Ponto de Vista :
Visconde de Ouro Preto
Visconde de Ouro Preto
Biblioteca Nacional/
Reprodução Lula Rodrigues
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Seguramente estão vivas na lembrança do público
as circunstâncias em que aceitei o poder no dia 7 de junho
do corrente ano. Convém, porém, recordar em rápida
resenha os atos desse ministério que durou apenas cinco meses
e poucos dias. Explorando os interesses contrariados pela abolição
da escravidão, chegara a propaganda republicana ao maior
auge, conquistando dia a dia novos prosélitos, especialmente
nas classes da lavoura e do comércio, mais diretamente prejudicadas
por aquele grande ato. As demais classes importante do país
também se mostravam possuídas de profunda descrença
ou completo desânimo. O Partido Conservador, de posse do governo
desde 1885, fracionara-se em dois grupos, que depois de se hostilizarem
cruamente se confessaram impotentes para dirigir os negócios
públicos.
Tal era, em resumo, a situação quando a confiança
da Coroa, confirmando a indicação do meu partido,
conferiu-me a missão de organizar o gabinete. Apresentei-me
ao Parlamento com um programa francamente democrático, comprometendo-me
a realizar reformas liberais, que inutilizassem virtualmente a propaganda
republicana e, de par com elas, melhorassem as condições
econômicas e financeiras do país. A repulsa formal
da Câmara dos Deputados, em sua grande maioria composta de
adversários, posto que nada mais lhe pedisse além
dos meios indispensáveis de governo, obrigou-me a dissolvê-la,
convocando eleições para dia 31 de agosto passado.
Sem a menos violência, sem se socorrer dos meios de corrupção,
o gabinete de 7 de junho triunfou nas eleições, reunindo
imensa e lustrada maioria na Câmara dos Deputados. O programa
de reformas políticas e administrativas, na forma de projetos,
seria submetido ao Parlamento logo no primeiro dia útil das
sessões legislativas. Tais projetos, convertidos em lei,
imporiam silêncio à propaganda republicana, demonstrando
praticamente que sob a monarquia constitucional representativa pode
operar-se a máxima descentralização administrativa,
com a maior expansão de todas as liberdades e garantias.
Batidos nas urnas, pois apesar da aliança com o Partido
Conservador não conseguiram eleger senão dois deputados,
os republicanos apelaram, como recurso extremo, para uma sedição
militar. E ele fez-se, e triunfou em presença da nação,
tomada de surpresa, e depois coagida pelas violências praticadas
para conservar o poder.
O império não foi a ruína. Foi a conservação
e o progresso. Durante meio século manteve íntegro,
tranqüilo e unido território colossal. O império
converteu um país atrasado e pouco populoso em grande e forte
nacionalidade, primeira potência sul-americana, considerada
e respeitada em todo o mundo civilizado. O império aboliu
de fato a pena de morte, extinguiu a escravidão, deu ao Brasil
glórias imorredouras, paz interna, ordem, segurança
e, mas que tudo, liberdade individual como não houve jamais
em país algum. Quais as faltas ou crimes de D. Pedro II,
que em quase cinqüenta anos de reinado nunca perseguiu ninguém,
nunca se lembrou de uma ingratidão, nunca vingou uma injúria,
pronto sempre a perdoar, esquecer e beneficiar? Quais os erros praticados
que o tornaram merecedor da deposição e exílio
quando, velho e enfermo, mais devia contar com o respeito e a veneração
de seus concidadãos?
A República brasileira, como foi proclamada, é uma
obra de iniqüidade. Se não tenho completamente obliterado
o parco entendimento que Deus me concedeu, não é infundada
a convicção de que não perdurará. A
República se levantou sobre os broquéis da soldadesca
amotinada, vem de uma origem criminosa, realizou-se por meio de
um atentado sem precedentes na História e terá uma
existência efêmera. Nada significam as adesões
que apregoa surgirem de todos os pontos do império. Originam-se
do terror ou partem da multidão interesseira dos descontentes
da situação decaída e daqueles que, ainda em
maior número, esperam lucrar com a que se inaugurou –
massa flutuante que adere a quem pode, no momento, fazer o mal ou
distribuir favores. Devorar-se-ão entre si os que se aliaram
para dominar o país, contra o voto e por ele solenemente
expresso de manter as instituições que o regiam. Ou
prevalecerá a caudilhagem militar, sacrificadas as liberdade
cívicas, como em quase todos os Estados sul-americanos. Ou
o Exército será vítima dos demagogos de que
se fez instrumento. Uma nação de homens livres não
suportará por muito tempo tão intolerável regime.
Dissipado o assombro de que foi tomada, a nação reagirá,
impondo sua vontade soberana.
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