|
Esporte
VEJA, 20 de novembro de 1889

Num processo de humanização do boxe, o uso de
luvas passa a ser obrigatório
nas competições oficiais
Os entusiastas do boxe-violência tomaram um direto no queixo
dos partidários da humanização desse esporte
e foram à lona nocauteados. O direto: a luta realizada nos
Estados Unidos em julho passado, na qual o americano John Lawrence
Sullivan venceu Jake Kilrain, seu conterrâneo, mantendo assim
o título mundial dos pesos pesados, foi a última a
ser travada sem luvas. Quem viu os 75 rounds do combate, que durou
exatas duas horas e dezesseis minutos, assistiu à derradeira
luta oficial de mãos limpas da história do boxe. A
partir de agora, as luvas de couro e crina - que só recobriam
as mãos dos boxeadores em lutas de exibição
ou quando as duas partes fechavam um contrato de combate com essa
cláusula específica - passarão a fazer parte
da indumentária dos lutadores toda vez que eles atravessarem
as cordas de um ringue para participar de uma disputa válida
para os campeonatos oficiais. A nova regra representa o fim de uma
era, uma autêntica revolução num esporte que
até agora ainda não encontrou adeptos no Brasil, mas
é bastante praticado e admirado nos Estados Unidos e em alguns
países da Europa, sobretudo na Inglaterra.
Mesmo que não representasse um divisor de águas na
história do boxe, a luta entre Sullivan e Kilrain, que teve
como um dos cronometristas o ex-xerife Bat Masterson, nascido no
velho Oeste, entraria para os anais desse esporte apenas pelo que
sucedeu no ringue. Disputado sob um sol impiedoso em Richbourg,
no Mississipi, o combate atraiu centenas de torcedores e contou
com uma ampla cobertura da imprensa. As lutas sem luvas já
estavam proibidas nos Estados Unidos. O combate entre Sullivan e
Kilrain, inicialmente programado para Nova Orleans, só pôde
ser realizado em Richbourg depois que os lutadores pagaram 250 dólares
para o xerife local fazer vista grossa à luta. Desde o início
do combate, Sullivan forçou o ritmo, mas esbarrou sempre
na formidável coragem exibida por Kilrain. Acostumado a,
literalmente, demolir seus adversários - há dois anos,
chegou a quebrar o braço de seu oponente numa luta em Minneapolis
-, o atual campeão do mundo castigou severamente, ao longo
de todo o combate, o jovem Kilrain, cujo maior feito foi nocautear
o campeão inglês Jem Smith em 1887. Jake se defendia
como era possível e até ensaiava contragolpes violentos.
No sétimo assalto, porém, Sullivan o atingiu em cheio,
e a partir daí o rendimento de Kilrain foi caindo progressivamente.
No final do 65º round ele já não agüentava
se levantar sem a ajuda dos segundos. Resistiu, mesmo assim, por
mais dez assaltos, até ir à lona definitivamente.
Mesmo sem exibir requintes de violência, Sullivan deixou claro
que, ao menos por enquanto, não tem adversários.
A revolução das luvas não deve alterar em
nada a trajetória desse incrível pugilista. Dono de
uma técnica refinadíssima, por que Sullivan a perderia
quando estivesse lutando para valer com as mãos enluvadas?
Com seu estilo elegante de atuar no ringue, ele foi capaz de encantar
um escritor como o irlandês Oscar Wilde, que, ao vê-Io
lutar contra Paddy Ryan e conquistar o título mundial, animou-se
a escrever um artigo sobre a luta para um jornal britânico.
Sullivan é um artista do ringue, e não será
um par de luvas que irá tirar-lhe o brilho. O que elas farão
é poupar o campeão e seus adversários. Um cruzado
de direita que acerte em cheio o queixo de algum boxeador significa
danos não só para quem o levou mas também para
quem o aplicou. Se o golpe pode nocautear quem foi atingido por
ele, não é impossível que, da mesma forma,
as juntas dos dedos do batedor fiquem seriamente comprometidas.
É este tipo de coisa que a luva ajuda a evitar.
Guiados pelas propostas do nobre inglês John Sholto Douglas,
o marquês de Queensberry, os partidários da não-violência
marcaram, com o advento das luvas, um ponto decisivo no processo
de humanização do boxe. Ele deixa de ser uma briga
para se tornar mais um esporte. Não faltará quem diga
que, com o uso de luvas, daqui por diante o boxe se tomará
um esporte pouco viril. Disparate. O uso de luvas é apenas
uma etapa do processo de atenuar o desgaste dos lutadores, que têm
ainda um longo caminho a percorrer - da melhoria das condições
do ringue à estipulação de um tempo máximo
para duração de um assalto, hoje condicionado à
queda de um dos pugilistas para ser encerrado. Só desta maneira
o boxe se tornará cada vez mais esporte e menos show de violência.
|