamento de procissão",
diz o ex-ministro. O barão de Ladário, ministro da
Guerra, esclarecia a seu chefe que nenhuma força fora enviada
para atacar os revoltosos fora do Quartel porque elas não
eram muito confiáveis. Não eram realmente confiáveis,
tanto que Deodoro já se havia apossado de uma delas e o 10º
de Infantaria, enviado para impedir a passagem dos cadetes da Escola
Militar da Praia Vermelha, simplesmente não retomara. Havia,
de fato, aderido à revolta.
Ouro Preto notou, de dentro do QG, o capitão Godolfim circulando
com seus oito soldados pelo Campo de Santana, sem que ninguém
se aproximasse deles. Achou aquilo um absurdo. Falou com Floriano
e não aconteceu nada. Por fim, ordenou ao general Almeida
Barreto, o comandante titular da 2ª Brigada, que estava lá
fora sublevada, que fosse capturar o destacamento avançado.
"Estou certo de que cumprirá o seu dever", disse o visconde
ao general. "Seguramente hei de cumprir o meu dever", respondeu
Almeida Barreto, mas adotando, como lembra Ouro Preto, uma "expressão
singular". Singularíssima mesmo, até porque Almeida
Barreto havia se comprometido dias antes a formar junto com os revoltosos,
mas na hora agá marchou para o QG e se alinhou com as forças
de Ouro Preto. Mais singular ainda, porque o general circulou pelo
Campo da Aclamação fingindo que ia atacar os sublevados,
mas na prática não fez nada. E singular, ainda, porque
fingiu que colocava suas tropas sob as ordens de Deodoro, mas relutava
em cumpri-las. Em determinando momento, vendo como Almeida Barreto
zanzava sem definir-se, o marechal usou um retumbante palavrão
para xingá-Io.
Quem mais chamava a atenção de Ouro Preto dentro
do Quartel-General era Floriano Peixoto. "Impressionou-me a funda
tristeza que se estampava na fisionomia dos oficiais, quer superiores,
quer subalternos", lembra o ex-ministro. Já Floriano "conservava
a serenidade que lhe é habitual". Floriano andava dum lado
para o outro, falava com vários oficiais, mas sempre que
Ouro Preto chegava perto mudava de assunto ou baixava a voz. Ficou
o QG nessa lengalenga, nesse jogo de cartas marcadas, até
que, por volta das 8 horas da manhã, as tropas de Deodoro
se puseram à frente dos seus portões. O marechal enviou
o tenente-coronel Silva Teles para conferenciar. Deixaram que ele
entrasse - mas a pé e sozinho. Silva Teles, que estava longe
de ser republicano, disse a Floriano que Deodoro queria conversar
com ele. Ouro Preto estrilou na hora: "Conferência! Pois o
marechal Deodoro, não tendo recebido do governo nenhum comando
militar, aqui se apresenta à frente de força armada,
em atitude hostil, e pretende conferenciar?" O visconde viu
Floriano montar a cavalo, sair com seu estado-maior e em seguida
ouviu tiros. "Julguei que ia começar o desagravo da lei",
diz.
Julgou errado. Lá fora, retomando num carro cupê ministerial
do arsenal da Marinha, surgiu o barão de Ladário.
"É o Ladário!", exclamou Deodoro, ordenando a prisão
do ministro da Marinha. Ladário puxou da pistola e atirou,
segundo conta, para acertar em Deodoro. Errou. Apertou o gatilho
de novo, mas os tenentes Müller e Adolfo Pena também
atiraram. "Não matem esse homem", gritou Deodoro. O barão
de Ladário tombou, parece que com dois tiros (um deles com
certeza pegou na região glútea), levou uma coronhada
e se arrastou até uma loja, cujo dono lhe fechou as portas.
O ministro da Marinha foi socorrido nas imediações
e em seguida colocado num bonde, que o levou até o Cosme
Velho, onde mora. O barão está fora de perigo e se
recupera bem.
No interior do Quartel-General, Ouro Preto arriscava sua última
cartada, apelando para os brios de Floriano. O ministro queria que
os canhões, as bocas-de-fogo de Deodoro fossem tomados à
força de baionetas. "No Paraguai, os nossos soldados apoderaram-se
da artilharia em piores condições" , disse Ouro Preto
a Floriano. "Sim, mas as bocas no Paraguai eram inimigas, e aquelas
que Vossa Excelência está vendo são brasileiras,
e eu sou, antes tudo, um soldado da nação." O chefe
do governo constatou, então, que não havia o que fazer.
Faltava que os revoltosos entrassem no Quartel-General, e quem
os ajudou, segundo uma versão do episódio, foi o capitão
Pedro Paulo Fonseca Galvão, outro dos incontáveis
sobrinhos de Deodoro, que se encontrava dentro do QG. Consta que,
apesar dos desmentidos dos amigos do marechal, ao entrar no Quartel-General.
Deodoro gritou: "Viva sua majestade o imperador!". Um obscuro alferes
que estava ao seu lado, o mato-grossense Cândido Rondon, 24
anos, garante que ouviu o "viva". Deodoro, em seguida, conversou
amistosamente com Floriano Peixoto e foi convidado por ele a subir
ao 1º andar, onde estava Ouro Preto.
Ao entrar na sala, Deodoro cumprimentou primeiro seu primo, o ministro
da Guerra, Visconde de Maracaju. Em meio ao maior silêncio,
o marechal fez um discurso intempestivo. "Vossa Excelência
e seus colegas estão demitidos por haver perseguido o Exército",
disse a Ouro Preto. "Os senhores não têm nem nunca
tiveram patriotismo. Patriotismo tem tido o Exército, e disso
deu provas exuberantes durante a campanha do Paraguai." O marechal
lembrou ainda os três dias e noites que passou no meio de
um lodaçal durante a guerra, "sacrifício que Vossa
Excelência não pode avaliar". Impassível, o
Visconde de Ouro Preto ouviu tudo sem interromper. Depois, disse
a Deodoro: "A vida política, senhor general, tem também
os seus dissabores. E a prova disso tenho agora, em que sou obrigado
a ouví-Io" .
O marechal demitiu o ministério e afirmou que Ouro Preto
e Cândido de Oliveira, ministro da Justiça, ficariam
presos até serem deportados para a Europa. "Quanto ao imperador",
concluiu, "tem a minha dedicação, sou seu amigo, devo-lhe
favores: seus direitos serão respeitados e garantidos." Disse
também que encaminharia uma lista de nomes do novo ministério
a D. Pedro II. De República, nada falou. Floriano Peixoto
intercedeu junto ao marechal pedindo que os dois ministros depostos
não fossem presos. Deodoro concordou. Encerrada a conversa,
Deodoro desceu para confraternizar com as tropas no Campo de Santana.
Floriano esperou os soldados se retirarem da praça, tomou
um bonde e foi para casa.
No Campo de Santana havia uma multidão considerável.
O 10º de Infantaria, que havia sido enviado para barrar os cadetes
da Escola Militar da Praia Vermelha, chegava à praça
junto com os alunos, festejando o fato consumado. Chegaram, também,
os líderes civis republicanos, como Quintino Bocaiúva
e Aristides Lobo, e um monte de curiosos, atraídos pela movimentação
militar. Ao montar no cavalo, Deodoro recebeu aclamações
delirantes, aplausos e vivas. O capitão Antônio Adolfo
Menna Barreto deu tantos "vivas" que acabou tendo um piripaque e
desmaiou. Sabe-se, no caso, que Menna Barreto dava vivas à
República, mas várias testemunhas da cena afirmam
que em nenhum momento o líder máximo da revolta triunfante,
Deodoro da Fonseca, proclamou a República. O tenente Sebastião
Bandeira notou que aqueles eram o local e o momento apropriados
para se proclamar a República e disse isso a Benjamin Constant.
Constant, então, sussurrou algo no ouvido de Deodoro e tranqüilizou
o tenente Bandeira. "Descanse, a nossa causa triunfou", disse. Um
oficial, em seguida, deu um outro viva à República.
"Deixe ao povo essa manifestação", repreendeu Deodoro.
Constatando que a derrubada da monarquia estava malparada, o major
Sólon teria dito a Deodoro que só embainharia a espada
se ele proclamasse a República. Os deodooristas mais fanáticos
garantem que o marechal deu um viva à República nesse
momento. Mas só eles dizem isso. Deodoro tomou a dianteira
das tropas e liderou o cortejo pelo centro da cidade. Seu objetivo
era ir até o arsenal da Marinha, para se certificar se aquela
arma recebera bem a notícia da deposição de
Ouro Preto. Bocaiúva arrumou um cavalo e destilou junto do
marechal e de Benjamin Constant. Aristides Lobo seguiu a pé.
"Os cariocas olhavam uns para os outros pasmados, interrogando-se
com os olhos sem dizer palavra", diz o dramaturgo Arthur Azevedo,
que viu o cortejo militar. Na Rua 1º de Março a passeata
desfilou em silêncio, conta Azevedo, com Deodoro tentando
manter-se ereto na sela e apresentando sintomas de recrudescimento
de sua doença cardíaca.
No arsenal da Marinha, Deodoro constatou que tudo estava bem. Deu
ordem para que os regimentos sublevados voltassem a seus quartéis
e seguiu para sua casa, onde se meteu na cama. Como não havia
nada para fazer, os populares que acompanhavam o cortejo se aproximaram
do republicano José Lopes da Silva Trovão, 42 anos,
civil como eles, e pediram-lhe que pagasse uma rodada de bebida
numa taverna das imediações para comemorar os eventos
da manhã. Com 11 000 reis no bolso, Lopes Trovão topou.
Só que a conta ficou em 40 000 reis e o taverneiro teve de
arcar com o prejuízo.
No início da tarde, portanto, o movimento era vitorioso.
O Exército, sob o comando de Deodoro, havia "lavado" sua
honra, restituído o brio ganho na Guerra do Paraguai - a
mais longa e sangrenta da América Latina e fonte de um endividamento
de 45 milhões de libras esterlinas do Império junto
ao Banco Rothschild. Ao mesmo tempo, o movimento estava derrotado,
já que as instituições monárquicas estavam
de pé e D. Pedro ll, retornando de Petrópolis, chegava
à Estação de São Francisco Xavier e
se dirigia para seu palácio no paço da cidade. Às
3 horas da tarde, ao perambular pela cidade e constatar que pouquíssimas
pessoas falavam de República, Constant percebeu o quanto
a situação era esdrúxula. O tenente-coronel
encontrou com o jornalista republicano Arubal Falcão, 30
anos, com um grupo de amigos na Rua do Ouvidor, em frente à
redação de Cidade do Rio e tomou providências.
"Agitem o povo que a República não está proclamada",
disse-Ihes.
Falcão não perdeu tempo. Juntou-se primeiro aos republicanos
Pardal Mallet e Silva Jardim - um temperamento vulcânico de
quem os próprios líderes republicanos haviam escondido
a conspiração, por considerá-Io demasiado radical.
A trinca precisava de um local para fazer a agitação
e procurou um vereador para ver se era possível usar a Câmara
Municipal. Estranhamente, procuraram o monarquista negro José
do Patrocínio, 36 anos, detestado pelos republicanos devido
às suas conhecidas ligações com a Guarda Negra.
Estranhamente, Patrocínio havia aderido à República
naquele dia e, na condição de vereador mais moço
(conforme a lei exige), convocou uma sessão da Câmara.
Os republicanos arregimentaram algumas pessoas que passavam e se
dirigiram para a Câmara, que também fica no Campo de
Santana. Lá, referendaram uma confusa moção
que Aníbal Falcão havia escrito às pressas
na redação de Cidade do Rio. "O povo, reunido em massa
na Câmara Municipal, fez proclamar, na forma da lei ainda
vigente, pelo vereador mais moço, após a revolução
que aboliu a monarquia no Brasil, o governo republicano", diz o
documento. Logo a seguir, a moção solicitava uma proclamação
para valer a quem de fato detinha o poder. "Convencidos de que os
representantes das classes militares, que virtualmente exercem as
funções de govemo no Brasil, sancionarão este
ato, esperam os abaixo-assinados a pronta e imediata proclamação
da República. Os "abaixo-assinados" se intitulavam "os
órgãos espontâneos da população
do Rio de Janeiro"' e "o povo reunido em massa" contava umas
100 pessoas.
De posse desse papel, uma parte dos manifestantes atravessou o
Campo de Santana às 6 horas da tarde e postou-se na frente
da casa de Deodoro. O Marechal, com falta de ar e os pés
inchados, continuou na cama, mas Constant apareceu na sacada do
primeiro andar do sobrado. De baixo, Patrocínio berrou o
que havia se passado na Câmara. De cima, Constant hesitou,
respondendo que um governo provisório convocaria uma Assembléia
Constituinte para que a nação pudesse "deliberar definitivamente
acerca de uma forma de governo".
A hesitação de Constant se devia a motivos diferentes
dos de Floriano. Positivista de longa data, Constant era um pacifista,
e talvez quisesse que o Exército não tivesse um papel
tão preponderante na instituição da República
no Brasil, preferindo que uma Constituinte proclamasse o novo regime.
A proclamação, no entanto, se impôs logo a seguir,
devido às trapalhadas perpetradas pelo Visconde de Ouro Preto
e por D. Pedro II. Instalado no palácio do Rio de Janeiro
o imperador mandou chamar Ouro Preto, aceitou sua renúncia
com dificuldade e concordou também com o nome que o visconde
lhe indicou para sucedê-Io no cargo: o senador Gaspar Silveira
Martins, 55 anos.
Havia duas dificuldades para viabilizar nome de Silveira Martins
como novo presidente do Conselho de Ministros. Primeiro, o senador
gaúcho estava em viagem de sua província para o Rio
de Janeiro, onde deveria chegar somente no domingo. Era muito difícil
que a situação política permanecesse a mesma
no Rio durante dois dias. A segunda dificuldade, esta realmente
intransponível, era fazer Deodoro aceitar um ministério
presidido por Silveira Martins. Ambos eram inimigos desde o tempo
em que o marechal serviu no Rio Grande do Sul, quando disputaram
as graças da baronesa do Triunfo. Desde então, Silveira
Martins não perdia oportunidade para espicaçar Deodoro
da tribuna do Senado, dizendo que ele era um indisciplinado, insinuando
que malversava fundos e até contestando sua eficácia
enquanto militar. "Quanto habilitações do marechal
em negócios, sua profissão", disse certa vez o senador,
provocando riso entre seus colegas parlamentares, "recordo
que, quando comandante de uma divisão de observação,
dividira-a em duas brigadas, confiando o comando, uma a um paralítico
e o da outra a um octagenário, que caiu do cavalo parado."
Somente ao saber, já de noite, através de Benjamin
Constant, que o imperador havia nomeado Silveira Martins para chefia
do ministério, Deodoro teria se resolvido a aceitar a instauração
do regime republicano. Também se tentou que Deodoro fosse
ter um encontro pessoal com D. Pedro II, mas o marechal recusou
com essas palavras: "Se eu for, o velho chora, eu choro também,
e está tudo perdido". Mais tarde. D. Pedro II foi convencido
a mudar de posição e indicou nome do conselheiro José
Antônio Saraiva, 66 anos, para o lugar de Silveira Martins.
Saraiva enviou o capitão Roberto Trompowsky a Deodoro para
saber se marechal aceitava que ele organizasse ministério.
"É tarde, a República já está feita
e o novo governo constituído", disse Deodoro a Trompowsky,
depois de ler carta do conselheiro Saraiva. "Os principais culpados
de tudo isso são o conde DEu e o Visconde de Ouro Preto:
o último por perseguir o Exército e o primeiro por
consentir nessa perseguição".
Ouro Preto, deduz-se, ainda poderia ser substituído, mas
o conde DEu, casado com a princesa Isabel, era intolerável
por um longo período. O conde tem fama de arrogante porque
ouve mal e, portanto, responde coisas diferentes das que lhe são
perguntadas, fala com sotaque francês e é dono de cortiços
no Rio, pelos quais cobra aluguéis exorbitantes de gente
pobre. Temia-se que, com a subida de Isabel ao trono, ele viesse
a ser o governante de fato do Brasil.
Com a concordância de Deodoro em se instituir a República,
Bocaiúva, Aristides Lobo, o campineiro Francisco Glicério
reuniram-se com Benjamin Constant no Instituto dos Meninos Cegos
que acabou com a monarquia, lembrar em to jocoso o ditado popular
"Em terra de cego, quem tem um olho é rei". Houve
uma certa disputa em torno dos nomes, mas no final concordou-se
que Deodoro chefiaria o governo, Bocaiúva ficaria com o Ministério
dos Negócios Estrangeiros ( que foi rebatizado de Ministério
das Relações Exteriores), o gaúcho Demérito
Ribeiro com o da Agricultura, Constant com o da Guerra, Wandenwolk
com o da Marinha, Rui Barbosa com o da Fazenda e Campos Sales
que só veio a conhecer Deodoro no dia 18 com o da
Justiça, para agradar aos paulistas. O primeiro artigo do
decreto inaugural do governo afirma: "Fica proclamada provisoriamente
e decretada como forma de governo da nação brasileira
a República Federativa". O "provisoriamente"
talvez tenha sido colocado por sugestão de Constant, ainda
na esperança de que a Constituinte reconhecesse o fato consumado
republicano.
Terminada a redação, Constant perguntou, com a papelada
na mão: "Quem leva isto ao velho?" O "velho",
para os republicanos, é Deodoro da Fonseca. O tenente Jaime
Benévolo levou os papéis para Deodoro em sua casa
ali do lado, número 99 do Campo de Santana. O marechal só
pestanejou na hora de assinar a nomeação de Demérito
Ribeiro. "Este quem é?", perguntou. Foi lhe explicado
que era um republicano gaúcho. Deodoro disse que havia morado
no Sul, mas não lembrava de nenhum republicano com esse nome.
Mesmo assim, disse: "Vá lá" e assinou a
nomeação. No dia seguinte, sábado, o governo
ordenou a D. Pedro II que saísse do país, e coube
ao boateiro major Sólon levar a comunicação.
O major se embaralhou todo na hora, chamando o imperador de "Excelência,
Alteza e Majestade" e até pediu permissão para
retirar-se. Estava encerrados os quase cinqüenta anos de reinado
do imperador.
No próprio dia 15, Aristídes Lobo escreveu um artigo
para o Diário Popular, que só publicou na segunda-feira,
dia 18, a respeito de proclamação da República.
"O povo assistiu àquilo bestializado, atônito,
surpreso, sem saber o que significava. Muitos acreditavam estar
vendo uma parada", diz o ministro do Interior em seu artigo,
com uma sinceridade e uma capacidade de síntese notáveis.
A população carioca realmente contemplou tudo aquilo
bestificada. Mas, em outro canto do artigo, Aristides Lobo projeta
os fatos de sexta-feira passada para o futuro. "O que se fez
é um degrau, talvez nem tanto, para o advento da grande era",
escreve, e completa depois: "Estamos em presença de
um esboço rude, incompleto, completamente amorfo. Não
é tudo, mas é muito". O Brasil apenas adentrou
na era republicana, que pode trazer grandes benefícios para
o país em matéria de desenvolvimento e liberdade.
O que se fez na sexta-feira passada foi subir um degrau marcante
para se entrar na grande era.
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Quem são os ministros mais fortes
no governo provisório da República
| Campos Sales, 48 anos: advogado de Campinas,
filho de uma família de fazendeiros e republicano
histórico, já foi deputado. É o representante
de São Paulo no governo provisório. Só
veio a conhecer o marechal Deodoro da Fonseca pessoalmente
na noite de segunda-feira, dia 18. |
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Aristides Lobo, 51 anos: paraibano de Mamanguape,
é formado em Direito. Integrava a ala radical dos
republicanos até o congresso do partido, em maio,
quando apoiou os moderados de Bocaiuva. Acha que os cariocas
confundiram a proclamação com uma parada
militar. |
| Benjamin Constant, 53 anos: tenente-coronel e
professor, ensinou matemática aos netos do imperador,
mas não agüentou a malcriação
dos meninos e se demitiu. Líder dos cadetes nas
escolas militares, é positivista convicto. "Ordem
e Progresso" é o seu lema. |
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Quintino Bocaiuva, 52 anos: jornalista, fundador
e dirigente do Partido Republicano Brasileiro. Nasceu
com o sobrenome Sousa, mas adotou o Bocaiuva, do tupi,
para afirmar-se como nacionalista. Foi quem fez a ligação
entre civis e militares na conspiração republicana. |
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Óleo de Pedro Américo/
reprodução Lula Rodrigues
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Casamento da Princesa Isabel com o Conde
DEu: o príncipe consorte tem fama de arrogante
porque ouve mal, não responde direito a perguntas que
lhe fazem e fala com sotaque francês. Dono de cortiços,
cobra aluguéis altos de gente pobre. Temia-se que,
com a subida da Princesa Isabel ao trono, o Conde DEU
passasse ao ser o verdadeiro governante.
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Óleo de Victor Meirelles
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Guerra do Paraguai (1864-1870): O Brasil
e as repúblicas da Argentina e do Uruguai venceram
a mais sangrenta guerra latino-americana do século,
mas o Império saiu do conflito numa péssima
situação econômica. Para financiar a guerra,
o Brasil fez empréstimos junto ao Banco Rothschild,
da Inglaterra, que agora em 1889 somam mais de 45 milhões
de libras esterlinas.
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|
Galanteios do bardo agreste
Um marechal poeta e dançarino
 |
| Deodoro da Fonseca: conta piadas, recita
em latim, gosta de jóias e de perfumar a barba |
Nos anos finais da monarquia não houve oficial que
desfrutasse maior prestígio nas fileiras do Exército
brasileiro que o marechal Manoel Deodoro da Fonseca. Alagoano
de 62 anos, ele é o filho mais ilustre de uma numerosíssima
família de militares. Seu pai, Manoel Mendes da Fonseca,
atingiu o oficialato só aos 38 anos, participou de
uma revolta contra o governo em Alagoas, foi reformado como
tenente-coronel e morreu há trinta anos. De seus oito
filhos homens, todos seguiram carreira militar, sete participaram
da Guerra do Paraguai, três nela morreram e outros dois
foram feridos em combate - entre eles, Deodoro. O clã
dos Fonseca não pára aí; pelo menos cinco
sobrinhos de Deodoro, todos oficiais do Exército, participaram
dos acontecimentos de sexta-feira passada. Integrante de um
clã de oficiais, com medalhas e promoções
conquistadas na Guerra do Paraguai, o marechal envolveu-se
até o pescoço na chamada "questão militar",
sendo um defensor extremado dos interesses da corporação.
Tanto a tropa como a corte imperial viram nele o representante
por excelência da maneira de agir e pensar dos oficiais
brasileiros.
De porte altivo e gestos largos, o marechal é militar
até na maneira de escrever. Nas cartas que enviou ao
imperador no início de 1887, defendendo o cancelamento
de punições oficiais, tropeça-se a cada
frase em referências ao "pundonor", "brio", "dignidade",
"honra" e "hombridade' do Exército. Dentro desse
rígido figurino militar, no entanto, esconde-se um
Deodoro mais ameno, mais humano. Ele é vaidoso na aparência
e no vestir, gosta de usar jóias, pavoneia seus conhecimentos
de latim, não tem filhos mas ama crianças, conta
piadas, considera-se um bom dançarino, escreve seus
versinhos e, mais que tudo, aprecia sobremaneira os encantos
femininos. O marechal está para completar seu trigésimo
aniversário de casamento com Mariana Cecília
de Sousa Meireles, 63 anos, mas sua atribulada vida amorosa
é assunto de todas as conversas. Deodoro, o valente,
só tinha medo das irmãs Emília e Amélia,
que o enfrentavam abertamente para condenar suas aventuras
extraconjugais.
Quando se interessa por uma jovem, o chefe do governo provisório
é capaz dos maiores improvisos e proclamações.
Nesses embates, prefere armas literárias; com sua caligrafia
caprichada, escreve rimas ou quadras nos leques das moças
nas quais está interessado. Quando foi comandante de
Armas na Província do Rio Grande do Sul, Deodoro compôs
versos singelos para a filha de um amigo, o visconde de Pelotas:
Anjo que sois, permiti
ao bardo agreste
A ousadia do pobre
galanteio.
Na mesma ocasião, o bardo agreste ensaiou outros pobres
galanteios para a baronesa do Triunfo, mas parece que quem
caiu nas graças da moça foi o senador Silveira
Martins. O senador quis impressionar a baronesa como cavalariço
e acabou caindo do cavalo na frente da fazenda da família
dela. Quebrou a perna e, durante mais de um mês, foi
a jovem quem cuidou de Silveira Martins. Quando Deodoro tentou
encantar a baronesa, já era tarde. Data daí
a inimizade entre o marechal e Silveira Martins. No momento,
Deodoro nutre uma profunda admiração e amizade
pela viúva de um rico fazendeiro uruguaio. Mal entrada
na casa dos 20 anos, a jovem embeleza os salões cariocas.
Ela é um bom par para o marechal, um verdadeiro pé-de-valsa.
Até num salão de baile Deodoro gosta de ser
o comandante, orientando os volteios de todos os dançarinos
e gritando em francês: "Les dames en avant, les
chevaliers en arrière!" (As damas na frente, os cavalheiros
atrás).
Alegre e extrovertido. o marechal escreveu um poema satírico
chamado A Guerra do Paraguai por um Português,
no qual imita o sotaque lusitano, e duas canções
brejeiras. Quem já escutou as cançonetas não
ousa repetir seus versos, por não considerá-Ios
apropriados a crianças e mulheres. Contador e criador
de piadas, Deodoro imita vozes e trejeitos ao narrar anedotas.
"Desopilante", comenta o doutor Palha, cirurgião
do Exército que serviu com o marechal em Corumbá
no ano passado, referindo-se ao desempenho do chefe do governo
ao contar piadas depois do jantar. Com boa memória,
Deodoro lembra não só de anedotas como de trechos
inteiros das Bucólicas, de Virgílio, e de A
Arte de Amar, de Ovídio, que costuma recitar em latim.
Sai-se melhor, porém, ao recitar máximas e locuções
latinas, mais curtas. Ou sai-se pior: costuma escandir provérbios
latinos a propósito de tudo. Alguns dos amigos e companheiros
já estão cansados do latim do marechal.
Aristides Lobo, o novo ministro do Interior, cismou com um
outro hábito de Deodoro da Fonseca - o de usar jóias.
O ministro acha de gosto duvidoso o pesado anel que o chefe
do governo usa no dedo mínimo. Sem contar o peito repleto
de medalhas e comendas - uma delas, a Grande Dignatária
da Ordem da Rosa, lhe foi conferida pessoalmente por D. Pedro
II em março passado -, há também o prendedor
de gravata de pérola, os chamativos botões nos
punhos da farda ou do paletó e a correntona que segura
o relógio de bolso. Elegante no vestir, o marechal
manda fazer suas sobrecasacas no alfaiate Raunier, um dos
melhores do Rio de Janeiro, e não deixa o seu sobrado
no Campo de Santana sem antes perfumar a barba grisalha com
fragrância de violetas. Ainda que sua mulher tenha herdado
algumas posses, Deodoro está longe de ser rico. Anda
de bonde pelas ruas do Rio e, de uma família de classe
média, tem fácil comunicabilidade com o povo.
Isto quando não está irritado ou exaltado, o
que lhe acontece com certa freqüência. Nessas ocasiões,
mesmo em discussões com companheiros, apela para a
grosseria. A arteriosclerose e a falta de ar freqüentemente
fazem com que Deodoro oscile rapidamente entre a exaltação
e a prostração corno aconteceu na sexta-feira
passada.
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