Livros
VEJA, 20
de novembro de 1889

Anatole France,
Mark Twain e o jovem Joseph Conrad
dão a pista da literatura do fim
do século
No limiar da última década
do século, a literatura mundial está se transformando num bonde
moderníssimo, em que há bancos de sobra para todas as tendências.
Um rápido folhear nas páginas que chegam da Europa e dos Estados
Unidos permite que se descubram - paralelamente ao bate-boca e ao bate-letras
entre naturalistas e realistas e alguns nostálgicos românticos -
escritores que vêm tentando guiar o bonde da história da literatura
por becos pouco ou nunca trafegados. É o caso do francês Anatole
France e do americano Mark Twain, dois nomes já respeitados em seus respectivos
países, e de Joseph Conrad, um marinheiro polonês que se naturalizou
britânico há três anos e começa a despontar como um
talento emergente da língua inglesa. France e Twain vêm de lançar
os romances Pierre Noziere e Um Yankee na Corte do Rei Arthur, enquanto
Conrad escreveu recentemente o conto O Marujo Negro. A se tomar como parâmetro
o que esses três escritores vêm produzindo, é razoável
supor que a literatura do século XX será movida sobretudo por uma
extrema liberdade - para além da estreiteza das trilhas abertas pelas escolas
literárias ortodoxas. "A liberdade de imaginar deve ser a faculdade
mais apreciada do romancista", sentencia Conrad.
Os três têm
formações bem diferentes. Aos 45 anos, France, aliás Jacques
Anatole-François Thibault, é o que se pode chamar de uma autêntica
traça de livros. Filho de um livreiro que tinha um sebo em frente ao Louvre,
ele sempre viveu rodeado de clássicos da literatura e jamais pensou em
se afastar deles. Já Twain, hoje com 54 anos, fez de tudo antes de decidir,
há pouco mais de duas décadas, a se lançar à arte
da palavra. Largou a escola aos 12 anos de idade, logo após a morte do
pai, e se aventurou como pintor ambulante, piloto de barco no Mississipi, explorador
de ouro e prata e jornalista, até descobrir sua verdadeira vocação.
A certa altura de sua vida, chegou a pensar em vir tentar fortuna no Brasil...Quanto
a Conrad, só aprendeu o inglês aos 20 anos de idade, graças
ao pai, que era autor teatral, dirigia uma revista e traduzia Shakespeare. Apesar
dessa forte influência literária, decidiu ser marinheiro, trabalhando
primeiro na França e depois na Inglaterra. Hoje, aos 32 anos, depois de
inúmeras viagens, nas quais conheceu até o longínquo Oriente,
Conrad começa a pensar em trocar o mar pela pena e o tinteiro. É
em mãos de escritores tão diversos, cujas obras refletem plenamente
essa diferença, que a literatura vai tocando seu bonde rumo ao século
XX. A trinca de escritores ainda não teve seus livros lançados no
Brasil, mas as boas livrarias do país aceitam pedidos de importação.
O que mais chama a atenção na obra de Anatole France é
seu extremo ceticismo. Ele pode ser lido nas entrelinhas de um retrato da velhice
que é o amargo Le Crime de Sylvestre Bonnard, lançado em
1881, ou mesmo num delicado desenho da infância, como Le Livre de Mon
Ami, de quatro anos atrás. Essa amargura se estende à própria
atividade literária. Seja porque de fato sente isso ou apenas para provocar
polêmica, o fato é que France costuma dizer que nunca entra numa
livraria sem pensar na impropriedade de continuar "acrescentando mais umas tantas
páginas a esta, mas a de papel sujo de tinta". "Sempre me pergunto se não
seria melhor parar de escrever", conta. Ao persistir, porém, vem contribuindo
para alargar o campo das reflexões literárias, que desde Madame
Bovary, de Gustav Flaubert, só tinha olhos para o adultério.
Sob a máscara do humor, Mark Twain explora a mesma amargura. "A
fonte secreta do humorismo não é a alegria e sim a tristeza", raciocina.
Mas não é possível deixar de ler seus romances ou historietas
- um gênero reinventado por ele - sem dar boas gargalhadas. Ao mesmo tempo,
Twain procura trazer para sua prosa os tipos humanos e paisagens com que conviveu
durante os anos em que percorreu, dia e noite, as 2 300 milhas do Mississipi.
Também em cenários exóticos se desenvolve a nova literatura
de Conrad. No momento, ele escreve um romance, que deverá se chamar A
Loucura de Almayer - este é, ao menos, o título provisório
do livro.
A ação do romance de estréia de Conrad se
passa num arquipélago malaio, por onde se mexe o protagonista, um holandês
sonhador e ambicioso que o autor de fato conheceu quando esteve, há três
anos, na Malásia. Esta foi uma de suas viagens mais longas - ele ficou
no Extremo Oriente por dois anos. Embora Conrad comece a chamar a atenção
exatamente pelas paisagens estranhas que descreve, seu maior mérito parece
não ser este. Há em sua literatura um traçado psicológico
dos personagens feito com tal maestria que é absolutamente original. "Quero
chegar ao valor ideal das coisas, dos acontecimentos e dos seres", anuncia. Quem
já leu ao menos uma linha de seu trabalho, e é ele quem diz que
um romance deve se justificar em todas as suas linhas, pode assegurar que sua
vocação não é a marinha. O aparecimento e a afirmação
de três escritores como estes lançam por terra a idéia de
que os livros formam o ópio do Ocidente - como já chegou a dizer,
curiosamente, um deles, Anatole France. A diversidade de propostas literárias
a que se assiste hoje é uma prova de efervescência da literatura
uma arte que parece disposta a entrar no século XX sob o signo da renovação.