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Internacional
VEJA, 20 de novembro de 1889

Com a puritana rainha Vitória, a Inglaterra consolida a supremacia mundial, mas rivais
já despontam no horizonte


A rainha Vitória, 70 anos: longe da política e de oho na moral

Ao comemorar o septuagésimo aniversário da rainha Vitória, em maio último, a Inglaterra abrigava uma população duas vezes maior do que quando ela assumiu o trono, com apenas 18 anos de idade, em 1837. Naquela época, os ingleses pagavam o preço salgado de uma industrialização conduzida a toque de caixa: milhares de pessoas trocavam o campo pela vida miserável nas cidades, e, nos portos, toneladas de mercadorias se amontoavam encalhadas por falta de compradores no continente europeu. Se Thomas Malthus tivesse razão em suas profecias apocalípticas sobre a explosão demográfica, a maioria dos atuais 30 milhões de ingleses estaria morrendo de fome. E, se Karl Marx estivesse certo em sua teoria sobre os conflitos sociais sob o capitalismo, o país se encontraria à beira da revolução. Essas previsões pessimistas não se confirmaram. Embora a pobreza e o descontentamento não tenham desaparecido, os ingleses de 1889 vivem melhor do que nunca e acreditam mais nas mudanças pacíficas do que na violência.

Na realidade, todos - aristocratas. empresários ou trabalhadores - esperam receber o seu quinhão na espetacular arrancada que fez a Grã-Bretanha mudar mais nas últimas sete décadas do que nos sete séculos anteriores. De potência adolescente, orgulhosa de exibir seus músculos nas guerras napoleônicas, o leão britânico atinge o apogeu da vida adulta como o maior império que o mundo já conheceu em qualquer tempo. A Union Jack, como os ingleses chamam carinhosamente sua bandeira, trêmula em lugares tão distantes como a Índia e o Canadá, a África do Sul e a Birmânia. A Marinha de Sua Majestade, maior do que todas as outras somadas, leva aos quatro cantos do globo os produtos com a marca Made in England. Enquanto isso, a City de Londres se consolida como o centro de todo o comércio internacional, a ponto de se tornar inconcebível, em qualquer ponto do planeta, uma troca de mercadorias entre dois países sem que se faça presente a moeda britânica - a libra esterlina.

Ironicamente, no coração desse fabuloso império - tão extenso que foi definido como um lugar onde "o sol jamais se põe" - está uma mulher incapaz de suscitar, por sua aparência ou personalidade, a mais remota comparação com os grandes conquistadores da História, como Júlio César ou Alexandre, o Grande. Gordinha, com apenas 1.60 metro de altura, sempre vestida de preto em luto pelo marido morto há 28 anos, a rainha Vitória nunca sobressaiu pela inteligência e, nas raras vezes em que é chamada a opinar sobre política, limita-se a balançar a cabeça, afirmativamente, às explanações do primeiro-ministro de plantão. Nas questões de protocolo, a rainha é inflexível. Não suporta, por exemplo, que batam à porta de sua sala de despachos - um discreto arranhar é o bastante.

O traço mais marcante de seu longo reinado tem sido o puritanismo que imprime a todas as esferas do país. Talvez por falta de outra ocupação, já que o Parlamento controla efetivamente todos os assuntos do governo. Vitória dedica há várias décadas a tenacidade que herdou de sua mãe alemã a perseguir tudo o que, perante o seu olhar implacável, seja considerado indecente, um conceito vago que abrange desde o adultério até o erotismo nas obras de arte. Aos professores, a rainha recomenda que só ensinem às crianças a desenhar a figura humana do pescoço para cima - e, mesmo assim, que no traçado do rosto se limitem à sua "expressão espiritual". Na sua cruzada moralista, ela inclui como crime, no Código Penal, o homossexualismo masculino, Recusou-se, porém, a assinar um parágrafo que punia com igual rigor o homossexualismo feminino. "Eu, como mulher, simplesmente não posso conceber que duas mulheres façam isso entre quatro paredes", declarou.

A onda de puritanismo que tomou conta da Inglaterra se explica, até certo ponto, pela devassidão desenfreada que imperava na corte de Jorge IV. Ao morrer, em 1830, depois de onze anos de reinado, Jorge havia perdido completamente o respeito do povo, tantos foram os escândalos em que esteve envolvido. No último deles, sua mulher, Carolina de Brunswick, acusando-o de possuir muitas amantes, abandonou a Inglaterra e percorreu a Europa, onde teve, ao que parece, numerosas aventuras. No rumoroso processo de divórcio que se seguiu, todos os detalhes da vida íntima dos dois soberanos foram expostos e discutidos publicamente. Seu irmão e sucessor, Guilherme IV, também não teve filhos - o ambiente na corte, àquela época, era tão libertino que nenhum dos sete irmãos de Jorge IV sequer se casou, preferindo trocar periodicamente de amantes. Foi assim que, graças a uma série de acasos, após a morte de Guilherme IV a coroa escorregou para a cabeça da filha do duque de Kent, casado com uma nobre alemã, a princesa Vitória de Leiningen, que deu o mesmo nome à única filha do casal. Órfã de pai aos 8 meses de idade, a jovem Vitória passou a infância reclusa com suas governantas, sem o menor contato com a corte - um ambiente julgado impróprio para ela.

"A família real precisa dar o exemplo de moralidade", observou nas vésperas de sua coroação um bispo da Igreja Anglicana. "Como vamos pedir aos operários que trabalhem - explicou - se uma corte pervertida desperdiça em prazeres os recursos do Tesouro?" Casando-se em 1840 com outro membro da nobreza germânica - o príncipe Alberto de Saxego, que lhe daria nove filhos e uma vida conjugal harmoniosa e sem escândalos -, Vitória tem cumprido plenamente, até hoje, as expectativas nela depositadas. A rígida moral protestante em que fora educada Vitória acabaria, no entanto, por se voltar contra quem menos imaginaria que isso fosse ocorrer: sua própria mãe - a rainha jamais perdoou o breve romance entre a viúva e seu secretário, John Conroy. Como castigo, exilou-a para as dependências mais afastadas do Palácio de Buckingham. Já a reputação de Vitória permanece inabalada, apesar dos rumores maliciosos que cercam sua estreita amizade com o cavalariço John Brown, iniciada depois da morte prematura do marido. Velho empregado da família, Brown é o único que pode entrar nos aposentos da rainha sem pedir licença, saindo de lá, muitas vezes, às altas horas da madrugada.

O moralismo exacerbado mas nem sempre sincero - marca registrada da era vitoriana - tem sido compensado, nas últimas décadas, por um avanço gradual porém constante no rumo da democracia. Há cinqüenta anos, apenas um em cada 32 ingleses podia eleger seu representante no Parlamento - só votavam os proprietários de terras muito ricos. Sucessivas reformas foram ampliando o direito de voto e, graças a elas, nada menos que 29% dos homens adultos participam atualmente das eleições para a Câmara dos Comuns. Não satisfeitos com isso, alguns agrupamentos mais radicais iniciaram recentemente uma campanha pelo sufrágio universal, sob a forte resistência dos setores receosos de que a medida venha a provocar a implantação do comunismo. A última novidade, em matéria eleitoral, são os barulhentos grupos de mulheres que saem às ruas com a exótica bandeira do voto feminino - uma ousada inovação só testada, até agora, em duas remotas extremidades do mundo civilizado: a longínqua Nova Zelândia e o Estado americano do Wyoming.

Ainda é cedo para saber se a iniciativa das sufragettes - como a imprensa européia apelidou essas mulheres audaciosas - alcançará sua meta. O fato é que, cada vez mais, o sexo feminino começa a ocupar espaços antes reservados aos homens. Até pouco tempo atrás, só as mulheres operárias, tangidas pela fome, se dispunham a trabalhar fora dos seus lares. Agora, moças bem vestidas disputam vagas nos escritórios, nas lojas e no magistério - uma generosa fonte de emprego para professoras graças à proliferação do ensino público. Na Alemanha, já há mais de 50. 000 mulheres trabalhando como balconistas, embora persista, nesse país, a antiquada proibição das mulheres nas universidades - um tabu derrubado há muito tempo na Inglaterra e na França.

Essa é, de fato, uma época de prodigiosas transformações, em que o aumento da riqueza e os avanços tecnológicos colocam ao alcance de milhares de famílias da classe média bens antes só acessíveis aos aristocratas. Na Inglaterra, por exemplo, um professor universitário pode viver folgadamente com o salário anual de 500 libras, com acesso a todas as coisas boas da vida: um mês de férias na Suíça custa 68 libras para um casal, enquanto um serviço de jantar com 10 peças pode ser adquirido, em Londres, por apenas 5 libras. Mais prósperas, as classes médias têm também mais tempo para o lazer. Por toda a Europa, surgem associações de alpinismo e clubes para a prática do tênis e do golfe, onde o acesso das mulheres é permitido em pé de igualdade.

Do outro lado da moeda, o mundo contemporâneo assiste ao recrudescimento das tensões internacionais. Velhos impérios, como a Rússia e a Áustria, cambaleiam a olhos vistos. A poderosa Inglaterra da rainha Vitória ainda pode saborear sua supremacia, mas as sombras de novos competidores já despontam, desafiadoramente, em três diferentes regiões do globo. No Novo Mundo, os Estados Unidos, sua ex-colônia, progridem num ritmo estonteante. Na velha Europa, a Alemanha ganha impulso como um agressivo rival nos mares e no comércio. No Oriente, por fim, o misterioso Japão acaba de adotar uma Constituição à moda ocidental - e, também à ocidental, afia os dentes para disputar seu pedaço na partilha de um planeta que já parece pequeno para o apetite de tantas potências, novas e velhas. A diplomacia, porém, ainda se mostra capaz de preservar o equilíbrio de forças, podendo, eventualmente, pacificar conflitos localizados - desses que pipocam ali ou ali sem conseqüências maiores. Nada, até agora, parece dar crédito ao sombrio prognóstico do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que vislumbrou, para o próximo século, "uma era de guerras, levantes e explosões monstruosas".

 

Uma sombra apavora Londres

Jack, o Estripador, engana a polícia

"Vivo ouvindo dizer que a polícia me pegou, mas isto é mentira. Minha faca é linda e afiada e vou voltar ao trabalho assim que tiver uma chance." Doze meses depois do último crime atribuído a "Jack, o Estripador" - o maníaco que trucidou cinco mulheres em Londres no ano passado -, essa tenebrosa ameaça, feita numa carta que o próprio assassino enviou à polícia acompanhada de um pedaço do fígado de uma de suas vítimas continua a espalhar o medo entre os ingleses. Até agora, a Scotland Yard permanece tão desnorteada como no primeiro dia, e os londrinos esperam, a qualquer momento, pelo surgimento de mais um cadáver com a marca do Jack. Uma sexta morte chegou a ser anunciada em julho último, quando a prostituta Alice Mackenzie apareceu degolada num beco obscuro. Depois dos exames, contudo, a polícia concluiu que se tratava da obra de um "imitador" agindo sob a inspiração do mistério.

Os cinco crimes de Jack foram cometidos em dez semanas, entre 31 de agosto e 9 de novembro do ano passado. Com exceção da última vítima, Mary Jane Kelly, 24 anos, bonita, olhos azuis e cabelos até a cintura, as outras quatro mulheres assassinadas eram feias, abandonadas e se prostituíam por alguns tostões para pagar as pensões imundas onde viviam, no deteriorado bairro de Whitechapel. Foram encontradas com a garganta cortada por uma faca e as vísceras espalhadas ao redor do corpo.

As descrições do suposto Jack coincidem em vários pontos: o criminoso, afirmam várias testemunhas, é um homem de aproximadamente 30 anos, alto, de bigode escuro e - conforme precisou um dos depoimentos - "de aparência respeitável". Com base nessas informações vagas, a Scotland Yard arrolou uma lista de suspeitos, que lhe valeram uma estrondosa coleção de fiascos. No mais recente deles, o alvo da suspeita era o advogado Montagne John Druitt, que se suicidou um mês após o último crime, jogando-se no Rio Tâmisa. Há algumas semanas, porém, descobriu-se que na hora do crime ele estava jogando bridge com amigos.

O pânico que se disseminou entre a população chegou até mesmo ao Palácio de Buckingham- impaciente, a rainha Vitória disparou um telegrama com um puxão de orelhas na Scotland Yard: "Nossos detetives devem se aprimorar mais", disse a soberana. "Atualmente eles não estão conseguindo cumprir suas obrigações." Pressionada, a polícia chegou a colocar agentes disfarçados de mulher para servirem de isca ao inatingível Jack, mas com isso só conseguiu tornar ainda mais evidente sua própria inépcia. À falta de novas revelações, o caso parece fadado a permanecer misterioso ainda por muito tempo, num impasse ao qual não falta uma dose de ironia. Afinal, o país cuja ficção produziu Sherlock Holmes, o mais brilhante detetive da literatura policial, mostra-se incapaz de desvendar os crimes ocorridos a poucos quilômetros do gabinete onde Conan Doyle concebeu seu personagem genial".

 

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