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Rússia
VEJA, 20 de novembro de 1889

O czar Alexandre III troca
de aliados, mas continua a perseguição a judeus e
opositores
The Granger Collection
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| O czar em família: à
direita, o herdeiro Nicolau |
Como bom representante da família imperial russa, o jovem
czar Alexandre Ill, de 44 anos, recebeu uma formação
rígida, na qual a França só poderia ser vista
como "uma República esquecida de Deus". Os crescentes atritos
diplomáticos da Rússia com o Império Alemão,
especialmente depois da coroação do kaiser Guilherme
lI, no ano passado, acabam de produzir uma aliança impensável
entre os dois países. O novo eixo São Petersburgo-Paris
ganhou forma com a bem-sucedida negociação, nos últimos
meses, de um carregamento de armas francesas que aumentará
o poderio do Exército russo no cada vez mais tenso conflito
dos Bálcãs.
O acordo franco-russo na área de armamentos é apenas
o passo mais ousado de um flerte iniciado quase imediatamente após
a coroação de Guilherme lI. Jovem e intempestivo,
o kaiser não demorou em tornar públicas suas discordâncias
com a prudente diplomacia do chanceler Otto von Bismarck, arquiteto
do acordo, firmado em 1887 pelos dois impérios. Inquieto,
Alexandre III fechou no ano passado um pacote de empréstimos
junto a bancos franceses para a expansão ferroviária
nos domínios da Ásia Central - justamente um dos focos
de preocupação do belicoso kaiser.
A reviravolta foi ainda mais dramática nos assuntos internos.
Educado pelo filósofo Konstantin Pobedonostsev, principal
autoridade laica da poderosa Igreja Ortodoxa, o jovem czar vem anulando
uma a uma as tímidas reformas adotadas por seu pai, Alexandre
lI, nas últimas décadas. Determinado a eliminar o
terrorismo de inspiração anarquista que custou a vida
de seu pai, assassinado em 1881, o imperador vem aumentando os poderes
da polícia política, a Okhrana. Preocupado também
com a incessante agitação nas universidades, o czar
instituiu desde 1882 uma rígida censura prévia sobre
a imprensa e a literatura - uma das fontes de inspiração
dos jovens revolucionários.
Uma das mais controvertidas decisões de Alexandre III foi
a reforma educacional. O jovem czar bloqueou a criação
de escolas populares e, inspirado por seu tutor e conselheiro, Pobedonostsev,
inclinou-se pelo reforço da educação religiosa,
sob controle estrito da Igreja Ortodoxa. A mesma inspiração
religiosa funcionou, na avaliação da oposição
liberal, como alimento para uma preocupante onda de perseguição
aos judeus, cuja brutalidade começa a tornar universal a
palavra russa pogrom. "Não podemos esquecer que
os judeus crucificaram Nosso Senhor Jesus", afirmou Alexandre
III ao justificar a violência da polícia nos pogroms
do início da década, que deixou milhares de vítimas.
Ironicamente é nas áreas onde manteve a orientação
de seu pai que o novo imperador poderá encontrar a fonte
de novas preocupações no futuro. Alexandre III aposta
nos investimentos franceses como alavanca para transformar a Rússia
num moderno país industrial. Ao promover a industrialização,
porém, o czar estimula ao mesmo tempo o crescimento das cidades
berço de uma intelectualidade com pendores liberais
e apressa a aglutinação de trabalhadores fabris,
potencialmente expostos às idéias socialistas que
se expandem pelo resto da Europa. Mesmo que consiga manter as rédeas
do vasto império em suas mãos por mais algum tempo,
Alexandre III pode estar deixando para seu herdeiro, o jovem czarevich
Nicolau, uma poderosa bomba de efeito retardado.
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Revolucionário precoce
Não bastassem as confusões diplomáticas
européias e os tropeços da modernização
econômica, o czar Alexandre III enfrenta ainda a contestação
de estudantes influenciados pelas idéias liberais e,
mais recentemente, pelo movimento socialista que seduz intelectuais
na França e na Alemanha. Um dos representantes mais
eloqüentes desta geração rebelde é
um rapaz de 19 anos, Vladimir Ulianov - um agitador precoce
que está proibido de estudar nas universidades russas.
"É um mau elemento", resumiu o ministro da Educação,
no mês passado, ao negar um pedido de Ulianov para prestar
exames como aluno especial. Há dois anos, Vladimir
foi preso, sob a acusação de liderar uma manifestação
subversiva. Além de seus próprios feitos, o
jovem revolucionário carrega nas costas o irmão
mais velho, Alexander, executado na forca em 1887 por participar
de um complô frustrado contra a vida do czar. Ao contrário
do irmão terrorista, no entanto, o irrequieto Vladimir
se dedica febrilmente a estudar e difundir as idéias
do controvertido filósofo alemão Karl Marx -
ainda que a agitação comunista de Marx não
tenha qualquer aplicação prática num
país atrasado como a Rússia.
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