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Retórica
VEJA, 20 de novembro de 1889

O latinista Castro Lopes
sacode os literatos ao criar palavras que substituam galicismos
É possível que o leitor esteja lendo esta revista
agora em sua cama, com a ajuda de seus nasóculos e à
luz suave de um lucivelo. Os artigos escritos pelos alvissareiros
misturam-se, harmoniosamente, aos preconícios que louvam
as virtudes de sortidos produtos. Faz calor neste final de primavera,
e decerto o nosso leitor não retira há muito tempo
de sua gaveta o focale que lhe aquece o pescoço no frio.
E ele provavelmente terá reparado como é grande, nos
últimos tempos, o número de ludâmbulos que,
vindos de outros Estados e até de outros países, se
abalam a conhecer os encantos da cidade.
Não te sintas o mais ignaro dos brasileiros se, no parágrafo
anterior, tropeçaste em vocábulos como "nasóculos",
"Iucivelo", "alvissareiro", "preconício", "focale" e "ludâmbulos".
Consultados sobre o significado de tais palavras, dez em cada nove
jornalistas desta revista que ora tens em mãos - dez em nove,
repara - tropeçaram exatamente onde foste ao chão.
Um, mais curioso, tratou de correr ao Caldas Aulete, mas
foi inútil. Cerrou as páginas do dicionário
tão no ar quanto as abrira. É que todas aquelas palavras
acabam de ser criadas pelo gramático carioca Antônio
de Castro Lopes, 62 anos, um latinista de nomeada que é médico
por profissão e decidiu investir contra os galicismos e anglicismos
que, a seu ver, contaminaram atrozmente a língua pátria.
As palavras a que Castro Lopes tenta dar vida e aquelas que ele
pretende suprimir estão arroladas no recém-lançado
Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis,
livro que serviu de tema para conversas, e piadas, trocadas entre
o ex-imperador Pedro II e o Visconde de Taunay.
"Não é de desenterrar palavras mortas e sepultadas
que se trata", explica o autor no prefácio do opúsculo.
"Mas de limpar, de expurgar a linguagem vernácula de vozes
bárbaras, de construções contrárias
à índole daquela, e de criar com bons elementos termos
que no idioma português faltem para traduzir os exóticos".
Castro Lopes não tenta promover reformas apenas na língua
portuguesa. Sugere muitas outras. Tem, pronta, uma fórmula
para acabar com a dívida interna e externa do país,
ou, pelo menos, é o que garante. Tal fórmula apóia-se
numa moeda universal, o ponto alto da plataforma com a qual se lançou
candidato a deputado provincial pelo Rio de Janeiro. Não
se conhece nenhuma adesão de outros países à
tal da moeda universal do latinista, mas o fato é que ele
se elegeu deputado. Acusem-no, os que quiserem, de purista extremado,
mas não o tomem por rabugento. Será um equívoco.
Castro Lopes tem um surpreendente bom humor. Daria um excelente
cômico se quisesse. Observe-se sua investida contra a palavra
peignoir. Não cria, no caso, um neologismo. Vai buscar o
vocábulo português que julga correspondente: roupão.
Dirigindo-se ao "belo sexo", Castro Lopes pergunta: "Por que empregareis
o termo francês peignoir quando esse traje não serve
para o fim que o nome indica?" Logo depois, lança, às
damas nacionais, um apelo que revela seu talento humorístico:
"Despi, portanto, eu vos suplico, o peignoir francês, e vesti
o vosso roupão".
Se daqui a 100 anos os neologismos do senhor Castro Lopes estarão
vivos ou mortos, ninguém pode saber. Alguém usará
a expressão "protofonia" como abertura de um ensaio, uma
ópera, uma peça? Haverá crianças que
peçam aos pais que façam um convescote domingo no
parque, em vez de piquenique? Em duas crônicas recentes, o
escritor Machado de Assis referiu-se ao trabalho de Castro Lopes
com sarcasmo reprovador. O latinista não se intimida. Diz-se
à boca miúda que, a cada golpe desferido por um adversário,
responde com um toast solitário à cruzada pelo vernáculo
- perdão, onde se leu "toast", leia-se brinde.
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Pérolas de um latinista
Como é e como fica
Abajur - Lucivelo ou lucivéu
Avalanche - Runimol
Bijuteria - Joalheira
Boulevard - Calçada
Cachecol - Focale
Chalé - Castelete
Champignons - Cogumelos
Claque - Venaplauso
Debut - Estréia
Engrenagem - Entrosagem
Feérico - Fatídico
Massagem - Premagem
Mise-en-scène - Encenação
Nuance - Ancenúbio
Pince-nez - Nasóculos
Piquenique - Convescote
Reclame - Preconício
Repórter - Alvissareiro
Turista - Ludâmbulo
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