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Ópera
VEJA, 20 de novembro de 1889

Em Lo Schiavo, Carlos Gomes escraviza índios, faz sucesso no Rio e se mete em confusões


Reprodução Jussi Lehto
Carlos Gomes: na trilha do sucesso fácil

O maestro brasileiro Carlos Gomes, de 53 anos, nome estabelecido entre as platéias operísticas européias como um dos bons compositores do gênero, vestiu o cocar de penas coloridas e cedeu à tentação do sucesso fácil. Sua nova criação, Lo Schiavo (O Escravo), que estreou em setembro no Rio de Janeiro, passa perto de se tomar uma grotesca paródia, a despeito da ótima música que Carlos Gomes escreveu. O compositor, mais de um ano depois da Abolição da Escravatura no Brasil, não teve coragem para colocar um negro como personagem principal, caindo no ridículo de fazer com que um índio - o corajoso lbere - protagonizasse sua nova ópera. A manobra teve evidentes intenções comerciais, pois Carlos Gomes seguiu o conselho de seus empresários na Itália, que tencionavam repetir o sucesso de O Guarany, estouro de bilheteria desde sua estréia, em 1870. No raciocínio dos empresários, o público se encantou com o índio Peri, e portanto valia repetir a dose - desta vez com o exotismo inconcebível de colocar um indígena, e não um negro, como escravo. Comenta-se que a colocação do índio no lugar do negro desagradou profundamente ao autor do argumento da peça, Alfredo d'Escragnolle Taunay.

O erro de Carlos Gomes é tanto mais lastimável quando se leva em conta que em Lo Schiavo ele fez uma de suas melhores óperas até hoje, superando, em qualidade e invenção, seu maior sucesso, O Guarany. Desta, Carlos Gomes manteve as melodias inspiradas, juntando a elas uma boa dose de ousadia orquestral e harmônica que já havia ensaiado em Fosca. O prelúdio do 4º ato, chamado Alvorada, tem tudo para se tomar peça do repertório das salas de concerto por seu poder de sugestão e riqueza do colorido orquestral. Pena que o brilho da música é empanado pelo grotesco de se ver, em cena, tenores seminus interpretando índios com inverossímeis bigodões, cantando em italiano, a exemplo do que já acontecera em O Guarany. Índio no lugar de negro escravo já é difícil de acreditar - e índio de bigode é impossível.

Talvez o compositor campineiro tenha sucumbido a algo mais grave que a vontade dos empresários italianos em lotar teatros: o preconceito racial. Se colocasse um personagem negro, não estaria sequer sendo o primeiro a fazê-lo. É bom lembrar que o protagonista de Otello, de Verdi, estreada há dois anos, é um mouro, e a personagem principal de Aida é uma princesa etíope. Lo Schiavo marca um dos períodos mais atribulados da carreira de Carlos Gomes. A ópera estrearia, a princípio, não no Rio de Janeiro, mas em Bolonha, na Itália, país onde o compositor reside há mais de vinte anos. As récitas italianas foram suspensas por uma decisão judicial. Para compor o belíssimo Hino à Liberdade, incluído no 2º ato da ópera, o compositor valeu-se de um poema do vate italiano Francesco Giganti, um amigo seu. Rodolfo Paravicini, autor do Iibreto original sobre o argumento de Taunay, não gostou que se fizessem enxertos na sua obra literária e entrou na Justiça - ganhou a causa, impedindo que os índios de Carlos Gomes entoassem seus cantos no país de Verdi.

Com o revés italiano, CarIos Gomes veio de malas e bagagens para o Brasil, confiando que seria possível montar a ópera aqui, com a ajuda do imperador, habitual financiador dos seus projetos. O Visconde de Taunay, amigo de Carlos Gomes há anos, foi ter com o imperador para relatar as dificuldades do compositor, que, com graves problemas financeiros, não teria como montar sua ópera. D. Pedro II entusiasmou-se com a possibilidade de estrear Lo Schiavo no Brasil. Quando soube, porém, que as despesas com a montagem poderiam chegar aos 40 contos de réis, deu um pulo do trono. "Ui, que isto também é demais", disse D. Pedro II a Taunay. A ópera só pôde ser estreada no Rio de Janeiro graças à Princesa Isabel, que abriu uma subscrição para arrecadar fundos com a nobreza e o empresariado locais.

Com o sucesso de Lo Schiavo no Rio de Janeiro, Carlos Gomes obteve a promessa do imperador D. Pedro II de que seria nomeado diretor do Conservatório Nacional de Música. A promessa dificilmente irá se concretizar com a instauração da República, já que Carlos Gomes é um nome tradicionalmente ligado ao imperador e ao antigo regime. Caso não consiga o emprego, o compositor, que tencionava voltar ao Brasil, ficará em situação difícil, já que atravessa graves problemas financeiros na Itália - foi obrigado a abandonar a suntuosa vila onde morava para se mudar para um apartamento modesto em Milão. Espera-se que Carlos Gomes consiga sanear suas finanças com os rendimentos de Lo Schiavo continue escrevendo belas óperas - tomando cuidado, da próxima vez, em enfrentar as questões de seu tempo.

 

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