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Em Dia: Friedrich Nietzsche
VEJA, 20 de novembro de 1889

Com a mente em frangalhos, o pensador alemão Friedrich Nietzsche agoniza numa clínica psiquiátrica de seu país

Giraudon
Giraudon
Nietzche antes da crise (à esq.) e hoje, internado: encontro marcado com a loucura

Na manhã do dia 3 de janeiro passado, o pensador alemão Friedrich Nietzsche, a maior promessa da filosofia européia, saía de sua casa em Turim quando viu o cocheiro espancando seu cavalo. Chocado com a cena de selvageria, o filósofo correu em socorro do animal. Depois de espantar o cocheiro aos berros, Nietzsche passou os braços em redor do pescoço do cavalo e começou a chorar convulsivamente. O choro durou pouco. Acometido por um violento colapso, o filósofo precisou ser carregado para seu quarto, onde permaneceu desacordado por alguns minutos. Quando voltou a si, não era mais o mesmo - pronunciava frases ininteligíveis, cantarolava, martelava o piano e soltava estranhos ruídos. Durante a semana seguinte, Nietzsche não apresentou nenhum sinal de melhora. Foi levado então para a Basiléia, na Suíça, onde se submeteu a vários exames na clínica de nervos da universidade. Diagnóstico: perturbações de origem sifilítica. É num estado lamentável que se encontra hoje o grande filósofo - aquele que anunciou o surgimento do "super-homem" é agora um rebotalho humano.

De saúde precária, que o levou há dez anos a abandonar a Universidade da Basiléia, onde lecionava Filologia, Nietzsche teria adquirido sífilis na juventude, durante uma visita a um bordeI. Transferido da Basiléia para a clínica psiquiátrica da Universidade de Iena, perto de Naumburg, na Alemanha, o filósofo, hoje com 45 anos, realizou ali uma nova bateria de exames com Ottto Binswanger. No final, o médico considerou seu estado irreversível. Nietzsche não lembra nem de longe o pensador polêmico que decretou em 1882 a morte de Deus, no seu desconcertante A Gaia Ciência. Menos ainda o visionário de Assim Falou Zaratustra, de 1885, que prenuncia o aparecimento de um "super-homem" para tomar o lugar do “homem resignado" que o cristianismo consagrou. Um boletim médico recente dá a exata dimensão do estado do filósofo: "Nietzsche pede constantemente ajuda contra terrores noturnos. Nunca sabe onde se encontra. Chama à atenção o fato de que, embora tenha vivido durante muito tempo na Itália, erre com freqüência ao falar o idioma italiano".

É comum vê-Io rabiscar garatujas com lápis vermelho ou azul, quando não está ensaiando cartas incompreensíveis para amigos, príncipes e reis ou chamando o guarda da clínica de Bismarck. Se pudesse ter consciência de que o mundo hoje o dá por louco, é provável que Nietzsche se sentisse lisonjeado. Sua obra dá pistas de um encontro marcado com a loucura. Tanto que em Aurora, de 1881, atribui à insanidade um papel fundamental na história das civilizações. "Para os intelectuais superiores que foram levados a romper convenções e fazer novas leis, não haveria alternativa se não fossem realmente loucos", disse o filósofo. Amigos que o têm visitado na clínica não escondem suas desconfianças de que Nietzsche, por algum estranho mecanismo mental, possa ter "optado" pela loucura. Esta seria uma forma de afirmar, por conta própria, a importância que ele mesmo se atribui. Essas considerações são muito atraentes em elocubrados tratados de filosofia. Na vida real, que é a vivida por Nietzsche hoje, a loucura é uma doença dolorosa, humilhante e sem esperança.

No ano passado, pouco antes de submergir à insanidade, Nietzsche concluiu um novo livro, espécie de memórias filosóficas, ainda inédito, em que sua necessidade de auto-afirmação é patente. Ela já começa no título da obra. Ecce Homo (Eis o Homem). Trata-se de uma alusão à frase com que Pilatos apresentou Cristo aos judeus - o que, automaticamente, atribui uma aura de mártir ao próprio Nietzsche. Os títulos dos capítulos também revelam uma inacreditável auto-estima, ou o prenúncio da doença: "Por que sou tão sábio?" e "Por que escrevo tão bons livros?"

A irmã do filósofo, Elisabeth, viúva de um anti-semita suicida que sonhava construir uma colônia ariana no Paraguai, cogita articular a publicação das obras completas de Nietzsche. Nada de comoção fraternal - ela estaria interessada apenas em colocar a filosofia do irmão a serviço de suas idéias, pois Elisabeth continua tocando o projeto da tal colônia ariana. Se for isso, seu plano está condenado ao fracasso. Foi o anti-semitismo que levou Nietzsche, por exemplo, a romper com seu melhor amigo, o compositor alemão Richard Wagner. Sua filosofia, apontada para o futuro, jamais defendeu posturas tão retrógradas.

 

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