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Tecnologia

Depois do telefone e da luz
elétrica, surgem a máquina que organiza dados, a roda a ar e o filme
de celulóide
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| A máquina tabuladora elétrica
do americano Hollerith: processamento de dados |
Nos últimos anos, o homem empurrou as fronteiras do conhecimento
como jamais havia feito antes. Thomas Alva Edison inventou a luz
elétrica há uma década - e hoje já existem
cidades inteiras iluminadas a poder das lâmpadas, como Nova
York. Alexandre Graham Bell criou o telefone em 1876. No Brasil
de 1889, já são 10 000 os aparelhos telefônicos
- é verdade que todos eles funcionam mal. Nos Estados Unidos,
eles chegam a 50 000, num marco da nova era das comunicações.
O que espanta no turbilhão das invenções é
a capacidade que elas têm de modificar a vida dos cidadãos
comuns, de levar a modernidade aos lares e de se traduzir em conforto.
Os registros de patentes mais recentes nos Estados Unidos e na
Europa mostram que a onda das invenções não
perde o fôlego. Uma máquina elétrica de processamento
de dados promete agilizar os trabalhos do próximo recenseamento
dos Estados Unidos, no ano que vem. O empresário americano
George Eastman, dono dos laboratórios fotográficos
Eastman, o maior do mundo, acaba de patentear um novo tipo de filme
fotográfico, à base de celulóide, que dispensa
o trabalho exaustivo de revelação do papel fotográfico.
A novidade mais prosaica vem da Irlanda. O veterinário John
Dunlop desenvolveu um novo tipo de roda de borracha para bicicleta
que, em vez de maciça, é oca por dentro - e ganha
consistência quando é inflada com ar comprimido, como
um colchão de ar. As novidades tecnológicas são
detalhadas a seguir.
Rapidez no censo
O próximo censo demográfico dos Estados Unidos, previsto
para o ano que vem, será o mais preciso da história
do país, e seus resultados devem ser concluídos em
um terço do tempo gasto no recenseamento anterior, o de 1880.
O estatístico americano Herman Hollerith, de 29 anos - formado
pela Universidade Colúmbia e com estudos realizados também
no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT -, acaba de patentear
um equipamento capaz de processar dados com o auxílio de
impulsos elétricos, que será adotado no censo de 1890.
Batizado de Máquina Tabuladora Elétrica, o equipamento
é dotado de um mecanismo complexo. Na parte superior da máquina,
um operador registra as informações a respeito de
cidadãos americanos fazendo perfurações num
rolo de papel - dados como a idade, a profissão e a renda
dos entrevistados pela pesquisa. Cada resposta requer um conjunto
distinto de perfurações. Depois de registrar os dados
sobre uma pessoa, o operador da máquina deve dar um espaço
no rolo de papel e iniciar a perfuração das informações
sobre um novo entrevistado.
A novidade da máquina de Hollerith está na fase seguinte
desse processo. O papel perfurado passa entre dois cilindros metálicos,
nos quais existe uma corrente elétrica. Cada furo no papel
coloca em contato os dois cilindros, dando origem a um impulso elétrico.
O conjunto de impulsos resulta em registros nos quarenta relógios
da máquina tabuIadora. Se o entrevistado for um homem, o
relógio do sexo masculino registra uma marcação.
Se tiver mais de 40 anos, outro relógio é disparado.
Os relógios acumulam esses dados em separado e facilitam
a contagem final do censo. As máquinas disponíveis
até hoje jamais haviam utilizado a eletricidade nesse processo
- e requeriam muito trabalho manual na contagem dos dados. "Minha
máquina precisa ser mais bem desenvolvida", afirma o
estatístico Hollerith sobre seu invento. "Mas não
tenho dúvidas de que ela servirá de modelo para máquinas
processadoras de dados ainda mais poderosas", arrisca.
O jovem Hollerith, filho de imigrantes alemães, teve a idéia
de desenvolver sua máquina tabuladora elétrica quando
começou a trabalhar como estatístico no censo americano
de 1880, convidado por seu professor William Trowbridge, também
da Universidade Colúmbia. As informações sobre
os 50 milhões de americanos foram compiladas quase manualmente.
Naquela época, os dados foram registrados em cartões
perfurados, mas não existia equipamento capaz de "ler"
o conjunto de informações e acumular os resultados.
"O trabalho era monstruoso", recorda-se Hollerith, que
começou a desenvolver sua tabuladora em 1885 e, dois anos
depois, já construíra um protótipo da máquina.
Os resultados do censo de 1880 só foram divulgados oito anos
mais tarde, em 1888, quando os dados já estavam defasados.
Com a máquina elétrica de Herman Hollerith, espera-se
que as conclusões sobre o censo de 1890 demorem no máximo
três anos para ser levadas a público.
Reinvenção da roda
Um problema que os usuários de bicicletas já se acostumaram
a enfrentar é a qualidade precária das rodas de borracha
destes veículos - elas não suportam o atrito com o
solo e acabam se despedaçando. Graças ao veterinário
escocês John Boyd Dunlop, 49 anos, este problema está
se tomando coisa do passado na Inglaterra. Dunlop acaba de inventar
um novo e engenhoso tipo de roda - batizada de pneumático
e dotada apenas de um tubo oco de borracha - que substitui com eficiência
os cinturões de borracha maciça que envolvem hoje
em dia os aros de bicicletas. Inflado com ar comprimido, o tubo
de Dunlop adquire forma e dureza equivalentes às da roda
convencional, mas é mais macio. O pneumático tem vida
útil extensa e ainda oferece a vantagem de amortecer os solavancos
da bicicleta, tornando os passeios mais agradáveis. "Cheguei
a esta invenção por acaso", diz Dunlop.
Três anos atrás, o veterinário observou que
as rodas do triciclo de seu filho Johnnie, então com 10 anos,
abriam sulcos no gramado de sua casa e se estragavam com pouco tempo
de uso. Dunlop imaginou, então, que as rodas de bicicleta
poderiam seguir a mesma tecnologia dos colchões de ar, que
adquirem consistência com uma injeção de ar
comprimido. O pneumático estava concebido. Dunlop colou,
uma à outra, as bordas de uma lâmina de borracha, transformando-a
num tubo. Em seguida, colou também as extremidades dessa
bisnaga - deixando-a do tamanho exato de uma roda de bicicleta.
Por fim, o irlandês instalou uma válvula no tubo circular,
por onde uma bomba injeta ar. É preciso que a borracha esteja
bem vedada, caso contrário o ar escapa. Para proteger o pneumático,
o veterinário construiu uma cobertura externa de borracha
mais dura, amparada numa estrutura de arame, que envolve o tubo.
A cobertura mais dura, no entanto, não resolve o grande problema
da invenção de Dunlop: ao passar sobre um objeto pontiagudo,
como um prego ou caco de vidro, a nova roda fura e a bicicleta não
pode ser pedalada até que o pneumático seja novamente
inflado de ar.
No início do próximo ano, a primeira fábrica
de pneumáticos de John Dunlop começará a funcionar
na Inglaterra, com capacidade de produção de 1 500
unidades por mês - em sociedade com o empresário Harvey
Du Cros. "O pneumático poderá ser utilizado também
em rodas de charretes e carroças", diz Dunlop, que antes
de criar o pneumático dedicava-se exclusivamente a seu consultório
veterinário e jamais pedalara uma bicicleta. A rigor, a invenção
poderá ser utilizada em qualquer veículo que possua
rodas, excetuando-se os trens e bondes, que andam sobre trilhos.
O filme de Eastman
Depois de ter popularizado a máquina fotográfica
no ano passado, o inventor e empresário americano George
Eastman, 35 anos, dedica-se agora a aperfeiçoar suas câmaras.
Ele acaba de lançar um novo filme, à base de celulóide,
com definição de imagens bem superior à do
papel fotográfico, que salta diversas etapas no delicado
processo de revelação das fotos. Com a velha técnica
do papel fotográfico, as imagens registradas no papel sensível
à luz eram fixadas em placas de vidro, com o auxílio
de emulsões. A imagem transposta para o vidro servia de negativo
para as cópias de fotografia, num processo caro e trabalhoso.
Com o filme de celulóide, essas fases da revelação
desaparecem. A imagem é registrada no filme, que é
transparente e flexível - e o próprio celulóide
se toma a base para a reprodução das cópias,
no lugar das placas de vidro.
Mesmo antes de dar esse passo, as máquinas fotográficas
do empresário americano já eram um sucesso. Em junho
do ano passado, os Laboratórios Eastman lançaram os
primeiros modelos populares de câmaras, vendidas por 25 dólares.
As pequenas máquinas são dotadas de um rolo de papel
sensível à luz - agora substituído pelas tiras
de celulóide - capaz de registrar até 100 fotos seguidas.
Ao portador da câmara cabe a tarefa de escolher as poses e
apertar o clique. Depois de gasto todo o filme, a máquina
é enviada para os Laboratórios Eastman, em Rochester,
Estados Unidos, para que o papel fotográfico seja revelado.
Também é no laboratório que a máquina
é carregada com um novo filme.
O filme de celulóide de Eastman já acendeu a curiosidade
do inventor americano Thomas Alva Edison, 42 anos, o criador da
lâmpada elétrica. Edison acredita que a invenção
de Eastman poderá viabilizar uma de suas invenções
incompletas, o cinetoscópio - uma caixa de madeira na qual,
acionando-se uma manivela, surgiria uma imagem ilusória em
movimento, como se fosse real. Com o filme de celulóide,
Eastman ganha mais fôlego em seus negócios. O empresário
teve uma infância pobre, foi mensageiro de um motel. Sua ligação
com a fotografia surgiu há dez anos, quando ele criou um
protótipo de uma máquina de revelação
de papel fotográfico. Em seguida, montou seu laboratório
em Rochester. Ao popularizar a fotografia, Eastman está construindo
um império empresarial nos Estados Unidos.
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