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Comportamento
VEJA, 20 de novembro de 1889

O banho de mar agora é programa de gente sadia

Antes de o sol nascer, uma estranha tribo invade as areias brancas das praias cariocas envergando trajes largos e desengonçados. Entram no mar, banham-se durante longos minutos, exercitam-se e vão-se embora, afugentados pelos primeiros raios de luz da manhã. O hábito de tomar banhos de mar nas praias do Rio de Janeiro está deixando de ser apenas um remédio prescrito pelos médicos para conquistar também o gosto das pessoas sadias. "Os banhos frios ativam a circulação sangüínea, restauram a saúde da pele, e a natação é um dos exercícios mais completos", ensina o médico fluminense Antônio Martins de Azevedo PimenteI, que vê com bons olhos os novos freqüentadores das praias. Se antes tomava-se banho de mar por orientação médica, para se atacar uma doença específica, agora ir à praia está sendo um programa de pessoas que tão-somente desejam se manter em boa forma física. A novidade já está até mudando as feições da orla marítima. Proliferam as casas de banho à beira-mar, onde as pessoas podem trocar de roupas, dentro de cabines, antes de se lançarem ao deleite da água.

Os mergulhos são cercados por um ritual, sobretudo no caso das mulheres. O banho deve ser tomado antes das 7 horas da manhã, porque, depois deste horário, a praia é invadida por todo tipo de gente - de pescadores a praticantes do remo -, que lança olhares curiosos ou insinuantes para as mulheres. Permanecer na praia depois das 7, portanto, não é hábito de uma moça de família. A indumentária também deve obedecer a critérios bastante rígidos. Em nenhuma hipótese, as linhas do corpo feminino devem ser distinguidas sob a roupa. Por isso, as calças das mulheres são largas, de tecido grosso - e a barra alcança o tornozelo. Os blusões, também largos, são ornamentados com golas generosas, no estilo marinheiro, que ajudam a esconder o colo e os seios. A cor da roupa, para evitar traições do tecido, sempre é o azul-escuro. Para os homens, as restrições quase não existem. Cada vez mais eles exibem o torso nu nas praias e as freqüentam em horários variados.

Até pouco tempo atrás, as praias não despertavam o interesse dos brasileiros - tanto que as construções à beira-mar eram edificadas de costas para a orla marítima e de frente para a montanha. Hoje, já existe um elenco de praias no Rio preferido pelos freqüentadores. As praias situadas em bairros residenciais próximos ao centro da cidade, como Botafogo e Flamengo, são as mais disputadas. Já aquelas muito próximas ao cais do porto estão sendo abandonadas, em virtude dos esgotos lançados ali. Um recanto paradisíaco que começa a ser descoberto pelos cariocas é a Praia de Copacabana, quase desabitada e situada em seguida à Praia de Botafogo. "Copacabana é a praia mais adequada para os banhos", diz o médico Pimentel. "A praia possui água e areia límpidas. Quando a urbanização chegar ali, as ruas deverão ser largas, e as casas pouco elevadas, para preservar a luz do sol", diz ele.

A dúvida, no caso, é saber até quando os cariocas vão insistir em freqüentar paragens tão remotas quanto Copacabana. Os mergulhos talvez não passem de um modismo passageiro - e é possível que, no futuro, tomar banho de mar volte a ser um hábito tão enfadonho quanto o era para o imperador Dom João VI. No início do século, quando viveu no Brasil, o rei de Portugal banhava-se nas praias cariocas a conselho médico - mas odiava a água salgada. Para evitar um contato maior com o mar, o imperador entrava n' água carregado por súditos e sentado num banco de madeira, no qual molhava apenas uma parte do corpo.

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