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Saúde
VEJA, 20 de novembro de 1889

A moléstia ganha contornos de epidemia: 2.000 pessoas
morrem no Rio de Janeiro em doze meses
A moléstia voltou com fôlego de epidemia. Até
o final do ano, calcula-se que cerca de 2.000 moradores do Rio de
Janeiro morrerão vítimas da febre amarela, a doença
tropical que mata duas entre dez de suas vítimas e contra
a qual não existe tratamento ou vacina eficazes. No ano passado,
as autoridades de saúde do Império chegaram a anunciar
que a moléstia estava sob controle no país - apenas
747 cariocas haviam morrido de febre amarela em 1888. O balanço
deste ano mostra que as previsões otimistas sobre a doença
estavam erradas: os casos triplicaram. O Rio de Janeiro é
a cidade onde se registra a maior incidência da doença
no país. A moléstia se caracteriza por sintomas como
vômitos, calafrios, rubor na face e, é claro, febres
altas. "A febre amarela, junto com a peste bubônica e
a cólera são os maiores desafios da medicina moderna",
afirma o cientista francês Louis Pasteur, uma das maiores
autoridades em microbiologia do mundo.
A volta da febre amarela mudou a rotina do Rio de Janeiro nos últimos
doze meses. Em abril passado, por exemplo, os teatros cariocas estavam
às moscas. As notícias que correram na Europa de que
uma nova epidemia de febre amarela grassava no Rio de Janeiro espantaram
as companhias líricas que todos os anos, especialmente no
mês de abril, se apresentavam no país. Boa parte dos
turistas estrangeiros também desapareceu. A doença
aportou no Brasil há quarenta anos trazida por um navio americano.
A barca Navarre chegou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1849,
com uma tripulação de nove marinheiros vitimados pela
doença. A moléstia logo se espalhou como pólvora.
No ano seguinte, uma epidemia se desencadeou, e 4.000 pessoas morreram.
O espectro da febre amarela diminuiu nos anos seguintes, para voltar
a explodir agora.
"Uma boa explicação para o avanço da
febre amarela é a situação caótica de
saneamento básico na capital do país", afirma
o médico Antônio Martins de Azevedo Pimentel, que acaba
de publicar o livro Subsídios para o Estudo de Higiene
no Rio de Janeiro. Neste trabalho, Pimentel cita diversos exemplos
de desmazelo. O Canal do Mangue, que corta a cidade vindo dos arrabaldes
da Tijuca, está completamente poluído por esgotos.
"As águas sujas ficam estagnadas, pois o canal fica
abaixo do nível do mar. Quando vêm a maré alta
ou as chuvas, os detritos ganham as ruas e espalham doenças",
diz Pimentel. Outro foco de doenças seriam os matadouros.
É certo que a situação já foi pior.
Há trinta anos, os esgotos domésticos eram acondicionados
e transportados em precários barris de madeira, conhecidos
como "tigres". Hoje, boa parte desses esgotos vai parar
no oceano com o auxílio de tubulações subterrâneas.
A estrutura de saneamento montada nos últimos anos, contudo,
não está sendo capaz de acompanhar o crescimento desenfreado
da cidade.
Existe um consenso entre os cientistas de que locais insalubres
determinam a proliferação da doença. Isso porque
os casos surgem com mais freqüência naqueles lugares
onde falta saneamento básico. As causas da moléstia,
contudo, continuam a ser um mistério. A teoria mais aceita
é a de que a doença seria causada por uma bactéria
ou um vírus minúsculo - e se transmitiria através
do contato com pessoas infectadas. Há dois anos, o médico
cubano Carlos Finlay levantou a hipótese de que insetos seriam
os agentes transmissores da febre amarela - mas esta idéia
é vista com reservas pela maioria dos cientistas. Jovens
pesquisadores brasileiros também se esmeram em buscar respostas
para a moléstia. O estudante de Medicina carioca Oswaldo
Cruz, por exemplo, está realizando uma pesquisa sobre os
micróbios encontrados nas águas paradas do Rio de
Janeiro. Somente através de investimentos em pesquisa o Brasil
encontrará soluções para o mistério
da febre amarela.
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