Entrevista: Rui Barbosa
VEJA, 20
de novembro de 1889

O novo ministro da Fazenda explica por que aderiu à República e anuncia suas metas para a economia
O
movimento da sexta-feira passada, dia 15, que culminou na derrocada
do sistema monárquico. pegou de surpresa o advogado, jornalista
e ex-parlamentar baiano Rui Barbosa de Oliveira. Na manhã
daquele dia, o redator-chefe do Diário de Notícias
encontrava-se em sua casa, no Flamengo, escrevendo mais um de seus
copiosos artigos de estilo inconfundível, quando lhe telefonaram
do jornal para avisar que tropas ocupavam o Campo da Aclamação
e o então ministro da Marinha, almirante José da Costa
Azevedo, barão de Ladário, havia sido ferido. Depois
da tomada do Quartel-General do Exército, Rui esteve na casa
de Benjamin Constant, que havia participado do movimento armado.
A filha de Constant. Bernardina, de 15 anos, conta que o advogado
esperou que seu pai, suado e cansado, tomasse banho. e juntos saíram
rumo à casa do marechal Deodoro da Fonseca. À noite,
ambos retornaram à casa de Benjamin Constant, acompanhados
pelo jornalista carioca Quintino Bocaiúva, e trabalharam
até tarde. No dia seguinte, Rui Barbosa foi nomeado ministro
da Fazenda do governo provisório.
Nomeação estranha mas, paradoxalmente, previsível. Estranha porque o tribuno baiano é o primeiro a admitir que só se tornou republicano poucos dias antes da proclamação. E mais esquisita ainda porque Rui poderia ter sido ministro no regime imperial. integrando o recém-deposto gabinete do visconde de Ouro Preto. Em junho, o conselheiro Manuel Pinto de Sousa Dantas, amigo do novo ministro da Fazenda desde os tempos de juventude na Bahia, escreveu a Rui Barbosa: "Indiquei teu nome, que o Ouro Preto recebeu alegremente e o imperador recebeu de braços abertos. Estás ministro, a não ser que finques pé em não querer". O jornalista fincou pé, e aí se vislumbra por que sua nomeação para o ministério republicano em previsível. Afinal, nos últimos meses, a pena de Rui Barbosa vinha vergastando o governo imperial com uma virulência de republicano exaltado. Tanto que no artigo que escrevia no dia 15, e não terminou, se alinhava sem hesitações junto aos oficiais do Exército e contra o governo a propósito da momentosa "questão militar". Privadamente, ele já avisara ao conselheiro Dantas: "Da República só disto uma linha". Casado há treze anos com Maria Augusta e pai de três meninas, Rui é um trabalhador incansável, um estudioso que conhece vários idiomas e está familiarizado com as mais recentes teorias econômicas e sociais européias. Já foi deputado, mas não é muito bom de voto: participou de seis eleições e perdeu quatro, inclusive nas últimas, em agosto passado. Apesar de baixinho (1,58 metro), Rui Barbosa impressiona quando ocupa uma tribuna -- tem rompantes que lembram uma águia. A seguir, o novo ministro da Fazenda explica por que se tornou republicano e preconiza a contenção de verbas para sanear as finanças da República.
VEJA - Quando, exatamente, o senhor deixou de ser monarquista para
aderir à causa republicana?
Rui Barbosa - Fiz-me republicano nos últimos três ou
quatro dias da monarquia, quando a sua situação me
fazia portador da responsabilidade que eu, pela agitação
na imprensa, havia assumido. Fui republicano para não correr
de uma situação na qual havia tomado parte, pela energia
com que, pelas colunas de um jornal, o Diário de Notícias,
combatia um regime decaído.
VEJA - Essa adesão ao credo republicano às vésperas
da proclamação não pode lhe valer a acusação
de oportunismo?
Rui Barbosa - Não tenho a honra de pertencer aos republicanos
históricos. Sou dos republicanos da hora, mas da hora em
que houve perigo. E no perigo estava eu, com minha vida, com minha
cabeça.
VEJA - Antes de apoiar o movimento republicano, que tipo de monarquista
o senhor era?
Rui Barbosa - Era o que na Inglaterra se chama de "oposição
de Sua Majestade": uma oposição constitucional
que, em matéria de reformas, não ultrapassava a raia
traçada pela sanção do próprio imperador.
Sinceramente monarquista era eu, a esse tempo. Bati-me contra a
monarquia sem deixar de ser monarquista. Não por admitir
preexcelências formais desse ao outro sistema de governo -
visível preconceito apenas digno de fanáticos, ignorantes
ou tolos -, mas porque a monarquia parlamentar, lealmente observada,
encerra em si todas as virtudes preconizadas, sem o grande mal da
República, o seu mal inevitável.
VEJA - O que há de inevitavelmente ruim na forma republicana
de governo?
Rui Barbosa - O mal grandíssimo e irremediável das
instituições republicanas consiste em deixar exposto
à ilimitada concorrência das ambições
menos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar
a ser ocupado, em regra, pela mediocridade.
VEJA - Mas no sistema monárquico também não
há o risco de um medíocre ocupar a chefia do Estado?
Rui Barbosa - É verdade que também na realeza, graças
ao privilégio da hereditariedade, a coroa vai parar às
vezes em cabeças acanhadas, ou taradas. Mas como nela é
o Parlamento quem governa, nessa combinação inteligente
a incapacidade pessoal dos reis se acha neutralizada pela sua impotência
constitucional. Ao passo que nas repúblicas de molde presidencial
os reis temporários, designados a capricho das oligarquias
e máquinas eleitorais, obram sem corretivo, com um poder
irresponsável e, por conseqüência, ilimitado,
imoral, absoluto. Eis aí o que minha consciência de
monarquista parlamentar energicamente repugnava.
VEJA - Que tipo de mudanças na monarquia brasileira o senhor
defendia?
Rui Barbosa - Eu queria republicanizar a monarquia, para conservá-Ia.
Isto é, requeria que ela entrasse nos seus moldes constitucionais,
deixando com sinceridade o governo ao povo e ao Parlamento. Não
há monarquia compatível com a liberdade se não
for essencialmente republicana. Nem é senão se fazendo
cada vez mais republicano que o império britânico,
a mais sólida construção humana de toda a História,
tem assentado sua duração e grandeza. Preguei sempre
aos monarquistas as minhas idéias em nome dos interesses
da monarquia.
VEJA - E como a monarquia reagiu às suas propostas de mudança?
Rui Barbosa - Eis aí como, trabalhando pela salubridade,
pela cura e pela prolongação dos dias do outro regime,
me vi denunciar de seu arquiinimigo, de seu jurado subversor, do
mais entranhado, maligno e perigoso dos republicanos. Não
promovia a República, não a desejava. Se combatia
a monarquia, a culpa não era minha, e sim dela, de sua aversão
a reformas necessárias.
VEJA - O senhor obteve algum ganho sendo monarquista? Mantinha
boas relações pessoais com o ex-imperador D. Pedro
lI, a princesa Isabel e com o conde D'Eu?
Rui Barbosa - Nunca me importei da boa sombra imperial. Da família
reinante nunca me acerquei. Não tive jamais um momento de
contato com a princesa ou seu consorte. Nem uma só vez compareci,
em qualquer tempo, a solenidades, cerimônias ou recepções
no Paço imperial. Ainda quando contemplado nas grandes comissões
parlamentares, que o protocolo da Câmara dos Deputados incumbia
de levar ao imperador certos atos daquela Casa, não acompanhava
os meus colegas.
VEJA - Mas o pai do senhor recebeu uma condecoração
de D. Pedro II, não é verdade?
Rui Barbosa - O doutor João José Barbosa d'Oliveira
não recusou uma condecoração imperial, que
aliás estava fadada a envelhecer-se, desusada, na gaveta.
Mas não trocava essa distinção pela de, quando
falava a Sua Majestade na visita imperial à Bahia, em nome
de uma comissão de operários, lhe ter chamado a atenção
para "os ventos que sopravam dos quatro pontos do céu".
Em tempos de aulicismo, era ato de intrepidez essa nota democrática.
VEJA - Ele era monarquista também?
Rui Barbosa - Monarquista de convicções arraigadas
era meu pai e, juntamente, liberal irredutível que bebera
nas águas do constitucionalismo inglês. Mas nada era
mais antipático ao seu austero temperamento e alta inteligência
que os reacionários do monarquismo atrasado, ou os hipócritas,
sicofantas e cortesãos do imperialismo palaciano.
VEJA - Qual foi a atitude dominante de D. Pedro II durante o seu
longo reinado?
Rui Barbosa - Graças a uma inconcebível flexibilidade
de caráter, D. Pedro II teve artes de ser um soberano absoluto,
sem cessar de acomodar o seu temperamento a todos os molhos que
as várias situações políticas lhe pudessem
ir reclamando. Mercê do seu espírito contemporizador
e da sua prodigiosa dissimulação, conservou, na mão
de ferro enluvada em veludo, um poder sem contrapeso nem limite.
Esse poder pessoal e invasor chegou a destruir, em volta de si,
todos os partidos, todos os homens, todos os caracteres, todas as
vontades, todos os sistemas ou programas políticos, fazendo
reinar acima de tudo e de todos a força superior do monarca.
O resultado desse jugo intolerável foi demonstrar-se praticamente
a influência desastrosa do sistema monárquico. É
assim que, pouco e pouco, o imperador acabou por desesperar a consciência
pública.
VEJA - Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de Ouro Preto,
deposto do cargo de presidente do Conselho de Ministros, acha que
se lhe tivessem deixado implementar reformas, a República
não triunfaria. O senhor concorda?
Rui Barbosa - Ora, foi justamente da oposição às
suas reformas. feita no Diário de Notícias e no Paiz,
que se produziu a revolução, gerada pelas aspirações
federais que o ministério Ouro Preto pretendia esmagar.
VEJA - Dois meses e meio antes da proclamação, houve
eleições, e o Partido Liberal do visconde de Ouro
Preto obteve uma grande vitória: elegeu 130 deputados, contra
sete conservadores e dois republicanos. Isso não significa
que o gabinete dele tinha apoio?
Rui Barbosa - Ouro Preto acabava de eleger uma Câmara unânime,
a poder de uma reação e corrupção inauditas,
num eleitorado altamente censitário. Todos os gabinetes que
presidiram a eleições derramando sangue, espalhando
vexames, liberalizando corrupção, para abafar a resistência
oposicionada, foram dentro em pouco tempo braviamente acometidos
e tragados pela insurreição das próprias criaturas.
O nobre visconde de Ouro Preto procriou uma fera da mesma espécie.
VEJA - Era então ilusória a base política
de que Ouro Preto dispunha?
Rui Barbosa - Câmaras que nascem livremente da opinião
nacional são castelos inexpugnáveis para os governos
que nelas se apóiam. Câmaras criadas artificialmente
pelos ministros, à custa da moeda múltipla dos favores
do poder e das pressões que ele exerce, são conjuntos
de dificuldades e perigos. Nelas, os governos não podem aventurar
o passo, senão apalpando o terreno solapado pelas dissidências
do interesse particular, pelas conspirações do descontentamento,
pelos despeitos da rivalidade, pelos cálculos da ambição
traiçoeira.
VEJA - Que espécie de monarquia o ministério Ouro
Preto criou?
Rui Barbosa - A monarquia cabalista, a monarquia banqueira, a monarquia
dos nababos de bolsa, a monarquia guarda nacional, a monarquia antifederalista,
a monarquia perseguidora das forças militares: eis a criação
monstruosa, inexprimível, do ministério.
VEJA - Se o imperador tiver apoio das realezas européias,
o senhor considera possível a restauração monárquica?
Rui Barbosa - A idéia de restauração é
sebastianismo ou ignorância de especuladores ou tolos. Ouro
Preto é abominado no Brasil. D. Pedro está sendo explorado
pelos antigos diplomatas imperiais. As pretensões à
ingerência das monarquias européias no Brasil são
simplesmente ridículas. A República brasileira terá
por si a aliança ofensiva e defensiva da América inteira.
VEJA - O senhor vem de ser nomeado ministro da Fazenda do governo
republicano. Como está a situação econômica
do Brasil?
Rui Barbosa - A República não encontrou senão
dificuldades, compromissos, urgências imperiosas, contra os
quais não faltam meios para reagir vitoriosamente, mas que
tornam extremamente árduo este período de transição.
VEJA - Qual o tamanho da dívida que a nova República
herdou do velho império?
Rui Barbosa - Avantaja-se a 1 milhão de contos de réis
a soma do débito nacional que nos deixou em herança
a monarquia. Essa enorme adição orça pela receita
do Estado no decurso de quase sete anos, computando-se em 150 000
contos de réis a nossa renda anual. Seria preciso, pois,
superpor sete orçamentos para vencer a altura desses compromissos.
VEJA - Qual receita o senhor oferece para resolver esse problema
da dívida? Enxugar a máquina estatal?
Rui Barbosa - Cortemos energicamente nas despesas. Eliminemos as
repartições inúteis. Estreitemos o âmbito
ao funcionalismo, reduzindo o pessoal e remunerando-lhe melhor o
serviço. Moralizemos a administração, norteando
escrupulosamente o provimento de cargos do Estado pela competência,
pelo merecimento, pela capacidade. Cinjamo-nos, na criação
de serviços novos, à necessidade absoluta. Fujamos
do filhotismo republicano, transformação imoral e
funesta do antigo nepotismo monárquico. Se procedermos assim,
teremos meio caminho vencido para a reforma das nossas finanças,
a reconstituição de nosso crédito e a fecundação
das nossas forças vitais.
VEJA - Qual será o papel da iniciativa privada nesse início
da era republicana?
Rui Barbosa - Nunca necessitamos tanto das grandes empresas. O país
lucra com a formação das grandes fortunas, como com
o derramamento da riqueza pelas classes populares. São dois
modos paralelos do desenvolvimento nacional que convém animar
simultaneamente. Somos uma nação sem proletariado,
socialmente democratizada, onde as mais altas vitórias do
trabalho e as mais cobiçáveis situações
industriais são acessíveis, sem os embaraços
triviais entre os povos antigos, à inteligência, ao
tino, à perseverança, ao caráter.
VEJA - O Estado republicano irá auxiliar a iniciativa privada
na atual fase?
Rui Barbosa - Ao Estado, nessa fase social, cabe sem dúvida
um grande papel de atividade criadora, acudindo a todos os pontos
onde o princípio individual reclame a cooperação
suplementar das forças coletivas. Se nos soubermos inspirar
nestes rudimentos de senso comum, aplicados às necessidades
do momento, não haverá motivo de assustarmo-nos ante
a soma de embaraços que o regime anterior nos legou. Contra
esses embaraços temos, de mais a mais, recursos incomensuravelmente
superiores da fortuna pública e particular do país.
VEJA - A economia do país, portanto, vai bastante mal, mas
não é totalmente catastrófica?
Rui Barbosa - Não somos uma nação em estado
de indigência. Temos sobejos elementos de confiança
quanto ao futuro. Carecemos, porém, de boa administração,
firme e íntegra, circunspecta e audaz.
VEJA - Ao proclamar a República, o presidente Deodoro da
Fonseca estava doente. Uma eventual piora no estado de saúde
do marechal não colocaria o novo regime numa situação
de fragilidade?
Rui Barbosa - A revolução é aceita pelo país
inteiro e não depende da contingência da vida de um
homem, por muito preciosa que seja. No Exército mesmo a revolução
conta com outros chefes de altíssimo prestígio e não
menos dedicados a ela.
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