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Sociedade
VEJA, 20 de novembro de 1889

Com a República já nos calcanhares,
o Império se divertiu à larga no baile da Ilha Fiscal
Óleo de Aurélio
Figueiredo
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| O imperador (à esq.)
recebe os 4 500 convidados: O Rio de Janeiro parou para
ver o desfile de elegância |
Jamais o Rio de Janeiro havia servido de cenário para tanto
fausto e cintilância. No último dia 9, sábado,
os salões do Palácio da Ilha Fiscal, na entrada da
Baía de Guanabara, inaugurado em abril passado para abrigar
o serviço marítimo da alfândega, foram palco
do baile mais extraordinário entre todos os promovidos pelo
Império. Foi também o último, o apagar das
luzes da monarquia no Brasil, realizado apenas seis dias antes que
as forças republicanas instaurassem no país a nova
ordem. O baile foi oferecido pelo então presidente do Conselho
de Ministros, Visconde de Ouro Preto, aos oficiais do cruzador chileno
Almirante Cochrane, que no dia 11 de outubro chegara ao porto,
com 300 tripulantes a bordo, em escala de boa vizinhança.
E nada foi poupado para que os convidados, que se calcula terem
chegado a 4 500, entre eles, é claro, a família imperial,
passassem uma noite de sonho e fantasia, revezando-se entre um banquete
fenomenal e as contradanças, entre os brindes aos oficiais
chilenos e a palestra fina. A festa custou aos cofres públicos
cerca de 250 contos de réis, quase 10% do orçamento
previsto da Província do Rio de Janeiro para o ano que vem.
Dançou-se muito no baile da Ilha Fiscal, mas o que os convidados
não imaginavam, nem o imperador D. Pedro II, é que
se dançava sobre um vulcão. À mesma hora em
que se acendiam as luzes do palacete para receber os milhares de
convidados engalanados, os republicanos reuniam-se no Clube Militar,
presididos pelo tenente-coronel Benjamin Constant, para maquinar
a queda do Império. "Mais do que nunca, preciso sejam-me
dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de
coisas incompatível com sua honra e sua dignidade", discursou
Constant na ocasião, tendo como alvo justamente o Visconde
de Ouro Preto. Longe dali, ao lado da família imperial, o
visconde desmanchava-se em sorrisos ao comandar seu suntuoso festim.
Passados dez dias de sua realização, o baile da Ilha
Fiscal ainda é comentado na cidade, seja nas rodas chiques
da Rua do Ouvidor, seja nos bairros. Pela forma como mobilizou não
apenas os convidados mas também toda a população
do Rio de Janeiro e por ter marcado o canto do cisne do Império,
pode-se prever que ele ficará inscrito na História
da cidade e do país. Já no início da tarde
daquele sábado, o Rio de Janeiro passou a viver um clima
diferente. Acabou mais cedo do que de costume o movimento no centro,
à exceção do que se verificava nas lojas de
roupas finas, como a Casa Wellimcamp, a Casa PaIais Royal e a Mme.
Roche. Nelas, fervilhavam as senhoras e senhoritas em busca de suas
requintadas toaletes de seda, rendas de Bruxelas, chamalote ou veludo.
Nos alfaiates, o movimento não era menor. Os cavalheiros
acorriam em busca de suas casacas feitas especialmente para a ocasião.
Os mais ousados faziam os últimos ajustes em seus vestons
- essa extravagante indumentária recém-surgida no
mundo da moda, composta de vestes compridas e pretas com gola, inteiras
de seda. Os festeiros se apressavam também para conseguir
dar os últimos retoques no trato pessoal. As filas nos barbeiros
eram enormes, e muitos cavalheiros que desejavam apenas fazer a
barba tinham que esperar pacientemente até que se fizessem
nas melenas dos jovens, a ferro quente, as pastinhas, hoje tão
populares entre eles. "Os ministros escovavam as casacas para o
baile dos arrependido, e a Guarda Nacional narcisava ao espelho
a bizarria marcial dos seus figurinos para a batalha das contradanças",
assim definiu Rui Barbosa os preparativos. Os cabeleireiros da cidade,
estes então, trabalharam a não mais poder. Muitas
senhoras, para conseguir vaga num deles, fizeram seus penteados
de baile às 9 horas da manhã.
O baile estava marcado para as 8h30, mas desde cedo uma multidão
se acotovelava em volta do Cais Pharoux, que dá acesso à
ilha, e nas ruas próximas para ver chegarem os convidados.
A impressão que se tinha era que boa parte dos 500 000 habitantes
com que hoje conta o Rio de Janeiro estava lá. A suntuosidade
da festa começava ainda na ponte flutuante montada junto
ao cais para o embarque, ornamentada com seis grandes arcos e dois
candelabros de gás. Junto a ela, tocava a primeira das seis
bandas e orquestras contratadas para animar a festa.
Da ponte, os convivas eram levados até a ilha pela barca
Primeira, coberta de tapetes luxuosos e ornamentada com as
bandeiras brasileira e chilena. Ainda no cais, o cenário
que se erguia das águas da baía era deslumbrante.
O Palácio da Ilha Fiscal projetava-se em meio a uma iluminação
feérica, feita com 700 lâmpadas elétricas. No
alto da torre, um holofote produzia um foco de 60 000 velas, mais
da metade da força projetada pela iluminação
da Torre Eiffel.
Ao chegar à ilha, os convidados desembarcavam em meio a
um bosque. Nas paredes do torreão, um quadro simbolizando
a recepção ao navio Almirante Cochrane mostrava
ninfas e golfinhos saindo da baía para oferecer ramos de
flores aos marinheiros chilenos. Toda a ilha foi ornamentada com
bandeiras brasileiras e chilenas, além de 10 000 lanternas
venezianas. Seis salões abrigavam as danças. No primeiro
deles, as paredes se escondiam sob cachos de flores naturais e palmas.
Nos dois maiores, entre tapetes vermelhos, âncoras douradas
e prateadas, foram colocados retratos recém-pintados do almirante
Cochrane e do almirante Greenfell. Um republicano infiltrado no
baile, que dias depois publicou suas impressões na Revista
Ilustrada, comenta que a certa altura os salões tornaram-se
pequenos para o número de convidados. "Para conseguir o espaço
necessário às danças, o senhor Hasselmann,
guarda-mor da alfândega, teve de suar, não só
o topete, mas também o colarinho, de tal modo que este perdeu
toda a compostura e tomou o aspecto de uma simples tripa enrolada
no pescoço".
A ceia foi um capítulo à parte na festa. Foram armadas
mesas em forma de ferradura, para 250 talheres cada uma. Nas cabeceiras
das mesas, dois enormes pavões empalhados estendiam as caudas
multicoloridas. Seguiam-se pratos de peixe e de caça colocados
alternadamente e, entre eles, havia enormes castelos de açúcar,
em cujos torreões foram colocados bombons. À frente
de cada prato havia nove copos de feitios diferentes, três
brancos e seis coloridos. Por essas mesas, passou um desfile monumental
de iguarias que daria para alimentar um exército. Republicano,
naturalmente.
A família imperial chegou ao cais pouco antes das 10 horas.
D. Pedro II, fardado de almirante, a imperatriz Teresa Cristina
e o príncipe D. Pedro Augusto embarcaram primeiro. Quinze
minutos depois foi a vez da princesa Isabel e do conde DEu.
Uma vez no palácio, foram conduzidos a um salão em
separado, onde já se achavam reunidos membros do corpo diplomático
estrangeiro oficiais e alguns eleitos da sociedade carioca. O guarda-roupa
da imperatriz não chegou a causar impressão especial
entre os convidados - um vestido de renda de chantilly preta, guarnecido
de vidrilhos. A toalete da princesa Isabel, no entanto, causou exclamações
de admiração pelo luxo e pela beleza. Ela portava
uma roupa de moiré preta listada, tendo na frente um corpinho
alto bordado a ouro. Nos cabelos, carregava um diadema de brilhantes.
O grande baile do visconde de Ouro Preto estava marcado inicialmente
para o dia 18 de outubro. No dia 14, porém, chegou ao Rio
a notícia de que D. Luiz I, rei de Portugal, estava à
morte, o que efetivamente ocorreu cinco dias depois. Mesmo envolta
em luto, a corte decidiu manter a festa e adiá-Ia para este
mês. Para o visconde de Ouro Preto - embora ele tivesse confiança
na firmeza do poder monárquico brasileiro - o baile serviria
para rebater a disseminação das idéias republicanas
com um acontecimento inesquecível, uma marca da solidez do
Império.
Tudo foi montado para atingir esse objetivo, e o Rio de Janeiro
parou para participar da festa ou apenas assistí-Ia. O ministro
chileno, Manoel Villamil Blanco, e o comandante Banem, do Almirante
Cochrane, levantaram vivas e moções de solidariedade
ao governo brasileiro e ao imperador. Pelos salões desfilou
a fina flor da aristocracia, da oficialidade e da sociedade cariocas.
Para se ter uma idéia da animação do evento,
basta ver a lista, recentemente divulgada, dos despojos encontrados
nos salões na manhã do domingo. A lista inclui, por
exemplo, oito raminhos de corpete, três coletes de senhora,
dezessete ligas, dezesseis chapéus, nove dragonas, treze
lenços de seda, nove de linho e quinze de cambraia. Sabe-se
lá o que essas moças estavam fazendo quando perderam
as ligas. Coisa muita séria não era.
Mal sabiam o visconde de Ouro Preto, o imperador e os convidados
ilustres que o baile, em vez de pavimentar a suposta solidez do
Império, marcaria o seu último suspiro. É bem
verdade que, na corrida aos cofres públicos para organizar
festas suntuosas para os oficiais chilenos, Ouro Preto e as hostes
monárquicas não estiveram sozinhos. Sabe-se de pelo
menos um caso de corporação do Exército - a
da Fortaleza de São João - que, não desejando
ficar atrás da Marinha nas homenagens aos oficiais do Almirante
Cochrane, pediu e obteve verbas do governo imperial para organizar
seu ágape. "O tenente-coronel Leite de Castro me escreveu
pedindo 1 conto de réis e eu o atendi prontamente" , diz
o visconde.
É possível que o próprio imperador, em seu
exílio, esteja à essa hora se arrependendo de ter
atravessado a Baía de Guanabara rumo à Ilha Fiscal
naquela noite faustosa e fatídica. Desde que, na juventude,
granjeou fama como um autêntico pé-de-valsa, e do tipo
galanteador, D. Pedro nunca mais demonstrou prazer em participar
de grandes bailes oficiais e sequer tomou a iniciativa de promovê-los.
Numa monarquia, por tradição, é o monarca e
sua família que dão o tom da vida social da corte.
Se dependesse dele, o tom dos salões cariocas teria sido
pálido.
Coube aos grandes anfitriões da cidade, como o barão
de Cotegipe e a Mme. Haritoff, movimentarem a sociedade durante
o Império, com suas festas inesquecíveis. A princesa
Isabel e o conde D'Eu reagiram a essa frieza social de D. Pedro,
organizando reuniões animadas no Paço de Petrópolis
e no Paço Isabel. Nada disso, porém, encontrava eco
no Paço de São Cristóvão. Com o baile
da Ilha Fiscal, organizou-se a mais suntuosa das festas para marcar
a derrocada de um imperador que detestava festas suntuosas. Certamente,
ele poderia ter partido para o exílio sem carregar na bagagem
as marcas dessa idéia luminosa do visconde de Ouro Preto.
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