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Música
VEJA, 20 de novembro de 1889

O maxixe conquista teatros
e salões de baile e se firma como a dança da moda
Pernas entrelaçadas e umbigos que saracoteiam em Iambadas
recíprocas dão o tom da mais nova febre que assola
as sociedades carnavalescas e teatros da cidade: o maxixe. O balanço
irresistível do maxixe, de tão variado, não
pode ser classificado como um ritmo musical. O que caracteriza o
maxixe é uma coreografia muito peculiar, provocante a ponto
de roçar os limites do decoro, que vem despertando celeuma
na mesma medida em que a dança se firma como o prato predileto
nos salões de baile populares do Rio de Janeiro. Para se
dançar maxixe, é necessário ter os pés
praticamente plantados no chão - mexe-se pouco com eles -
e responder aos apelos sincopados da música com acentuados
requebros de cintura. Dança-se maxixe com os corpos colados,
e alguns cavalheiros tomam a liberdade de pousar as mãos
abaixo da cintura de suas parceiras durante os volteios. Com esses
movimentos ousados, cabe perguntar se o ritmo da moda é uma
dança saborosa e inovadora ou apenas uma indecência
ao som de música sincopada.
A rainha do maxixe no Rio de Janeiro, a maestrina e compositora
Francisca Edwiges Gonzaga, de 42 anos, conhecida como "Chiquinha
Gonzaga", sabe muito bem o que significa o escândalo
em torno do novo ritmo. Renomada professora de música e compositora
no Rio de Janeiro, ela coloca no frontispício das partituras
de seus maxixes a denominação "tango brasileiro".
"Se eu colocar nas músicas o termo maxixe, elas não
entram nas casas de família que têm piano", queixa-se
a compositora. Foi ela também a responsável pela introdução
do maxixe nos palcos dos teatros, a bordo da revista musical A
Corte na Roça, de 1885 - primeira opereta com música
escrita por uma mulher a ser encenada nos palcos brasileiros. O
teatro que exibia a peça sofreu ameaça de interdição
por parte da polícia, que queria cortar a cena final aquela
em que um casal de capiaus aparece maxixando com todos os requebros
e trejeitos, num alucinante vai-e-vem de umbigos. "Na roça
não se dança de maneira tão indecente", observou
um crítico na época.
A polícia implicou com A Corte na Roça, na
verdade, por motivos políticos. Chiquinha Gonzaga, que gosta
de se ocupar de assuntos masculinos como a política, foi
abolicionista e é republicana ferrenha. Na peça, ela
incluiu os seguintes versos, cantados na voz de um caipira:
Já não há nenhum escravo
Na fazenda do sinhô
Todos são abolicionistas
Até mesmo o imperador.
A polícia exigiu que se trocasse a palavra "imperador" por
"doutor". Hoje, se Chiquinha decidisse remontar a peça,
não teria quaisquer problemas com a polícia. E o sucesso
estaria garantido - nos últimos tempos, as peças de
maior público são aquelas que incluem, entre suas
atrações, números de maxixe.
Mesmo com toda a oposição dos defensores da moral,
as sociedades carnavalescas nas quais se pratica o maxixe vêm
sendo freqüentadas, com cada vez mais intensidade, por rapazes
da alta sociedade; e as partituras do ritmo, escondidas sob o pseudônimo
de tangos brasileiros, penetram furtivamente dentro dos lares, onde
moças de família as executam ao piano. Mistura da
melodia expressiva do chorinho com a métrica sincopada e
pulsante do lundu, o maxixe, ao lado das modinhas imperiais - que
acontecerá a esse nome com a queda do Império? -,
tem tudo para se firmar como a moda musical do momento. A exemplo
da modinha, a princípio considerada chula e lasciva, e que
hoje começa a ganhar aceitação nos círculos
mais nobres da sociedade, o maxixe vem dando uma lambada em seus
opositores e fazendo da polêmica que desperta mais um atrativo.
A proibição redobra o prazer de remexer a cintura
e trocar confidências diretamente de umbigo a umbigo.
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