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Brasil
VEJA, 20 de novembro de 1889

A anarquia militar, a abolição
radical e o centralismo derrubam o Império de supetão
O Brasil acordou monarquista na sexta-feira passada
e foi dormir republicano. Jamais houve na História do país
uma ruptura política tão inesperada. Na véspera,
ninguém poderia prever que o reinado viria abaixo. Ao cair
da tarde de quinta-feira, D. Pedro lI, 63 anos, fugindo do calor
carioca, estava posto em sossego no palácio de Petrópolis,
onde escreveu seu habitual soneto diário. No mesmo momento,
o marechal Manoel Deodoro da Fonseca, 62 anos, encontrava-se em
Andaraí, na casa de seu irmão, o oficial-médico
João Severiano, tentando recuperar-se de um de seus habituais
ataques de falta de ar. Menos de 48 horas depois, os detalhes eram
semelhantes, mas as instituições estavam de pernas
para o ar. D. Pedro lI, detido no palácio imperial do Rio
de Janeiro, escrevia não um poema, mas, com a ajuda do barão
de Loreto, a carta em que acatava a ordem de exilar-se: "Cedendo
ao império das circunstâncias, resolvo partir com toda
a minha família para a Europa amanhã". Na mesma
hora, Deodoro ia para a cama, tão fortes eram os seus achaques.
Mas com falta de ar e de cama era o chefe do governo provisório,
o homem mais poderoso do pais.
Por mais que alguns republicanos agora queiram provar que a monarquia
caía de podre, que a República era um anseio popular
e que o movimento pela sua proclamação estava organizado
até os íntimos detalhes, os fatos foram bem diferentes.
O imperador e a princesa Isabel eram respeitados e admirados pela
gente humilde, que no ano passado deixou de ser escrava. O Partido
Republicano conseguiu eleger apenas dois deputados nas eleições
de agosto, e, nas ruas, as simpatias que conseguia angariar eram
episódicas e pouco eficazes. Quanto à organização
das forças que derrubaram de supetão a monarquia na
sexta-feira passada, elas lembravam mais uma geringonça andando
aos solavancos que um trem bem azeitado. O dia 15 foi repleto de
lances de confusão, de líderes que deram shows de
hesitação (a começar por Deodoro), de liderados
que acreditaram em boatos e saíram de quartéis pensando
que estavam apenas derrubando o ministério. É quase
um milagre que a República tenha sido proclamada na sexta-feira
passada.
E, no entanto, o Brasil não só acordou imperial e
dormiu republicano como, pelo menos até agora, não
há indícios em qualquer canto do país de movimentos
significativos de restauração monárquica. Caiu
o Império praticamente sem sangue ou apenas com o sangue
do Ministro da Marinha, José da Costa Azevedo, o barão
de Ladário, 63 anos, ferido com dois tiros, um deles na região
glútea. Caiu porque, ao longo dos últimos anos, a
monarquia se embaralhou ao jogar com três problemas que de
chofre lhe desabaram sobre a cabeça na sexta-feira, fazendo
com que a coroa rolasse pelo chão. Os problemas que enredaram
o Império foram a Abolição da Escravatura,
o centralismo econômico-administrativo e a indisciplina militar.
A Abolição da Escravatura, tal como foi feita em
13 de maio do ano passado, representou uma aceleração
radical na política de distensão lenta, gradual e
segura do Império. Até então, os passos para
acabar com o "elemento servil" - como dizia o imperador,
recusando-se a usar a palavra feia mas correta: escravidão
- se mediam em décadas. Em meados dos anos 50 terminou o
tráfico de escravos. Em 1871, foi promulgada a Lei do ventre
Livre, libertando os escravos nascidos desde então, e só
catorze anos depois era assinada a Lei dos Sexagenários.
Essas duas leis tinham embutidos mecanismos de indenização
aos proprietários de escravos. Com a Lei Áurea, a
princesa Isabel radicalizou. Ela expropriou os donos de escravos,
que se viram privados de suas propriedades sem receber nada em troca.
Essa violência contra escravocratas não ocorreu em
país nenhum do mundo. Ou melhor, a libertação
de escravos sem indenização só aconteceu nos
Estados Unidos, mas numa situação particular: o Estados
do norte decretaram a abolição em 1863 para atacar
os escravocratas do sul do país, no quadro da guerra civil
iniciada dois anos antes.
O Império não deu a indenização aos
senhores de escravos por motivos econômicos. "O Brasil
não é bastante rico para apagar o seu crime",
explicou o abolicionista e monarquista Joaquim Nabuco, 40 anos.
Ou seja, o Império não tinha dinheiro em caixa para
pagar as indenizações aos mais de 200.000 donos dos
700.000 escravos libertados no ano passado. Com isso, a monarquia
perdeu sua base de apoio mais sólida, a dos fazendeiros,
que se sentiram roubados. Com uma clarividência notável,
o falecido João Maurício Wanderley, barão de
Cotegipe, presidente do Conselho de Estado até dois meses
antes da abolição, afirmou depois da assinatura da
Lei Áurea que a princesa Isabel havia libertado uma raça,
mas perdido o trono.
O centralismo do Império deu bons resultados enquanto a
Província do Rio de Janeiro foi o pólo mais dinâmico
da economia nacional. Na medida em que a cafeicultura perdeu força
no Rio, principalmente devido à exaustão dos solos,
e começa a florescer no centro-oeste do país, inicia-se
a grita federalista. Em alguns casos, o federalismo atinge o extremo
do separatismo, como nas posições defendidas pelo
advogado Alberto Sales, 32 anos, um dos donos de A Província
de São Paulo, que no ano passado publicou A Pátria
Paulista. No livro, o irmão de Campos Sales, o novo ministro
da Justiça, informa que a província paulista tem uma
renda anual de 25.000 contos de réis, e mais de 20.000 contos
de réis vão para o governo central. "Salta aos
olhos que o separatismo só poderá ser extremamente
vantajoso para os paulistas", diz Alberto Sales. Afora o aspecto
econômico da demanda federalista, havia o político.
Martim Francisco, 36 anos, republicano e separatista paulista, atribuía
a "infelicidade" de São Paulo à pequena
representação da Província na Câmara.
Isto porque cada deputado paulista representava 1.500 eleitores,
enquanto um parlamentar do norte falava por 800 eleitores. Como
o Império remanchou em atender aos interesses provinciais,
a federação transformou-se numa reivindicação
por excelência.
Se a abolição sem indenização e a federação
eram dificuldades latentes mas um tanto difusas, a indisciplina
militar era um problema indisfarçável, quase cotidiano.
O problema tem suas raízes no final da Guerra do Paraguai,
em 1870. A luta dos soldados estendeu-se por mais de cinco anos,
foi árdua e cheia de revezes. A guerra fez com que surgisse,
através de promoções rápidas e sucessivas,
uma nova geração de altos oficiais. Essa nova geração
ocupou lugares que foram antes de generais como Luis Alves de Lima
e Silva, o duque de Caxias, e Manuel Luís Osório,
o marquês de Erval, ambos falecidos há mais de nove
anos. "Só tive um protetor: Solano López. Devo
a ele, que provocou a Guerra do Paraguai, a minha carreira",
diz o próprio Deodoro da Fonseca, explicando como chegou
a marechal.
A guerra, se trouxe benefícios à oficialidade, foi
também traumática e fez com que se estreitassem os
laços de camaradagem e solidariedade entre os componentes
da tropa. Fez, em suma, que o Exército se tornasse mais corporativista,
achando que, por ter ganhado a guerra, a nação lhe
devia algo. Lentamente, a princípio, e nos últimos
tempos com uma sofreguidão alucinada, oficiais começaram
a protestar a respeito de tudo, a se imiscuir em assuntos que não
lhes diziam respeito, a descumprir ordens do Ministério da
Guerra e do governo. Por outro lado, nas escolas militares, os cadetes
eram formados num currículo bacharelesco, aprendendo positivismo,
neologismo e teorias política. Logo o Exército se
politizou, com oficiais como Deodoro enviando cartas à princesa
Isabel, antes da Lei Áurea, dizendo que o Exército
não iria caçar escravos fugidos.
A essa anarquia militar cada vez mais evidente o Império
reagiu de modo oscilante, ora punindo, ora fazendo vista grossa
à insubordinação - mas fundamentalmente não
percebendo o tamanho da baderna que fermentava nos quartéis
e escolas militares. Embebidos no mais chão dos corporativismos,
açulados por federalistas, proprietários de escravos
que queriam indenização e, é claro, por republicanos,
os militares deram o golpe fatal na monarquia na sexta passada.
Tiveram como adversário um imperador doente e cansado, uma
monarquia com problema de sucessão no trono e um ministério
dividido, cego para as dificuldades prementes. O Brasil entra numa
nova era, a da República, um regime que permite a ampliação
da cidadania, a participação popular, a democracia.
O governo provisório tem muitos ministros de talento, mas
os problemas imediatos que eles terão de resolver são
graves, são os mesmos que embaralharam o Império:
o da indenização peja abolição, o da
autonomia das províncias e o da anarquia militar.
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