Veja na História
REPÚBLICA
 20 de novembro de 1889
Especial
VEJA, 20 de novembro de 1889

Termina a Exposição Universal que viu nascer a torre concebida por EiffeI, a mais alta estrutura do mundo


O Palácio das Belas Artes: triunfo da arquitetura

Um tiro de canhão disparado do topo da Torre Eiffel, a audaciosa obra de engenharia fincada no coração de Paris, encerrou no final do mês passado o evento que melhor retratou esta década repleta de mudanças e inovações: a Exposição Universal montada este ano na capital francesa. O disparo estrondoso, os aplausos da multidão, as bandas e fanfarras ofereceram uma despedida à altura do sucesso da gigantesca mostra. Durante seis meses, entre a sua inauguração, no dia 5 de maio, e as cerimônias de encerramento, Paris foi uma festa. Uma festa da modernidade. Na verdadeira cidade de sonhos erguida para abrigar Exposição Universal de 1889, nada menos que 28 milhões de pessoas - uma massa humana equivalente a exatamente o dobro de toda a população brasileira - tiveram à sua disposição um extraordinário espetáculo. Celebram-se ali os avanços da técnica, a pujança da indústria, a diversidade das civilizações e - de maneira bem mais discreta - os 100 anos da revolução que derrubou a monarquia francesa em meio a um banho de sangue, em tudo diferente do movimento que culminou com a Proclamação da República na última sexta-feira, no Brasil.

E como se celebrou. Os números são impressionantes em sua sucessão de recordes. O primeiro, e mais notável, é a própria torre concebida pelo engenheiro Gustave Eiffel, 56 anos, com 300 metros de altura, a construção mais alta do mundo. Alem de atrair uma quantidade sem paralelos de visitantes, a mostra, com seus 61 721 expositores distribuídos em 95 hectares, ainda deu lucro. Fruto de um típico casamento à francesa entre o Estado e a iniciativa privada, a exposição custou 41 milhões de francos, mas arrecadou 8 milhões a mais, basicamente à custa de um rigoroso controle dos ingressos. Ao contrário do que acontecera em 1878, por ocasião da última Exposição Universal realizada em Paris, quando a farta distribuição de entradas gratuitas resultou num prejuízo de 31 milhões de francos para os cofres franceses, dessa vez só se cruzaram algumas das 22 portas de acesso à exposição montada no Campo de Marte com ingresso pago.

"Mas valeu a pena pagar. Entre palácios soberbos e monumentos grandiosos, todo construídos especialmente para o evento, as opções deixavam os visitantes literalmente zonzos. Logo na entrada, o Grande Domo, com sua cúpula de 60 metros encimada por uma estátua colossal. Nas laterais, dois palácios, o das Belas Artes e o das Artes Liberais, cada um com 230 metros de comprimento por 80 de largura, também adornados por cúpulas monumentais, recobertas de esmalte nos tons turquesa e topázio. Ao contrário dos ingleses, que inventaram a moda das exposições universais com a Great Exhibition realizada em Londres há quase quatro décadas e dedicada basicamente às conquistas da técnica e da manufatura, os franceses reservaram um lugar privilegiado às artes plásticas. No festival de premiações que acompanhou o evento, até o brasileiro Victor Meirelles foi contemplado.

Mais do que as obras de arte no entanto, foram as próprias construções erguidas para abrigá-Ias que encantaram Paris durante seis meses, com suas vigorosas estruturas de ferro, que abrem vastos espaços e eliminam os elementos inúteis - uma tendência arquitetônica cada vez mais predominante na Europa. "Esta exposição é o triunfo do ferro", resumiu, com mal disfarçado tom de crítica, o pintor Paul Gauguin, a quem foi reservado um pequeno espaço para expor seus quadros exóticos num dos cafés tipicamente parisienses que acalmavam a sede dos visitantes no Palácio das Belas Artes.

Houve muita sede para acalmar. Durante todo o desenrolar da exposição, a imprensa satírica de Paris vingou-se da verdadeira maré humana que invadiu a capital francesa retratando visitantes sem fôlego, arrasados pelo cansaço, desnorteados em meio a tantas maravilhas. "Jules Verne sonhou com a volta ao mundo em 80 dias. Em 1889, ela poderá ser realizada, no Campo de Marte, em seis horas", prometia o boletim oficial da exposição. A promessa foi cumprida. Pavilhões indianos, casas chinesas, pagodes do Sião, templos da Cochinchina - havia de tudo. Numa aldeia senegalesa, reprodução de sua matriz africana, nativas de seios nus cruzaram olhares espantados com parisienses de fraque. Na estufa, montada à entrada do Pavilhão do Brasil, floresciam espécies da Selva Amazônica que tanta curiosidade despertou no exterior. O Pavilhão do México imitava um templo azteca e o do Equador, um templo do sol, guardado por quatro rãs gigantescas e decorado com mobiliário em ouro e cristal.

Em matéria de exotismo, contudo, nada superou a "rua do Cairo", um dos grandes sucessos da exposição. Casas minuciosamente copiadas, lojas, mesquitas e balcões de madeira trabalhada, além de um batalhão de 600 pessoas - entre ourives, padeiros, serralheiros. praticantes da dança do ventre e condutores de asnos - reproduziam em todos os detalhes uma rua da cidade egípcia. A fidelidade foi tanta que, no fim da exposição, a rua do Cairo erguida em Paris estava quase tão suja quanto a original.

"Nunca, jamais, se terá idéia do número incomensurável de refeições consumidas na exposição", avaliou um espantado comentarista francês. "Entre 5 e 7 horas da tarde, era estarrecedor. Parecia que o mundo inteiro ia jantar no Campo de Marte." Terminado o jantar, o público se preparava para o espetáculo mais esperado: o momento em que se acendiam as fontes luminosas espalhadas ao longo dos jardins - uma moda lançada em 1884, em Londres, e que tem tudo para pegar.

"As fontes luminosas lançam para o ar suas centelhas fulgurantes e a água ganha todas as cores do prisma", descreveu a revista La Construction Moderne. A mesma publicação resumiu o espetáculo impressionante oferecido pela Torre Eiffel durante a noite: "A Torre, cujos arcos e plataformas são bordados de cordões luminosos, é incendiada por fogos de artifício que lhe dão um aspecto fantástico e grandioso. O colosso de ferro se ergue na noite envolto em chamas, enquanto no alto brilha o farol de três cores e os refletores elétricos projetam raios azuis sobre Paris".

Os caminhos para chegar a esses prodígios da técnica e do espetáculo, no entanto, foram carregados de obstáculos. Desde que se começou a organizar, há três anos, a exposição que deveria comemorar o centenário da revolução de 1789, os políticos franceses engalfinharam-se numa longa discussão: como celebrar o terror e a carnificina que acompanharam a mudança de regime e ainda por cima sem espantar as monarquias convidadas para a exposição. Depois de muito bate-boca - que provavelmente se repetirá dentro de um século, por ocasião do bicentenário -, as comemorações ficaram limitadas aos "aspectos mais positivos" da revolução. A grande polêmica, contudo, foi travada em tomo da estrutura mais alta do mundo, a torre de 300 metros de altura.

"Nós, escritores, pintores, escultores e arquitetos apaixonados pela beleza até agora intacta de Paris, protestamos com todas as nossas forças contra a construção em pleno coração de nossa capital da inútil e monstruosa Torre Eiffel", dizia o abaixo-assinado publicado no jornal Le Temps em fevereiro de 1887. Entre os signatários, que chamavam a obra de Eiffel de "torre de Babel", nomes conhecidos, como os escritores Guy de Maupassant, Sully Prudhomme e Leconte de Lisle. Surpreso diante da reação tardia dos intelectuais - os trabalhos de fundação já iam adiantados -, Eiffel pediu apenas que se esperasse para ver "a prova esmagadora dos progressos realizados neste século pela arte dos engenheiros". Ele estava certo. A torre, com sua estrutura esguia e elegante, 7 300 toneladas de ferro perfeitamente encaixadas, 2,5 milhões de parafusos e 1 milhão de rebites, conquistou a França e o mundo. Objeto de poemas, discursos, valsas, polcas e sinfonias, ela se transformou rapidamente no símbolo da Exposição Universal de 1889. Se for mantida onde se encontra, coisa que ainda não está decidida, pode vir a ser muito mais o símbolo da própria Paris.

 

O ouro brasileiro em Paris

Quadro de Victor Meirelles é premiado

Há quatro anos, quando escalou o Morro de Santo Antônio, no centro do Rio de Janeiro, para estudar o cenário de sua próxima tela, o pintor catarinense Victor Meirelles tinha uma estranha idéia na cabeça. Para Meirelles, o celebrado autor do quadro A Primeira Missa no Brasil, a paisagem tropical e colorida do Rio, oferece todas as condições de um dia se tomar um dos cartões-postais mais populares do mundo. Hoje, se a idéia ainda não foi totalmente comprovada, Meirelles já deu um grande passo nessa direção. Criticado no Brasil pela falta de imaginação de suas paisagens, acusado de plágio e impedido de participar oficialmente da Exposição Universal de Paris por falta de verbas, o pintor operou um verdadeiro milagre. Seu Panorama do Rio de Janeiro, um gigantesco painel giratório de 36,6 metros de diâmetro por 115 metros de comprimento que oferece uma vista completa da capital brasileira, acabou premiado em Paris com uma medalha de ouro.

O Panorama é, de fato, um belo quadro. Agora que Meirelles fez sucesso na Europa, certamente os brasileiros começarão a reconhecer o seu talento. Acionado à última hora, o jeitinho brasileiro funcionou. Meirelles primeiro exibiu a sua obra, pintada na Bélgica, numa mostra paralela à Exposição Universal. Diante dos comentários da crítica francesa, que atraída pelo fascínio dos chamados países exóticos chegou a definir o Brasil como "a mais bela e civilizada nação da América do Sul", o Comitê Franco-Brasileiro decidiu incluir o Panorama de Meirelles no catálogo do pavilhão nacional. "Minha intenção era justamente fazer o Brasil ficar conhecido na Europa, mostrando não só a beleza sem par de nossa esplêndida baía como o grau de adiantamento já atingido pela capital", comemorou Meirelles.