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Trabalho
VEJA, 20 de novembro de 1889

A Alemanha concede seguro contra invalidez e pensão de aposentadoria para trabalhadores

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Engels


O chanceler alemão Otto von Bismarck, de 74 anos, não é bom apenas de guerra – embora os austríacos e os franceses tenham razões para considerá–Io quase insuperável na arte de manobrar canhões. Bismarck é muito hábil, também, em articulações políticas destinadas a neutralizar seus adversários dentro da Alemanha. Observe–se, por exemplo, o que Bismarck acaba de fazer para minar a crescente simpatia que o Partido Social–Democrata vem conseguindo entre os operários alemães. Sob o comando do chancele, o Reichstag, o parlamento alemão, aprovou um conjunto de leis que colocam os trabalhadores do país numa situação como não se vê em nenhuma outra parte do mundo. Os assalariados, lá, gozam hoje de assistência médica, seguro por acidente e invalidez e, por fim, de pensão de aposentadoria aos 60 anos.

"O governo deve oferecer aos operários uma mão amiga na aflição, não como esmola, mas como um direito", afirma Bismarck, um aristocrata de origem e burocrata por formação, que, pelos serviços prestados ao Estado, foi sagrado príncipe pelo imperador Guilherme l. Sabe–se que os empresários alemães não têm apreciado muito as atitudes de Bismarck, por considerá–Ias uma intromissão descabida do Estado na economia. Formados no clima liberal, que vem dominando o mundo nesta segunda metade do século XIX, os empresários acham que as pendências entre empregadores e empregados devem ser resolvidas pelas duas partes exclusivamente, sem interferência de ninguém, muito menos do Estado. "Tenho a liberdade de empregar quem eu quiser nas minhas oficinas ou usinas", afirma um empresário da indústria pesada. "Prefiro ver extintos todos os altos–fornos a ceder à pressão." Não se imagina que Bismarck dê muito ouvido a tal tipo de argumentação. Para ele, o Estado é o centro de tudo, uma tese que o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel defendeu com brilho algumas décadas atrás e que fez milhares de adeptos no país.

Tão irritados com as movimentações do chanceler quanto os empresários estão os integrantes do Partido Social–Democrata, que forma a esquerda no espectro político germânico e europeu. Um dos militantes que investiram furiosamente contra Bismarck chama–se Eduard Bernstein, de quem consta que estaria revendo as idéias do falecido Karl Marx, autor de O Capital, uma espécie de bíblia da social–democracia européia. "Esperar que o estado de classe atual solucione o problema social é como esperar que o carvão dê uva", afirmou Bernstein nas páginas do Sozial Demokrat, publicação oficial do partido. Nessa pancada, Bernstein tem o apoio integral de Friedrich Engels, 69 anos, um veterano da social–democracia que colaborou a vida inteira com Marx, oferecendo–lhe idéias e dinheiro. Engels esteve em Paris e só no dia 14 de julho, aniversário da tomada da Bastilha, durante a Revolução Francesa, fundou novamente a Associação Internacional dos Trabalhadores, que havia se esvanecido durante as divergências entre os comunistas e os anarquistas. Agora, Engels trabalha com as anotações do amigo morto para montar a quarta edição do primeiro volume de O Capital e vê nas leis de Bismarck uma tentativa da "burguesia" de iludir as "massas operárias".

Essas leis contrastam notavelmente com o que se vê no resto do mundo, mesmo na Inglaterra, berço da indústria moderna. Ainda há pouco tempo, uma operária inglesa de 20 anos, do ramo de confecções, morreu depois de trabalhar 26 horas e meia ininterruptas "num cubículo estreito e mal ventilado", como testemunharia depois o médico chamado a atendê–Ia. Apurou–se em seguida que, em certas épocas, a jovem morta e outras sessenta companheiras trabalhavam até trinta horas seguidas, reanimadas por doses de sherry, vinho do Porto ou café. Disse então o Morning Star, jornal que nada tinha da socialista: "Nossos escravos brancos são forçados ao túmulo pelo trabalho, arruinam–se e morrem sem canto nem glória".

Não é das mais confortáveis, hoje, a situação de Bismarck – não por causa da má–vontade dos homens de negócios alemães nem devido às investidas dos sociais–democratas. É que o jovem imperador Guilherme II, de 30 anos, empossado há pouco tempo, parece não simpatizar muito com o homem que ofuscou o longo reinado de seu avô, Guilherme l. Com o braço esquerdo quase paralisado desde o nascimento, Guilherme II tem sonhos grandiosos. "Estamos destinados a grandes façanhas e eu os guio para tempos maravilhosos", proclamou ele aos alemães. Se esses tempos maravilhosos guardam alguma relação com guerra, só o futuro responderá. Em outra ocasião, Guilherme II insinuou querer reproduzir, nos dias de hoje, o Império Romano. Parece certo que o jovem imperador espera a primeira oportunidade para defenestrar o velho chanceler.


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