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Gente
VEJA, 20 de novembro de 1889
A última sessão de teatro
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| Sarah, "A Divina": no
palco, a agonia do ex-marido |
Depois de morrer em cena milhares de vezes no papel de Marguerite
Gautier, a atriz Sarah Bernhardt, 45 anos, a maior musa do
teatro francês, deixou estarrecida a platéia parisiense
com uma nova e absolutamente insólita montagem de A Dama
das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. Corno bom dramalhão,
a peça termina com a morte da protagonista, vítima
de tuberculose e desilusões amorosas. Mas a verdadeira tragédia,
dessa vez, tinha lugar ali mesmo, na pele do ator principal: o ex-marido
de Sarah, Jacques Damala, reduzido, aos 34 anos, a um farrapo humano
por obra do vício da morfina. Pálido, esquelético,
olheiras profundas e voz trêmula, pode-se dizer que ele agonizou
diante do público durante as seis semanas em que a peça
ficou em cartaz, em maio e junho deste ano. A atriz. como de costume,
teve um desempenho magnífico, fazendo jus à fama mundial
e ao apelido de "A Divina". Quanto a Damala, foi em cena "uma
sombra de si mesmo", na definição de um crítico.
A intenção de Sarah era proporcionar uma derradeira
alegria ao playboy grego e ator fracassado que, depois de se separar
dela, mergulhou cada vez mais fundo no labirinto das drogas. Foi
encontrado em março, mais morto do que vivo, num quarto de
pensão. Sarah cuidou do ex-marido com carinho e, ao constatar
uma leve recuperação, teve a idéia de compartilhar
com ele um pouco de sua glória. O gesto, embora generoso,
resultou num verdadeiro show de morbidez: nas últimas apresentações,
a platéia deixava de prestar atenção no enredo
para se perguntar se o espetáculo chegaria ao fim. De tão
fraco, Damala já não conseguia andar, limitando-se
a balbuciar seu texto, numa voz quase inaudível. Agora, os
médicos não lhe dão mais do que alguns dias
de vida.
Uma expressão nova: primeira-dama
Encerrada a era das rainhas, imperatrizes e princesas, o Brasil
terá de se acostumar com um novo personagem feminino: a primeira-dama,
como é chamada nas repúblicas a esposa do presidente.
A inauguração do cargo coube a dona Mariana da
Fonseca, 63 anos, a mulher de Deodoro. Os dois se conheceram
em 1860, quando Deodoro servia como capitão na Província
de Mato Grosso, e não têm filhos. Foi amor à
primeira vista: em poucas semanas, eles se casaram. Quatro anos
depois, dona Marianinha passaria pela mais dura prova de sua vida:
o marido partiu para a Guerra do Paraguai e só voltou a vê-Ia
seis anos depois.
Duelo entre cavalheiros
Horas depois de proclamada a República, o jornalista João
Carlos Pardal Mallet entrou eufórico na redação
do jornal Cidade do Rio e abraçou, com emoção
cívica, o poeta Olavo Bilac. Quem visse a cena jamais
imaginaria que, há menos de dois meses, os dois amigos cruzavam
armas em duelo. O desafio partiu de Pardal Mallet, 25 anos, ofendido
com a saída de Bilac, 24 anos, do jornal A Rua, sob
sua direção. Marcado de início para 19 de setembro,
o combate teve de ser adiado duas vezes porque a polícia,
disposta a fazer cumprir a proibição que tenta pôr
fim à moda dos duelos, vigiava de perto os padrinhos. Finalmente,
no dia 24, ao nascer do dia, Pardal Mallet e Bilac se enfrentaram,
sem testemunhas, espada na mão. Durou apenas quatro segundos
a refrega: logo na primeira estocada, Mallet foi ferido na barriga,
sem gravidade. Era o bastante para que, conforme as regras, a luta
terminasse aí. O difícil, para os dois contedores,
for disfarçar o alívio que sentiram.
Um escritor de muitos amigos
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| Wilde: atenção a rapazes |
Constance: silêncio |
A pena elegante do escritor irlandês Oscar Wilde,
de 35 anos, tem um concorrente cada vez mais forte para sua merecida
fama - o comportamento excêntrico do próprio Wilde.
Seu gosto por amizades íntimas com rapazes vem provocando
comentários maldosos na Europa. Até há poucos
meses, seu companheiro inseparável era o neto do governador-geral
do Canadá, Robert Ross, de 20 anos. Ultimamente, Wilde tem
sido visto com freqüência ao lado de um certo John Gray,
de 23 anos, ex-torneiro mecânico e agora escriturário
do Ministério das Relações Exteriores. Casado
há cinco anos com a deslumbrante Constance Lloyd,
uma feminista e autora de livros infantis que já lhe deu
dois filhos e nada fala sobre suas amizades, Oscar Wilde está
escrevendo seu primeiro romance. Comenta-se a boca pequena que o
livro fará o retrato de um personagem de sobrenome "Gray".
A alternativa do pó branco
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| Freud e Martha: cocaína |
Um médico de 33 anos, Sigmund Freud, está
agitando os meios científicos em Viena com seus tratamentos
pouco convencionais para as doenças nervosas. Insatisfeito
com a terapia tradicional - choques elétricos, banhos quentes
e massagens -. Freud recorre ao hipnotismo para tratar de seus pacientes.
"Existem processos mentais poderosos que permanecem ocultos
à consciência das pessoas", afirma, sem se importar
com os colegas que o acusam de charlatanismo. Esta não é
sua primeira incursão por terrenos inexplorados da medicina:
há alguns anos, o jovem neurologista vem alardeando as virtudes
terapêuticas da cocaína, um pó branco originário
da América do Sul que teria efeitos estimulantes sobre o
organismo. Para provar que a substância é inofensiva,
o próprio Freud a tem ingerido com freqüência,
diluída em água. Durante o noivado com sua atual mulher,
Martha, chegou a enviar de Paris, onde estava estudando, um frasquinho
com o misterioso medicamento, junto com cartas apaixonadas. Seu
entusiasmo era tanto que, numa dessas cartas, Freud prometeu à
noiva que, quando os dois se reencontrassem, ele seria "um homenzão
selvagem com cocaína no corpo". Numa ocasião, no entanto,
o fascínio de Freud pela nova substância teve conseqüências
trágicas. Em 1885, recomendou ao seu amigo íntimo
Ernst von Fleischl-Marxow injeções de cocaína
na veia, a fim de curar a dependência da morfina que destruía
rapidamente sua saúde. O paciente, porém, acabou adquirindo
o vício da cocaína, o que apenas acelerou sua agonia.
Quando indagado sobre as causas da morte do amigo, Freud não
explica.
O ano da gata para o deputado
Para alimentar ainda mais a superstição que o deputado
monarquista e abolicionista Joaquim Nabuco, 40 anos, tem
em relação aos anos terminados em nove, 1889 acabou
trazendo-lhe dois fatos marcantes - a vitória republicana
e, mais importante para ele, seu casamento com Evelina Soares Ribeiro.
Filha do barão de lnohan, Evelina é considerada em
todas as plêiades da cidade uma tremenda gata. Dezesseis anos
mais jovem que Nabuco, ela tem merecido dele uma dedicação
exclusiva.
Filho de, peixe não é peixinho
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| Proust: tempo perdido |
O jovem francês MarceI Proust, de 18 anos, não
dá o menor sinal de que seguirá a brilhante carreira
de seu pai, o médico e higienista Adrien Proust, que instituiu
a prática de isolar regiões para evitar a propagação
de doenças. Recentemente, ele se alistou no Exército,
mas com o intuito de ficar perto dos amigos. Aficionado por livros,
Marcel tem veleidades literárias, mas perde muito tempo em
festas e badalações.
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