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Livros
VEJA, 20 de novembro de 1889

Após
quatro meses de silêncio, Machado de Assis volta a publicar os folhetins
de Quincas Borba
Biblioteca Nacional  |
| O escritor: galhofa e melancolia | Festejai,
republicanos de todo o país – vá lá, monarquistas também.
No final deste mês, o suplemento literário da revista feminina A
Estação traz de volta os folhetins de Quincas Borba,
de Joaquim Maria Machado de Assis. Já não era sem tempo. Iniciado
em junho de 1886, Quincas Borba desapareceu subitamente das páginas
de A Estação há quatro meses, nas quais muitas vezes
era publicado ao lado de anúncios de moda. Os leitores decerto estarão
curiosos por saber o destino que a pena ora galhofeira, ora melancólica
de Machado reservou àquelas personagens que circulam pela Corte carioca
de trinta anos atrás, quando se passa a história. O Brasil então
travava uma guerra com o Paraguai do marechal Solano López. O imperador
Pedro II impunha o veterano conservador Visconde de Itaboraí como presidente
do Conselho a uma Câmara de Deputados dominada pelos liberais, episódio
do qual surgiria o Partido Republicano. E a escravidão ingressava em seus
capítulos derradeiros com a assinatura da Lei do Ventre Livre.
Tudo
isso se sabe. O que se desconhece é o que virá em Quincas Borba,
vencida a crise de inspiração que se abateu sobre seu autor. Terá
sucesso Rubião, o mineiro pé–de–chinelo que subitamente se converteu
em capitalista graças à herança de um amigo lunático,
em sua corte adúltera à bela Sofia? Guasca perturbadora, Sofia é
capaz de enlouquecer o mais são dos homens. "Era daquela casta de mulheres
que o tempo, como um escultor vagaroso, não acaba logo, e vai polindo ao
passar dos longos dias", escreveu Machado. Sofia, na parte publicada do romance,
está casada com Cristiano Palha, um tipo extraordinariamente ambicioso
que conheceu Rubião quando este viajava num trem de Minas Gerais para o
Rio de Janeiro, já montado numa fortuna de muitos e muitos contos. Palha
insinuou–se na amizade de Rubião e acabou por tomar–se seu sócio
numa dessas casas de importação que proliferam no Rio nesta segunda
metade de século XIX. Em 1883, ao comentar o romance Memórias
Póstumas de Brás Cubas, um marco na obra de Machado de Assis,
o crítico Araripe Júnior, primo de José de Alencar, estampou
sua perplexidade. "É o livro mais esquisito que se tem publicado em língua
portuguesa", afirmou Araripe. Outro famoso literato, Capistrano de Abreu, perguntou
se era um romance. Eram compreensíveis estas considerações.
Ou alguém já vira antes um defunto autor, ou autor defunto, ele
mesmo, Brás Cubas? Mesmo um capítulo sem uma única palavra
aparecia no Memórias Póstumas. Até a interrupção
de julho passado, já haviam sido escritos 105 capítulos de Quincas
Borba, páginas suficientes para perceber que, em questão de
esquisitices, ambos os romances se equivalem. Primeiro que tudo, quem é
mesmo o Quincas Borba que dá nome à história? Bem, talvez
fosse melhor perguntar quais são, uma vez que não se trata de um,
mas de dois Quincas Borba. O primeiro é um filósofo maluco, o amigo
que legou a fortuna a Rubião, autor de uma teoria intitulada "Humanitas",
segundo a qual a guerra constrói e a paz destrói.Tentemos desvendá–Ia.
Suponhamos duas tribos em um campo de batatas. As batatas são bastantes
para saciar a fome de apenas uma das tribos. Se houver paz, ambas perecerão
de inanição. Na guerra, uma sobreviverá. O filósofo
não era exatamente conciso. Se o fosse, poderia resumir "Humanitas" numa
frase: ao vencedor, as batatas. Quincas Borba já aparecera antes no Memórias
Póstumas, filosofando extravagâncias e batendo a carteira de Brás
Cubas. Existe, assim, um elo evidente entre os dois romances. Mas se o primeiro
Quincas Borba surge agora apenas para morrer e enriquecer Rubião, o segundo
vem acompanhando–o todos os dias. Não fala, gane. É o cachorro do
filósofo, "algo peludo e cor de café", a quem o dono deu seu nome.
"Se eu morrer antes, como presumo, sobreviverei no nome de meu bom cachorro",
justificou Quincas Borba a Rubião. Entre Rubião e o legado do criador
de "Humanitas", erguia–se apenas uma condição: que cuidasse
do cão com o mesmo carinho que dedicaria ao amigo que morrera. Tudo muito
esquisito. No capítulo trinta de Quincas Borba, Machado de
Assis coloca–se na pele do leitor e faz um comentário revelador. "Arrenego
de um autor que me diz tudo, que me não deixa colaborar no livro, com a
minha própria imaginação", afirma. "A melhor página
não é só a que se relê, é também a que
a gente completa de si para si. "Não, ele não poderia perder uma
oportunidade de dar mais um piparote nos devotos da escola realista, que têm
no francês Emile ZoIa seu nome mais vistoso. A Machado repugna essa escola,
com sua obsessão por mostrar a realidade tal como é, em seus menores
detalhes, "com exação de inventário". Ele assestara já
uma memorável pancada nos realistas ao fazer a crítica de O Primo
Basílio, do português Eça de Queiroz, seguidor de Zola.
"A nova poética só chegará à perfeição
no dia em que nos disser o número exato de fios de que compõe um
lenço de cambraia ou um esfregão da cozinha", esporeava então,
Machado. Em que escola enquadrá–Io? Difícil. Aos derramamentos verbais
dos românticos e à submissão dos parnasianos à forma,
ele opõe a simplicidade. Talvez daqui a mais de um século os literatos
ainda discutam a que escola pertence Machado de Assis. Aos 50 anos de idade,
o escritor desfruta sólida reputação. Desde 1883, uma biblioteca
pública em ltajubá leva seu nome. "Chefe consagrado dos nossos
literatos", "o primeiro de todos", "o único", reverenciam–no escritores
como Raul Pompéia, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Se fosse criada no Brasil
uma academia de letras nos moldes da francesa, seria um poderoso candidato à
presidência. Machado de Assis dificilmente terá sido o brasileiro
mais feliz com o advento da República, assim como não compartilhara
o entusiasmo dos abolicionistas em 13 de maio do ano passado. Não que seja
um monarquista fanático, longe disso. É que, como escreveu numa
crônica recente, desconfia que, atrás dos arroubos dos progressistas,
escondem–se aproveitadores interessados em transformar a República recém–nascida
numa "anarquia social, mental, moral, não sei mais qual". Que não
tem os políticos em alta conta é notório. Os políticos
em suas obras são nulidades pomposas. Uma dessas nulidades aparece justamente
em Quincas Borba. Chama–se Camacho e faz, a certa altura, um desabafo lapidar.
"Isso de política é como a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo",
lamenta–se Camacho. "Não falta nada, nem o discípulo que nega, nem
o discípulo que vende." De mais a mais, é inegável que o
Segundo Reinado foi benfazejo a Machado de Assis, que vem de uma família
humilde. Propiciou–lhe uma excelente carreira como funcionário público.
Faz poucos meses, foi nomeado diretor do Ministério da Agricultura, com
um salário de 8 contos anuais. Parece que pensava em comprar finalmente
uma casa. Aquela em que ele e a mulher, Carolina, moram, no número 18 da
Rua Cosme Velho, é alugada à condessa de São Mamede. Mas,
provavelmente, agora se pergunta o que a República reservará para
um alto funcionário da Monarquia como ele. Seus cabelos estão
embranquecendo, e ele passou a usá–los curtos, com uma barba que se prolonga
em suíças até as orelhas. Gosta de jogar xadrez, voltarete
e gamão. Levanta–se cedo e vai ao jardim ver as rosas, as murtas e as borboletas.
"Tenho particular amor às borboletas", afirma. Depois, escreve. Trabalha
no ministério após o almoço. Tem sempre, nos passeios pelo
jardim, a companhia de Carolina. Conheceu–a no começo de 1867, irmã
do poeta satírico português Faustino Xavier de Novais, que se fixara
anos antes no Rio e fizera amizade com Machado de Assis. Morta a mãe, Novais
mandara buscar Carolina em Portugal. Ao desembarcar no Brasil, Carolina andava
pelos 32 anos e, se não era a mais formosa das lusitanas, tinha outras
virtudes que capturaram a atenção do escritor. Em Portugal, polira–se
na juventude na presença de intelectuais como Camilo Castelo Branco, que
freqüentavam a casa de seus pais. "Talvez um anjo emudece quando ela fala",
celebrou seu enamorado brasileiro numa poesia. Os dois tiveram que superar
resistências na família da noiva para casar, em 12 de novembro de
1869. O currículo extralivro do noivo não impressionou os Novais:
mulato, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, gago e epiléptico.
Carolina, com seu português castiço, é quem vela pela ortografia
sujeita a tropeços do autodidata que tomou por marido. É ela, também,
quem mantém à mão, discretamente, a solução
La Royenne, o antiepiléptico usado por Machado de Assis. Talvez Carolina
o tenha ensinado, de resto, a lidar com gente inoportuna. Numa festa, há
pouco tempo, uma senhora trocou meia dúzia de palavras com Machado e comentou:
"Tinham me dito que o senhor é gago e vejo que não é tanto".
Replicou ele: "Pois tinham–me dito que a senhora era estúpida e vejo
também que não é tanto". Louvem–na ou apedrejem–na,
a pena de Machado de Assis é, sem dúvida, versátil. Poesia,
romance, conto, crônica, crítica, teatro – a todos os gêneros
vem ele dedicando–se. Lá se vão 25 anos desde o lançamento
de seu primeiro livro, a coletânea de poemas Crisálidas, de 1864.
Vieram depois peças de teatro, volumes de contos, como Histórias
da Meia–Noite, e romances, como Ressurreição, Iaiá
Garcia e Memórias Póstumas. Memórias Póstumas,
aliás, de 1881, é um caso à parte. É diferente de
tudo quanto escrevera antes, páginas preenchidas "com a pena da galhofa
e a tinta da melancolia". Como pudera um só autor escrever Iaiá
Garcia e Memórias Póstumas? "É que eu perdi todas
as esperanças nos homens", disse certa vez Machado. Neste momento em que
o público está prestes a reencontrar–se com as peripécias
de Quincas Borba, talvez valha uma analogia entre criatura e criador. Ou,
mais especificamente, entre a bela Sopita e Machado de Assis. Ao modo de Sofia,
ele pertence àquela casta de escritores que o tempo, como um escultor vagaroso,
não acaba logo, e vai polindo ao passar dos longos dias.
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