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Índice
Teatro
VEJA, 20 de novembro de 1889

Com Fritzmac, Arthur e Aluísio Azevedo reafirmam
as revistas de ano como gênero da moda nos palcos


Para começar, chama-se o diabo, que acende o fogo do inferno sob o caldeirão. Dentro dele, misturam-se avareza, preguiça, inveja e rabugice. Acrescenta-se uma pitada de ira, outra de gula e salpicasse um pouco de vaidade por cima. Está pronta a mulher completa, mistura equilibrada dos sete pecados capitais. Quem assistiu a Fritzmac, dos irmãos Arthur e Aluísio de Azevedo, conhece bem a receita que é encenada no palco. A peça é o grande fenômeno do ano no teatro: não só lotou o Teatro Variedades Dramáticas do Rio de Janeiro durante 49 récitas, um recorde quando se leva em conta que a maior parte dos espetáculos do gênero não ultrapassa uma semana em cartaz, como ainda seguiu para uma outra temporada triunfante em São Paulo. O sucesso da obra dos irmãos Azevedo ultrapassou os limites do palco para ganhar as ruas. Hoje, nas ruas do Rio de Janeiro, a palavra "Fritzmac" é usada para se referir a uma pessoa falsa ou artificial como a mulher pré-fabricada da peça. O nome Arthur Azevedo, por sua vez, vem se transformando em sinônimo de "revista de ano", o gênero teatral que encanta as platéias.

Fritzmac tem todos os ingredientes de uma boa revista de ano. Muita música, composta especialmente pelo maestro Leocádio Raiol, 93 personagens num agitado entra-e-sai de gente no palco, humor picante - nem sempre indicado para moças de famílias -, sátira de personagens conhecidos e uma crítica aguda e bem-humorada dos principais fatos que marcaram o ano passado. Estão presentes na revista de ano a abolição da escravatura, a intensa imigração, a crescente liberação das mulheres e o famoso caso de falsificação de bebidas envolvendo os industriais Fritz e Mac, unidos no título do espetáculo. As revistas de ano, ao lado das farsas musicais conhecidas como burletas e das comédias leves chamadas de pachouchadas, são a forma que os dramaturgos encontraram para trazer o público de volta para o teatro. Desde que a alegria do vaudeville francês e do cancã atravessou o mar e ancorou na passarela do maxixe, que é o Rio de Janeiro, poucos no Brasil querem saber de teatro sério. O escritor Machado de Assis, dono de um humor muito peculiar, é um dos admiradores do teatro tradicional e foi um dos primeiros a se revoltar contra o novo modismo: "Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte". Para Machado, o teatro brasileiro estaria melhor se representasse mais os clássicos da dramaturgia.

O boêmio e rechonchudo escritor maranhense Arthur, de 34 anos, é o grande talento para a revista de ano na família Azevedo. Só eventualmente trabalha em parceria com seu irmão Aluísio, 2 anos mais novo, romancista adepto da nova corrente naturalista. Arthur prova com suas peças que os temores do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas eram exagerados. Em peças como Fritzmac, sua nona revista de ano, Arthur Azevedo lota teatros dando ao público o que ele quer ver: o humor e a intensa movimentação cênica do vaudeville somada à dança insinuante embalada por músicas trêfegas do cancã. Só que Arthur junta a esses ingredientes uma incomparável verve cômica, com diálogos ágeis e precisos e uma arguta observação do mundo moderno.

Nem todos, no entanto, pensam assim. "Arthur Azevedo é o responsável pela desmoralização da arte dramática entre nós, por ter se dedicado ao lastimoso gênero do trololó e pernas de tora" , dispara o crítico José Cardoso da Mota, para quem a decadência do teatro brasileiro começou com A Filha de Maria Angu, primeiro trabalho dê Arthur a ser encenado no Rio de Janeiro. "O público pensa diferente do senhor Cardoso da Mota", defende-se o escritor. "Com essa e outras peças, embolsei alguns contos de réis que nenhum mal fizeram a mim nem à arte", arremata, irônico. Com Fritzmac, ele ganhou a bagatela de 3,4 contos de réis, o suficiente para comprar duas casas no centro do Rio de Janeiro. Arthur Azevedo, com sua habilidade com a pena e capacidade de mobilizar o público em torno de suas peças, é mais uma prova de que o Maranhão, terra de escritores de apelo popular, a começar pelo romântico Gonçalves Dias, morto em 1864, é um celeiro de homens talentosos prontos a servir o país e até, quiçá, a no futuro vir a exercer a Presidência da República, ocupada desde a sexta-feira passada pelo alagoano Deodoro da Fonseca.


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