Veja na História
REPÚBLICA
 20 de novembro de 1889
Tecnologia

Depois do telefone e da luz elétrica, surgem a máquina que organiza dados, a roda a ar e o filme de celulóide


A máquina tabuladora elétrica do americano Hollerith: processamento de dados

Nos últimos anos, o homem empurrou as fronteiras do conhecimento como jamais havia feito antes. Thomas Alva Edison inventou a luz elétrica há uma década - e hoje já existem cidades inteiras iluminadas a poder das lâmpadas, como Nova York. Alexandre Graham Bell criou o telefone em 1876. No Brasil de 1889, já são 10 000 os aparelhos telefônicos - é verdade que todos eles funcionam mal. Nos Estados Unidos, eles chegam a 50 000, num marco da nova era das comunicações. O que espanta no turbilhão das invenções é a capacidade que elas têm de modificar a vida dos cidadãos comuns, de levar a modernidade aos lares e de se traduzir em conforto.

Os registros de patentes mais recentes nos Estados Unidos e na Europa mostram que a onda das invenções não perde o fôlego. Uma máquina elétrica de processamento de dados promete agilizar os trabalhos do próximo recenseamento dos Estados Unidos, no ano que vem. O empresário americano George Eastman, dono dos laboratórios fotográficos Eastman, o maior do mundo, acaba de patentear um novo tipo de filme fotográfico, à base de celulóide, que dispensa o trabalho exaustivo de revelação do papel fotográfico. A novidade mais prosaica vem da Irlanda. O veterinário John Dunlop desenvolveu um novo tipo de roda de borracha para bicicleta que, em vez de maciça, é oca por dentro - e ganha consistência quando é inflada com ar comprimido, como um colchão de ar. As novidades tecnológicas são detalhadas a seguir.

Rapidez no censo

O próximo censo demográfico dos Estados Unidos, previsto para o ano que vem, será o mais preciso da história do país, e seus resultados devem ser concluídos em um terço do tempo gasto no recenseamento anterior, o de 1880. O estatístico americano Herman Hollerith, de 29 anos - formado pela Universidade Colúmbia e com estudos realizados também no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT -, acaba de patentear um equipamento capaz de processar dados com o auxílio de impulsos elétricos, que será adotado no censo de 1890. Batizado de Máquina Tabuladora Elétrica, o equipamento é dotado de um mecanismo complexo. Na parte superior da máquina, um operador registra as informações a respeito de cidadãos americanos fazendo perfurações num rolo de papel - dados como a idade, a profissão e a renda dos entrevistados pela pesquisa. Cada resposta requer um conjunto distinto de perfurações. Depois de registrar os dados sobre uma pessoa, o operador da máquina deve dar um espaço no rolo de papel e iniciar a perfuração das informações sobre um novo entrevistado.

A novidade da máquina de Hollerith está na fase seguinte desse processo. O papel perfurado passa entre dois cilindros metálicos, nos quais existe uma corrente elétrica. Cada furo no papel coloca em contato os dois cilindros, dando origem a um impulso elétrico. O conjunto de impulsos resulta em registros nos quarenta relógios da máquina tabuIadora. Se o entrevistado for um homem, o relógio do sexo masculino registra uma marcação. Se tiver mais de 40 anos, outro relógio é disparado. Os relógios acumulam esses dados em separado e facilitam a contagem final do censo. As máquinas disponíveis até hoje jamais haviam utilizado a eletricidade nesse processo - e requeriam muito trabalho manual na contagem dos dados. "Minha máquina precisa ser mais bem desenvolvida", afirma o estatístico Hollerith sobre seu invento. "Mas não tenho dúvidas de que ela servirá de modelo para máquinas processadoras de dados ainda mais poderosas", arrisca.

O jovem Hollerith, filho de imigrantes alemães, teve a idéia de desenvolver sua máquina tabuladora elétrica quando começou a trabalhar como estatístico no censo americano de 1880, convidado por seu professor William Trowbridge, também da Universidade Colúmbia. As informações sobre os 50 milhões de americanos foram compiladas quase manualmente. Naquela época, os dados foram registrados em cartões perfurados, mas não existia equipamento capaz de "ler" o conjunto de informações e acumular os resultados. "O trabalho era monstruoso", recorda-se Hollerith, que começou a desenvolver sua tabuladora em 1885 e, dois anos depois, já construíra um protótipo da máquina. Os resultados do censo de 1880 só foram divulgados oito anos mais tarde, em 1888, quando os dados já estavam defasados. Com a máquina elétrica de Herman Hollerith, espera-se que as conclusões sobre o censo de 1890 demorem no máximo três anos para ser levadas a público.

Reinvenção da roda

Um problema que os usuários de bicicletas já se acostumaram a enfrentar é a qualidade precária das rodas de borracha destes veículos - elas não suportam o atrito com o solo e acabam se despedaçando. Graças ao veterinário escocês John Boyd Dunlop, 49 anos, este problema está se tomando coisa do passado na Inglaterra. Dunlop acaba de inventar um novo e engenhoso tipo de roda - batizada de pneumático e dotada apenas de um tubo oco de borracha - que substitui com eficiência os cinturões de borracha maciça que envolvem hoje em dia os aros de bicicletas. Inflado com ar comprimido, o tubo de Dunlop adquire forma e dureza equivalentes às da roda convencional, mas é mais macio. O pneumático tem vida útil extensa e ainda oferece a vantagem de amortecer os solavancos da bicicleta, tornando os passeios mais agradáveis. "Cheguei a esta invenção por acaso", diz Dunlop.

Três anos atrás, o veterinário observou que as rodas do triciclo de seu filho Johnnie, então com 10 anos, abriam sulcos no gramado de sua casa e se estragavam com pouco tempo de uso. Dunlop imaginou, então, que as rodas de bicicleta poderiam seguir a mesma tecnologia dos colchões de ar, que adquirem consistência com uma injeção de ar comprimido. O pneumático estava concebido. Dunlop colou, uma à outra, as bordas de uma lâmina de borracha, transformando-a num tubo. Em seguida, colou também as extremidades dessa bisnaga - deixando-a do tamanho exato de uma roda de bicicleta. Por fim, o irlandês instalou uma válvula no tubo circular, por onde uma bomba injeta ar. É preciso que a borracha esteja bem vedada, caso contrário o ar escapa. Para proteger o pneumático, o veterinário construiu uma cobertura externa de borracha mais dura, amparada numa estrutura de arame, que envolve o tubo. A cobertura mais dura, no entanto, não resolve o grande problema da invenção de Dunlop: ao passar sobre um objeto pontiagudo, como um prego ou caco de vidro, a nova roda fura e a bicicleta não pode ser pedalada até que o pneumático seja novamente inflado de ar.

No início do próximo ano, a primeira fábrica de pneumáticos de John Dunlop começará a funcionar na Inglaterra, com capacidade de produção de 1 500 unidades por mês - em sociedade com o empresário Harvey Du Cros. "O pneumático poderá ser utilizado também em rodas de charretes e carroças", diz Dunlop, que antes de criar o pneumático dedicava-se exclusivamente a seu consultório veterinário e jamais pedalara uma bicicleta. A rigor, a invenção poderá ser utilizada em qualquer veículo que possua rodas, excetuando-se os trens e bondes, que andam sobre trilhos.

O filme de Eastman

Depois de ter popularizado a máquina fotográfica no ano passado, o inventor e empresário americano George Eastman, 35 anos, dedica-se agora a aperfeiçoar suas câmaras. Ele acaba de lançar um novo filme, à base de celulóide, com definição de imagens bem superior à do papel fotográfico, que salta diversas etapas no delicado processo de revelação das fotos. Com a velha técnica do papel fotográfico, as imagens registradas no papel sensível à luz eram fixadas em placas de vidro, com o auxílio de emulsões. A imagem transposta para o vidro servia de negativo para as cópias de fotografia, num processo caro e trabalhoso. Com o filme de celulóide, essas fases da revelação desaparecem. A imagem é registrada no filme, que é transparente e flexível - e o próprio celulóide se toma a base para a reprodução das cópias, no lugar das placas de vidro.

Mesmo antes de dar esse passo, as máquinas fotográficas do empresário americano já eram um sucesso. Em junho do ano passado, os Laboratórios Eastman lançaram os primeiros modelos populares de câmaras, vendidas por 25 dólares. As pequenas máquinas são dotadas de um rolo de papel sensível à luz - agora substituído pelas tiras de celulóide - capaz de registrar até 100 fotos seguidas. Ao portador da câmara cabe a tarefa de escolher as poses e apertar o clique. Depois de gasto todo o filme, a máquina é enviada para os Laboratórios Eastman, em Rochester, Estados Unidos, para que o papel fotográfico seja revelado. Também é no laboratório que a máquina é carregada com um novo filme.

O filme de celulóide de Eastman já acendeu a curiosidade do inventor americano Thomas Alva Edison, 42 anos, o criador da lâmpada elétrica. Edison acredita que a invenção de Eastman poderá viabilizar uma de suas invenções incompletas, o cinetoscópio - uma caixa de madeira na qual, acionando-se uma manivela, surgiria uma imagem ilusória em movimento, como se fosse real. Com o filme de celulóide, Eastman ganha mais fôlego em seus negócios. O empresário teve uma infância pobre, foi mensageiro de um motel. Sua ligação com a fotografia surgiu há dez anos, quando ele criou um protótipo de uma máquina de revelação de papel fotográfico. Em seguida, montou seu laboratório em Rochester. Ao popularizar a fotografia, Eastman está construindo um império empresarial nos Estados Unidos.