
Radar
VEJA, 20
de novembro de 1889
Nova York já tem gente demais
O vertiginoso crescimento
de Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos, já está preocupando
as autoridades. Impulsionada pela chegada maciça de imigrantes europeus,
a metrópole saltou de 550.000 habitantes, em 1850, para a espantosa cifra
de 2.5 milhões registrada no último recenseamento, a ser divulgado
nos próximos dias. O governo do presidente Benjamin Harrison teme que,
se a população nova-iorquina continuar a crescer nesse ritmo, logo
não haverá mais espaço onde colocar tanta gente.
Euclides
da Cunha voltará ao Exército
O jornalista republicano
Euclides da Cunha, que há um ano foi expulso da Escola Militar porque atirou
seu sabre no chão diante do então ministro da Guerra, Tomás
Coelho, irritado com seus companheiros que não respondiam a uma manifestação
antiimpério previamente combinada, deverá ser reincorporado ao Exército.
A proposta surgiu numa reunião realizada sábado na casa do major
Sólon Ribeiro, o militar que entregou a D. Pedro II a intimação
para que deixasse o país. Euclides, de 23 anos, foi levado até lá
por seu amigo Edgar Sampaio, sobrinho de Sólon. Até a tarde de sábado,
Euclides não sabia da Proclamação da República - o
que prova que é um jornalista nada informado. Pouco atento à reunião,
ele passou a noite trocando olhares insinuantes com a filha de Sólon. Ana
Ribeiro, de apenas 15 anos.
A Província mudará
de nome
O jornal A Província de São Paulo,
ardoroso defensor da causa republicana, mudará seu nome para O Estado
de S. Paulo. A troca está sendo preparada para coincidir com a transformação
oficial das "Províncias" em "Estados", anunciada pelo governo provisório.
O jornal paulista, aparentemente, estava alheio à movimentação
política no Rio de Janeiro, que culminou com a deposição
do imperador- no dia 15. A Província a encheu suas páginas com noticiário
variado, sem qualquer relação com a República. No dia seguinte,
porém, todos os jornais deram amplo destaque aos acontecimentos da véspera,
inclusive A Província, que estampou uma vistosa manchete. Na prática,
a imprensa brasileira se reabilitou do vexame do dia 8 de setembro de 1822, quando
nenhum jornal noticiou a Proclamação da Independência, ocorrida
no dia anterior.
"Jogo do bicho" para manter
o zôo
O governo republicano deverá cortar a subvenção
que o barão João Batista Viana Drummond recebe dos cofres públicos
para manter o Jardim Zoológico que ele montou no ano passado a pedido de
D. Pedro II. É verdade que o barão sempre empregou o dinheiro em
benefício do próprio zôo, mas a subvenção é
vista nos meios republicanos como um favor que D. Pedro II fazia a um amigo. Preocupado
com o futuro de seu empreendimento, Drummond está cogitando criar algum
tipo de jogo de apostas ou sorteio que use a figura dos bichos do zoológico.
Com o dinheiro arrecadado, o barão substituiria a subvenção
governamental.
Virada surpreende estrangeiros
Os
governos estrangeiros e seus diplomatas no Brasil foram pegos de surpresa pela
Proclamação da República. Apenas uma semana antes, o governo
britânico, informado por uma carta do barão de Rothschild - o principal
banqueiro internacional - sobre o êxito das negociações da
dívida do Brasil, assinalou, em mensagem ao seu embaixador no Rio de Janeiro,
Hugh Windham: "Esta carta mostra o quanto está alto o crédito brasileiro
em Londres". Agora, o assombrado Windham comenta: "Raramente se viu uma monarquia
cair em tão poucas horas sem que um gesto tenha sido feito em sua defessa".
Também tomado de surpresa, o embaixador americano Robert Adams se refez
rapidamente do susto. "É importante que nós sejamos os primeiros
a reconhecer a República", recomendou ao Departamento de Estado dois dias
depois da proclamação. Seu desejo, porém, não se realizou:
o novo governo já foi reconhecido pela Argentina e pelo Uruguai, os únicos
países a tomarem essa iniciativa até agora.
| Dom Pedro prefere exílio em hotel
Quando chegar ao exílio em Lisboa, D. Pedra II deverá ficar
hospedado num hotel, como qualquer plebeu, o momento de embarcar para a travessia
do Atlântico a bordo do Alagoas, o imperador chegou a receber um
convite de seu sobrinho, dom Carlos, rei de Portugal, o qual punha à sua
disposição, para futura residência da família imperial
brasileira, um dos seus palácios em Lisboa. D. Pedro declinou gentilmente
do convite, que fora trazido pelo embaixador português no Rio. Pouco antes,
ele havia também recusado uma oferta parecida feita pelo embaixador da
Áustria, em nome do imperador Francisco José. Na realidade, se tiver
de escolher um lugar para curtir seus dias de exílio. a opção
de D. Pedro não será nem por Lisboa nem por Viena, e sim Paris,
uma cidade pela qual nutre verdadeira adoração. |