Veja na História Vídeo Áudio
  REPÚBLICA
NESTA EDIÇÃO
SEÇÕES
Carta ao Leitor
  Entrevista: Ruy Barbosa
  Ponto de vista: Visconde de
Ouro Preto
  Em Dia: Friedrich Nietzsche
  Gente
  Humor
  Radar
  Datas
  Cartas
BRASIL
A queda da monarquia
  A vitória republicana
  D. Pedro II destronado
INTERNACIONAL
Inglaterra | O maior império
Rússia | Aliança com a França
Colônias | Aventura na África
EUA | Potência do futuro
GERAL
Religião | O papa operário
Cidades | A seca no Rio
Comportamento | Banho de mar
Sociedade | Baile da Ilha Fiscal
Vida Moderna | Moulin Rouge
Esporte | Boxe agora exige luvas
Esporte | Campeonato de futebol
Especial | A Exposição Universal
Tecnologia | A onda de invenções
Saúde | Epidemia de febre amarela
ECONOMIA E NEGÓCIOS
Memória | Visconde de Mauá
Trabalho | Benefícios na Alemanha
Falência | Companhia do Canal afunda
Fortuna | Os novos magnatas
ARTES E ESPETÁCULOS
Ópera | Lo Schiavo, de Carlos Gomes
Show | Buffalo Bill na Europa
Música | Maxixe, a dança da moda
Retórica | As pérolas de Castro Lopes
Livros | Quincas Borba, de Machado de Assis
Livros | Literatura do fim do século
Teatro | Fritzmac, dos irmãos Azevedo
Fotografia | A técnica de Marc Ferrez
Arte | A fúria de Vincent van Gogh
Índice
Esporte
VEJA, 20 de novembro de 1889

O Preston ganha o primeiro campeonato inglês de futebol e chama a atenção para esse novo jogo

Foi uma campanha impecável: dezoito vitórias e quatro empates em 22 jogos, 74 tentos a favor e quinze contra. A performance deu ao time do Preston North End o título do primeiro campeonato da Liga Inglesa de Futebol, o incipiente esporte do "pé na bola", uma espécie de balé para homens. A equipe somou, no total, 40 pontos, contra 29 do Aston Villa, o vice-campeão, e 28 do Wolverhampton, que ficou com o terceiro lugar. O campeonato será realizado anualmente, reunindo os doze clubes da liga. O Preston, cujos jogadores já ganharam o apelido de "invencíveis", está terminando o ano com uma outra façanha - venceu também a Copa da Associação de Futebol da Inglaterra. Na partida final, o time superou o Wolverhampton por 3 a zero, com tentos assinalados por Ross, Dewhurst e Thomson. A copa também se realiza anualmente e é disputada por clubes do país inteiro. O desempenho do Preston ao longo deste ano representa a maioridade do futebol, um esporte que cada vez mais cai na graça do torcedor inglês, ameaçando a primazia do críquete.

O futebol começou a tomar sua forma definitiva apenas na primeira metade deste século, nas faculdades e universidades da Inglaterra. No início, as regras variavam segundo a escola em que se realizavam os jogos. Só em 1863, com a fundação da Associação de Futebol da Inglaterra, é que o jogo foi regulamentado. Disputado por dois times de onze jogadores cada, num campo retangular cujas dimensões variam entre 90-120 metros e 45-90 metros, o futebol tem por objetivo fazer com que uma bola de couro de mais ou menos 400 gramas entre num espaço de cerca de 7 metros por 2 metros, delimitado por duas traves e um travessão de madeira. No campo existem dois desses retângulo, um para cada extremidade do gramado. Para conseguir que a bola entre nesses retângulo, os jogadores podem usar quaisquer partes de seu corpo, exceto mãos e braços, e preferencialmente os pés - daí a semelhança com o balé. Em frente a cada retângulo fica um jogador, cuja função é impedir que a bola entre. A ele é permitido usar as mãos e os braço, desde que não avance os limites de uma determinada área. Vence o jogo a equipe que consegue fazer com que a bola entre mais vezes dentro dos retângulos, no período de noventa minutos que dura uma partida. Cada vez que isso acontece, a torcida grita goal (pronuncia-se "gol") para comemorar o tento conseguido.

Até agora, ninguém se interessou em introduzir o futebol no Brasil. Há notícias de que um estudante paulista, Charles Miller, da Banister Court School, de Southampton, vem praticando, com êxito, o esporte entre seus colegas. Filho de ingleses, MilIer, de 15 anos, desde os 10 vivendo na Inglaterra, já fala em trazer o futebol para o Brasil. Ele acredita que aqui o esporte poderá se tornar tão popular quanto na Inglaterra. Coisa de adolescente. O Brasil nunca terá um time como o do Preston. Os brasileiros gostam mesmo é de turfe.

Um dos esportes mais populares praticados no Brasil é o turfe - com a particularidade de que o jogo se trava mais na platéia do que nas pistas dos três hipódromos cariocas. Um pouco antes do meio-dia das tardes de domingo, quando começam as corridas, eles se enchem de senhoras e senhoritas elegantes, com seus chapéus floridos, vestidos longos e saltos Luís XV, além de cavalheiros de sobrecasacas inglesas, cartolas e binóculos a tiracolo. Quem chega depois do início das provas atrai mais olhares, por isso ficou chique chegar atrasado. O que vai na pista não importa muito, a não ser para aqueles aficionados que consagraram as apostas nos prados. O que importa mesmo é vigiar a elegância alheia, trocar olhares insinuantes ou simplesmente ter com quem falar. Tudo isso ao som do Danúbio Azul e ao paladar de deliciosos refrescos.

Apesar de sinais exteriores de crescimento, como a elevação generalizada do valor das apostas, a promessa de um novo hipódromo na cidade no próximo ano e o início de um movimento disposto a criar no país uma raça de animais competitivos, o turfe, depois de 64 anos de Brasil, ainda tem mais de atividade social do que de esporte propriamente dito. Nele, a atração continua sendo a platéia, e não os desportistas.



Versão para impressão Texto anterior
Próximo texto
Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados