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Comportamento

O banho de mar agora é programa
de gente sadia
Antes de o sol nascer, uma estranha tribo invade as areias brancas
das praias cariocas envergando trajes largos e desengonçados.
Entram no mar, banham-se durante longos minutos, exercitam-se e
vão-se embora, afugentados pelos primeiros raios de luz da
manhã. O hábito de tomar banhos de mar nas praias
do Rio de Janeiro está deixando de ser apenas um remédio
prescrito pelos médicos para conquistar também o gosto
das pessoas sadias. "Os banhos frios ativam a circulação
sangüínea, restauram a saúde da pele, e a natação
é um dos exercícios mais completos", ensina o médico
fluminense Antônio Martins de Azevedo PimenteI, que vê
com bons olhos os novos freqüentadores das praias. Se antes
tomava-se banho de mar por orientação médica,
para se atacar uma doença específica, agora ir à
praia está sendo um programa de pessoas que tão-somente
desejam se manter em boa forma física. A novidade já
está até mudando as feições da orla
marítima. Proliferam as casas de banho à beira-mar,
onde as pessoas podem trocar de roupas, dentro de cabines, antes
de se lançarem ao deleite da água.
Os mergulhos são cercados por um ritual, sobretudo no caso
das mulheres. O banho deve ser tomado antes das 7 horas da manhã,
porque, depois deste horário, a praia é invadida por
todo tipo de gente - de pescadores a praticantes do remo -, que
lança olhares curiosos ou insinuantes para as mulheres. Permanecer
na praia depois das 7, portanto, não é hábito
de uma moça de família. A indumentária também
deve obedecer a critérios bastante rígidos. Em nenhuma
hipótese, as linhas do corpo feminino devem ser distinguidas
sob a roupa. Por isso, as calças das mulheres são
largas, de tecido grosso - e a barra alcança o tornozelo.
Os blusões, também largos, são ornamentados
com golas generosas, no estilo marinheiro, que ajudam a esconder
o colo e os seios. A cor da roupa, para evitar traições
do tecido, sempre é o azul-escuro. Para os homens, as restrições
quase não existem. Cada vez mais eles exibem o torso nu nas
praias e as freqüentam em horários variados.
Até pouco tempo atrás, as praias não despertavam
o interesse dos brasileiros - tanto que as construções
à beira-mar eram edificadas de costas para a orla marítima
e de frente para a montanha. Hoje, já existe um elenco de
praias no Rio preferido pelos freqüentadores. As praias situadas
em bairros residenciais próximos ao centro da cidade, como
Botafogo e Flamengo, são as mais disputadas. Já aquelas
muito próximas ao cais do porto estão sendo abandonadas,
em virtude dos esgotos lançados ali. Um recanto paradisíaco
que começa a ser descoberto pelos cariocas é a Praia
de Copacabana, quase desabitada e situada em seguida à Praia
de Botafogo. "Copacabana é a praia mais adequada para os
banhos", diz o médico Pimentel. "A praia possui água
e areia límpidas. Quando a urbanização chegar
ali, as ruas deverão ser largas, e as casas pouco elevadas,
para preservar a luz do sol", diz ele.
A dúvida, no caso, é saber até quando os cariocas
vão insistir em freqüentar paragens tão remotas
quanto Copacabana. Os mergulhos talvez não passem de um modismo
passageiro - e é possível que, no futuro, tomar banho
de mar volte a ser um hábito tão enfadonho quanto
o era para o imperador Dom João VI. No início do século,
quando viveu no Brasil, o rei de Portugal banhava-se nas praias
cariocas a conselho médico - mas odiava a água salgada.
Para evitar um contato maior com o mar, o imperador entrava n' água
carregado por súditos e sentado num banco de madeira, no
qual molhava apenas uma parte do corpo.
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