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Show
VEJA, 20 de novembro de 1889

Buffalo Bill conta sua própria história, encanta platéias e lata espetáculos em países europeus

Para William Frederick Cody, o "Buffalo Bill", o sucesso veio veloz como um ginete do Pônei Expresso - o correio montado do Oeste americano - e se espalhou pela Europa como reses raivosas em pleno estouro da boiada. O show de Buffalo Bill, que vem lotando suas apresentações em turnê pela França e ainda percorrerá Espanha, Itália e Alemanha, conta histórias da conquista do Oeste americano com recursos de superprodução: dezenas de atores, cavalos e diligências em cena, e até índios - que a propaganda do espetáculo apregoa serem autênticos - correndo de um lado para o outro e atirando flechas. O impacto do espetáculo leva o espectador a fazer vista grossa às fracas interpretações, aos cenários inverossímeis e à apelação da propaganda - os índios, na verdade, são atores novatos com uma maquilagem vermelha. Todos esses defeitos, que fizeram com que o espetáculo fosse atacado pelos críticos de todos os lugares em que se apresentou, ficam relegados a um segundo plano em face da grande atração do show: o fato de ter como ator principal o personagem central da história que narra, o famigerado Buffalo Bill em pessoa.

William Frederick Cody, de 43 anos, está, como não poderia deixar de ser, perfeitamente à vontade ao interpretar a si mesmo como Buffalo Bill. Ele improvisa em todas as cenas, que mostram desde ferrenhos combates com chefes indígenas até o salvamento de donzelas a bordo de diligências atacadas por salteadores. Em meio a todas essas eletrizantes aventuras, ainda encontra tempo para dirigir comentários jocosos à platéia. Num de seus shows pelos Estados Unidos, na cidade de Saint Louis, ele divisou sua mulher, Louisa Frederici, no meio do público. Foi o bastante para que ele encaixasse no texto a frase: "Alô, mamãe, eu sou mesmo um péssimo ator, você não acha?". A platéia explodiu em gargalhadas.

O sucesso e a admiração da platéia são o tributo a um homem que conseguiu se tornar uma lenda antes que seu nome fosse imortalizado em mármore. Buffalo Bill é, hoje, o símbolo do cowboy, ou vaqueiro, dos Estados Unidos, aquele que é capaz de manejar armas de fogo com destreza, conhece pelo nome cada cacto do deserto do Arizona, atravessa desfiladeiros com uma boiada sem perder um animal e faz com que os índios tremam só ao ouvir o seu nome. Aliás, foi nessa última especialidade que Buffalo Bill mais se destacou: ele é considerado o mais temível caçador de peles-vermelhas do Oeste americano, o bravo que tomou habitáveis várias terras consideradas inóspitas por abrigar índios selvagens. Seu último grande feito antes de se dedicar definitivamente à carreira artística, há treze anos, foi o comando das tropas americanas que pacificaram os índios sioux e chayenne. As duas tribos estavam em pé de guerra, mas Bill venceu o sanguinário cacique Cabelo Amarelo - menos temível apenas do que o chefe Touro Sentado, responsável pela dizimação do exército do general Custer há treze anos.

Buffalo Bill tem esse nome porque, na juventude, cuidou sozinho da alimentação dos operários da estrada de ferro que liga o Leste ao Oeste dos Estados Unidos abatendo dezessete búfalos por dia. Ele já era um nome estabelecido no mundo dos espetáculos antes de matar Cabelo Amarelo - mais precisamente desde 1872, quando o escritor Ned Buntline o levou para a cena. BuntIine escreveu em apenas quatro horas a primeira peça de teatro estrelada por Buffalo Bill - Exploradores das Pradarias -, que foi levada ao palco após cinco dias de ensaio. A récita de estréia, em Chicago, atraiu um público recorde de 2 500 pessoas, que aplaudiram seu herói delirantemente ao final do espetáculo, "encantados diante de tanta naturalidade", como observou um jornal da época. Quem for aos espetáculos de Buffalo Bill na turnê européia irá tomar contato com a espontaneidade do cowboy americano, agora acrescida de personagens que nem sempre compactuam com a verdade histórica da conquista do Oeste. O show europeu traz Buffalo Bill lado a lado com cossacos russos, gaúchos argentinos, mariachis mexicanos, índios zulus e até elefantes africanos. Essa licença poética faz crer que Buffalo Bill percebeu que a vida de todo herói sempre acaba nas páginas de um livro ou no palco de um teatro. Ele preferiu entrar em cena antes do fim do espetáculo e contar sua própria história antes que algum outro aventureiro dela lançasse mão.

 

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