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Fortuna
VEJA, 20 de novembro de 1889

Novos magnatas revolucionam a maneira de ganhar dinheiro
Como o mitológico rei Midas, eles possuem o dom de transformar
em ouro tudo o que tocam. Como Thomas Edison, o criador da lâmpada
elétrica, andam o tempo todo à procura de inovações.
Nos Estados Unidos, habitat dessa nova espécie de pioneiros,
seus nomes provocam sempre raiva ou admiração, mas
é raro encontrar alguém que não os tenha na
ponta da língua: Rockefeller, Carnegie, Taylor. São
os inventores que, em lugar de máquinas, criam maneiras de
extrair dessas máquinas tanta riqueza como, tempos atrás,
nem o mais ambicioso dos homens ousaria sonhar.
Movidos pelo prosaico desejo de enriquecer, esses empresários
são a espinha dorsal do atual milagre econômico americano.
Sem Andrew Carnegie, por exemplo, os Estados Unidos jamais teriam
conseguido, neste ano, a proeza de empatar em produção
de aço com a Inglaterra. Nascido em 1835 numa família
pobre, Carnegie fez uma carreira meteórica nas ferrovias
que desbravaram o Oeste e, aos 30 anos, já amealhara 50 000
dólares. Com base nessa pequena fortuna, construiu um império
siderúrgico que tem batido recordes mundiais de produtividade,
graças à grande novidade por ele introduzida: a integração
entre os diversos setores da produção, das jazidas
de ferro aos navios que transportam o aço para o exterior.
Frederick Taylor, 33 anos, tem aplicado idéias parecidas
a fim de aumentar o rendimento médio do trabalhador. Sua
invenção consiste em controlar as atividades de cada
operário, de maneira a praticamente eliminar o desperdício
de tempo. Os sindicatos, como era de prever, têm protestado
com veemência contra esse método, já conhecido
como taylorismo. Mas é inegável que, ao tomar o trabalho
mais racional, Taylor abriu as portas para se produzir mais e, em
conseqüência, baratear os preços.
A mais controvertida das novas estrelas do capitalismo americano
é, sem dúvida, John Davison Rockefeller, o magnata
de 50 anos que controla, de seu escritório em Nova York,
os múltiplos tentáculos da Standard Oil, o gigante
do petróleo. Sua filosofia empresarial pode ser resumida
num exemplo curioso. Ainda no começo da carreira, ao observar
uma linha de montagem em que as latas de óleo estavam sendo
fechadas por uma solda, indagou de um operário: "Quantos
pingos de solda você usa em cada lata?". A resposta foi
quarenta. "Você não se importaria em lacrar com
38 para eu ver como fica?" - prosseguiu o empresário.
Algumas latas gotejaram, mas com 39 pingos de solda todas estavam
perfeitamente lacradas. Rockefeller fez uma economia de 1 000 dólares
por ano - uma mixaria, mas, como gostam de dizer os americanos,
"Vintém poupado, vintém ganho".
A infância difícil de Rockefeller explica muito de
seu comportamento. A mãe, Eliza, aplicava surras diárias
nele e em seus irmãos para "ensiná-Ios".
O pai, William, um vendedor ambulante, costumava gabar-se para um
vizinho: "Para tornar meus filhos espertos, tapeio-os sempre
que posso. Faço negócios com eles e esfolo-os".
Não se pode negar que o pequeno John apreendeu bem a lição.
Adolescente, já se sustentava vendendo perus e emprestando
a juros o lucro obtido. Durante a Guerra Civil, juntou um razoável
pé-de-meia com uma companhia de navegação,
mas logo descobriu que seu negócio era o petróleo
- não os poços, e sim as refinarias, mais lucrativas.
Mergulhou de cabeça, com uma incrível capacidade de
trabalho e, sobretudo, muita astúcia e a disposição
de recorrer a golpes baixos, quando achava necessário. Chegou,
várias vezes, a vender petróleo a preços irrisórios
para levar à falência concorrentes indesejáveis.
Para aplacar a ira de seus opositores, Rockefeller lançou
o hábito de os milionários fazerem doações
para escolas ou obras de caridade. Muitos duvidam da sinceridade
desses atos de filantropia, mas o fato é que a trajetória
dos magnatas de sua geração serve de modelo para um
grande número de jovens. Em Detroit, por exemplo, um talentoso
mecânico chamado Henry Ford, de apenas 26 anos, dedica todo
o seu tempo livre ao projeto de um veículo que, afirma ele,
irá revolucionar a indústria no mundo inteiro.
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