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Falência
VEJA, 20 de novembro de 1889

A Companhia do Canal do Panamá afunda depois de torrar 250 milhões de dólares

"O que o senhor espera encontrar no Panamá? Dinheiro? Depois da fortuna que ganhou com o trabalho de Suez isto não fará diferença. Glória? O senhor já tem glória o suficiente. Eu sei que fazer um canal no Panamá é uma idéia grandiosa, mas muito arriscada também. Foi um milagre as coisas terem dado certo em Suez. O senhor não acha que um milagre na vida de uma pessoa já não é o bastante?" Sentado ao pé da lareira de sua mansão na Avenida Montaigne, em Paris, o engenheiro Ferdinand de Lesseps, que completa 84 anos nesta semana, certamente tem se lembrado da cautelosa advertência de seu filho, Charles, uma década atrás, quando decidiu apostar os últimos anos de sua vida numa mirabolante aventura a 10 000 quilômetros de casa, na remota Província do Panamá, em território colombiano. Naquela época, com aparência jovem e enérgica apesar da idade, Lesseps era aplaudido nas ruas como o herói que comandou as obras do Canal de Suez - um prodígio do esforço humano que, rasgando o deserto egípcio entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, encurtou pela metade as viagens de navio entre a Europa e o Oriente. Agora, ele paga o preço amargo de seu fracasso: não põe o pé na rua desde fevereiro último, quando um tribunal francês decretou a dissolução da Companhia Universal do Canal Interoceânico do Panamá - um nome pomposo para um abismo que tragou 22 000 vidas e 250 milhões de dólares, no maior fiasco empresarial do século.

O sonho de ligar o Atlântico ao Pacífico através de um canal nasceu com o primeiro explorador espanhol a pisar o istmo do Panamá, no século XVI. Em nenhum outro ponto do continente, afinal, a distância entre os dois oceanos é tão curta: apenas 70 quilômetros. Mas a idéia só passou a ser cogitada seriamente depois da descoberta do ouro na Califórnia, em 1849. O governo americano construiu às pressas uma ferrovia entre os portos de Colón e da Cidade do Panamá e mandou expedições para sondar a possibilidade de fazer um canal, mas os obstáculos geográficos eram de desanimar qualquer um.

Foi quando Lesseps entrou em cena, ao proclamar que a França era capaz de construir o Canal do Panamá, numa demonstração da superioridade de seus engenheiros e da grandeza de sua civilização, os franceses, recém-saídos de uma humilhante derrota na Guerra Franco-Prussiana, responderam ao seu apelo com entusiasmo patriótico. Uma companhia foi formada em 1879 e conseguiu do governo de Bogotá a concessão para iniciar as escavações na Província do Panamá. Oitenta mil franceses, homens e mulheres, investiram suas economias no projeto.

Logo, porém, ficou claro que a tarefa era muito mais difícil do que em Suez. Em contraste com o clima seco do deserto, os engenheiros encontraram uma umidade de 98%, com chuvas a maior parte do ano, Os caríssimos equipamentos se cobriam de ferrugem em poucas semanas, enquanto a malária e a febre amarela dizimavam, sem distinção de cor, os técnicos franceses e os trabalhadores negros trazidos do Caribe - pois na Colômbia não havia mão-de-obra disponível. De cada 100 pessoas que desembarcavam, vinte morriam logo nos primeiros dias e, dos sobreviventes, só vinte permaneciam com saúde suficiente para empunhar uma picareta. O pintor francês Paul Gauguin, que durante um mês participou como um trabalhador comum das obras do canal, relatou a terrível experiência numa carta à esposa: "Eu tenho de cavar das 5h30 da manhã às 6 horas da tarde, debaixo de sol e chuva. E, à noite, sou devorado por mosquitos".

Mas o maior obstáculo, pior que o clima e as doenças, era a intransponível teimosia de Lesseps. Seu plano original - um canal ao nível da terra, sem comportas - ignorava tanto o caudaloso Rio Chagres, cujas cheias, todos os anos, faziam as obras retrocederem quase à estaca zero, como o fato elementar de que o Pacifico e Atlântico estão em níveis diferente. Embora só aparecesse no Panamá uma vez por ano, sempre na estação seca, Lesseps desprezava as súplicas dos engenheiros por mudanças no projeto, invocando a todo instante suas façanhas em Suez.

Na Europa, o orgulhoso comandante cobria os rombos do orçamento empurrando aos crédulos franceses novos lotes de ações, enquanto subornava donos de jornais para trombetear que a obra avançava às mil maravilhas. No auge da popularidade, Lesseps aproveitou para se eleger à Academia Francesa, o mais seleto clube de intelectuais do mundo. Pouco a pouco, no entanto, as certidões de óbito que chegavam pelo correio, somadas aos aterradores relatos da imprensa americana, iam abalando a fé cega no empreendimento. Na Bolsa de Paris, as ações da Companhia do Panamá começaram a despencar. Com sua irresistível oratória, Lesseps lançou, no final do ano passado, uma nova campanha de ações. Mas a quantia arrecadada, embora elevada, já não dava para tapar o buraco descomunal - o canal, àquela altura, já havia custado quase três vezes os 100 milhões de dólares previstos no início. Como derradeiro recurso, Lesseps pediu ao governo francês, em dezembro do ano passado, uma moratória de três meses. A proposta foi recusada pela Câmara dos Deputados, e, em fevereiro, a companhia entrou em liquidação judicial. Ainda não está claro o destino a ser dado ao que restou das obras no Panamá. Não é segredo, porém, que o governo dos Estados Unidos tem interesse em retomar o desafio de uma ligação entre os dois oceanos. Sua maior dúvida é quanto ao lugar mais apropriado: o Panamá colombiano ou a Nicarágua.

 

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