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Economia e Negócios
VEJA, 20 de novembro de 1889

A morte de Mauá põe um ponto final na trajetória
do homem que plantou no Brasil a semente da indústria
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| Mauá: vitórias e derrotas, aplausos
e insultos |
O derradeiro capítulo, um mês antes da Proclamação
da República, foi singelo. O corretor de café, encanecido
e alquebrado por uma conjugação de reumatismo e diabete,
brincou com os netos, na casa alugada em Petrópolis, retirou-se
para a cama e morreu durante o sono. O enterro não teve pompa
nem multidão desconsolada: uns poucos amigos, a viúva
e apenas um dos dezoito filhos acumulados pelo casal em mais de
quarenta anos de vida conjugal. "Do meu canto, seja qual for
o local onde tenha de ser depositado em nove palmos de terra, levarei
comigo a consolação de ter procurado toda a minha
vida fazer algum bem e trabalhar por meu país", dissera,
anos antes, o morto. Tinha 76 anos e chamava-se Irineu Evangelista
de Sousa, primeiro barão e depois Visconde de Mauá.
Irineu de quê? - perguntarão talvez alguns jovens que
ora vibram com o advento da República. Faz pelo menos dez
anos, afinal, que seu nome caiu no esquecimento. Saiba-se, então,
que chegam ao fim naquela madrugada abafada de Petrópolis
uma das mais espetaculares biografias do Segundo Reinado.
Grandes vitórias e grandes derrotas, aplausos e impropérios
misturaram-se como jamais se vira antes no Brasil. Esqueça-se
por um momento a polêmica e contemple-se o Brasil deste final
de século. Trens encurtam distâncias, levam e trazem
mercadorias, integram uma nação de dimensões
continentais. Navios a vapor feitos no próprio país
singram rios e mares para cumprir o mesmo papel. Uma sólida
indústria de ferro "mãe de todas as outras",
como dizia Mauá - dá o suporte indispensável
ao incipiente processo de industrialização. Casas
bancárias financiam os empreendimentos nascentes. As ruas
das capitais são iluminadas por modernos lampiões
de gás, que, enfim, aposentaram os precários lampiões
de azeite de peixe utilizados desde os tempos de Colônia.
Bondes cruzam bairros e dão um novo sopro à vida urbana.
Rios são canalizados, o sistema de água e esgoto se
espalha e, com isso, menos vidas são ceifadas por condições
de higiene sempre tão ameaçadoras. Telégrafo
submarino põe o país em contato direto com o mundo
inteiro.
O catálogo de melhoramentos ocorridos nesses últimos
quarenta anos é imenso. E em todas as suas passagens mais
importantes vê-se a assinatura de Irineu Evangelista de Sousa.
Se o Segundo Reinado tem um rosto, ele é uma combinação
dos traços de D. Pedro II, de Duque de Caxias e de Mauá.
É possível até que prevaleçam os de
Mauá, um cidadão do mundo que conservou até
o fim o hábito de praguejar em inglês e salpicar palavras
castelhanas nas frases que pronunciava. Sua vida e sua época
confundem-se. O apogeu do Segundo Reinado, na década de 60,
foi o apogeu de Mauá. A agonia da monarquia, a partir da
segunda metade dos anos 70, foi sua agonia. A morte de Mauá,
um mês antes que se proclamasse a República não
poderia ser mais simbólica como o fim de uma era.
O homem mais rico do Império saiu do zero. Nascido em 1813
numa cidadezinha da Província do Rio Grande do Sul, Irineu
foi levado à corte aos 9 anos, por um tio que era capitão
de longo curso. Seu pai, dono de terras, fora assassinado quando
ele tinha 5 anos. A mãe decidira casar-se de novo, mas o
noivo exigira-lhe que se livrasse dos dois filhos - além
de Irineu, uma garota pouco mais velha. A saída, para Irineu,
foi o Rio de Janeiro. Para a imã, o casamento aos 10 anos.
Sozinho, pois o tio o deixara na corte e depois partira para a Índia.
Irineu empregou-se como caixeiro numa pequena loja. Atrás
dos balcões rústicos estavam portugueses pobres e
brasileiros analfabetos. Um estrangeiro que conheceu a corte naquele
começo de século horrorizou-se com o comércio.
"Os homens faziam da mercadoria e da porcaria companheiras
inseparáveis", afirmou o viajante.
O pequeno Irineu trabalhava das 7 da manhã às 10
da noite, hora em que o sino da igreja soava para determinar o fechamento
da loja. Dormia, às vezes, sobre o balcão. Estudava
depois do expediente, às vezes sozinho, às vezes com
a ajuda de algum freguês. Assim iniciou-se em francês
inglês, contabilidade e outros assuntos. Estava preparado,
ao empregar-se numa firma inglesa aos 16 anos, para dar o primeiro
grande salto de sua vida. A empresa, chamada Casa Carruthers, trabalhava
no ramo de importação e exportação de
mercadoria - um ramo extraordinariamente próspero naqueles
tempos em que as tarifas alfandegárias eram insignificantes.
O jovem caixeiro rapidamente conquistou a simpatia do dono da loja,
o inglês Richard Carruthers. Sete anos depois, quando Carruthers
decide voltar à Inglaterra, nomeou Irineu sócio-gerente
da loja. Ao patrão inglês, depois seu compadre, Irineu
deveu o pedaço mais vistoso de sua formação.
Tornou-se fluente em inglês. Leu avidamente os clássicos
do pensamento liberal, como Adam Smith, David Ricardo e John Stuart
Mill. Aprendeu a enxergar na escravidão um obstáculo
poderoso ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil - mais adiante,
sempre que celebrava um contrato, obrigava a outra parte a comprometer-se
a não empregar mão-de-obra escrava. Mais que tudo,
viu na trilha seguida pela Inglaterra, onde vastas construções
fabris povoadas de máquinas substituíam acanhadas
oficinas, a chave para o progresso do Brasil. Quando, aos 27 anos,
já dono de uma grande fortuna, cruzou o Atlântico para
conhecer a Inglaterra, percebeu o quanto o Império brasileiro
estava atrasado.
Ao retomar ao Brasil, era outro. No pIano pessoal, casou-se com
a sobrinha, Maria Joaquina. No plano profissional, encerrou as atividades
da Casa Carruthers e, com a riqueza que acumulara, lançou-se
à segunda etapa de sua vida - a de industrial. Determinadas
circunstâncias precipitaram a morte da Casa Carruthers. Em
1844, por exemplo, o ministro Alves Branco decidira elevar a taxação
dos produtos importados, com dois objetivos. O primeiro era reduzir
o eterno déficit do Estado e o segundo "proteger os
capitais nacionais já empregados dentro do Brasil e animar
outros a procurar tal destino". Medidas protecionistas espalhavam-se
pelo mundo na época, expediente a que governos recorriam
para dar oxigênio a indústrias recém-nascidas,
incapazes de enfrentar a concorrência de mercadorias feitas
na Inglaterra.
Apenas três anos antes das medidas de Alves Branco, um economista
alemão chamado Friedrich List publicara um livro de grande
repercussão em que defendia o protecionismo alfandegário.
Antes tão próspera, a Casa Carruthers de Irineu Evangelista
de Sousa foi castigada pelas mediadas. Outro fato viria acrescentar-se
para estimular o jovem comerciante a trocar de camisa: o fim do
tráfico negreiro, em 1850. O comércio de escravos
movimentava grandes fortunas, então. Para onde iria agora
o dinheiro do tráfico? Por que não para a formação
de indústrias? Era a hora certa, julgou Irineu, para o comerciante
transforma-se em industrial. Sem uma base sólida, e essa
base era o ferro, nenhuma indústria poderia aspirar à
prosperidade, sabia ele.
Assim, seu primeiro empreendimento foi uma fundição
chamada Ponta da Areia, instalada em Niterói. Ali, 1 000
operários produziram os tubos de ferro que canalizaram o
Rio Maracanã, os lampiões que iluminaram o Rio de
Janeiro e pontes de aço. A lista de produtos incluiria, também,
navios a vapor. Da Ponta da Areia saíram 72 navios, muitos
dos quais mais tarde integrariam a frota com a qual o Brasil guerreou
com o Paraguai de Solano López. " É sem, contestação,
o mais importante estabelecimento fabril do Império, tem
tido melhoramentos constantes e nos fornece produtos, meios e recursos
que outrora mandávamos mendigar à Europa", disse,
em 1850, um ministro de D. Pedro II. Como, porém, conviver
com o vaivém das autoridades brasileiras. O mesmo D. Pedro
II que anos antes determinara a elevação das tarifas
alfandegárias mandaria, em 1860, baixá-Ias. Navios
estrangeiros passaram a entrar no Brasil isentos de taxas. Era o
fim da Ponta da Areia, fechada com prejuízo de 1 000 contos
de réis para seu dono.
A essa altura, Irineu já estava metido em muitos outros
negócios, quase todos com final infeliz. Na noite de 25 de
março de 1854, por exemplo, ruas e praças da corte
aparecem "feericamente iluminadas", segundo os jornais
de então, com lampiões de gás instalados por
uma companhia montada pelo empreendedor. Um mês depois, em
30 de abril, sob as vistas do imperador, uma locomotiva a vapor
percorria os primeiros trilhos brasileiros, entre a Praia da Estrela,
no Rio de Janeiro, e a raiz da Serra de Petrópolis. Obra
também de Irineu Evangelista de Sousa, que neste dia ganhou
o título de Barão de Mauá. O barão foi
promovido a visconde em 1874, como recompensa por ter introduzido
no Brasil o telégrafo submarino. Na ocasião, D. Pedro
II despachou mensagens para personalidades como o papa Pio IX, a
rainha Vitória e o imperador Guilherme I. Um dia depois,
recebeu as respostas.
Foi o canto do cisne de Mauá. O banco que fundara em 1852
conduziu-o ao abismo. Nos tempos dourados, o Banco Mauá tivera
filiais em cidades como Londres, Paris, Nova York, Montevidéu
e Buenos Aires. Tinha mais dinheiro depositado que o banco oficial
e salvara certa vez o Império de uma constrangedora cobrança
de credores ingleses. Era tal seu prestígio que Mr. Foggs,
o personagem do romance A Volta ao Mundo em 80 Dias, do escritor
francês Jules Verne, tinha uma conta no Banco Mauá.
Quais as causas do naufrágio? São muitas. Com a diminuição
drástica das tarifas alfandegárias de 1860, o Brasil
fizera sua opção pela agricultura, para infortúnio
de quem, como Mauá, acreditara na industrialização.
O fechamento de seu banco em Montevidéu por um governo que
lhe era hostil contribuiu, também, para a derrocada.
Em 1875, sob o peso de débitos de 78 000 contos de réis,
o visconde pediu moratória de três anos para seu banco.
Os brasileiros assistiram perplexos à sua queda. Mauá
desfez-se de tudo para pagar as dívidas. As ações
que possuía de diversas companhias foram tragadas pela bancarrota.
Cristais e louça com brasões, almofadas de seda, um
tabuleiro de damas e outro de gamão, um mapa-múndi
- nem as pequenas coisas escaparam. Ao fim de três anos, o
grosso da dívida fora pago. Mauá escreveria, então,
sua famosa Exposição aos Credores, uma espécie
de autobiografia. Mudara-se com a mulher do palacete em que moravam,
que pertencera à Marquesa de Santos, para uma casa alugada
em Petrópolis. Com uma pequena soma de dinheiro que lhe fora
emprestada, dedicou-se a corretagens de café, mergulhado
no esquecimento. Assim passou os últimos anos. O homem que
a morte acaba de colher em Petrópolis, no entanto, não
foi vítima de uma derrota solitária. Sua derrota foi
a derrota do sonho de um Brasil moderno.
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