Veja na História Vídeo Áudio
  REPÚBLICA
NESTA EDIÇÃO
SEÇÕES
Carta ao Leitor
  Entrevista: Ruy Barbosa
  Ponto de vista: Visconde de
Ouro Preto
  Em Dia: Friedrich Nietzsche
  Gente
  Humor
  Radar
  Datas
  Cartas
BRASIL
A queda da monarquia
  A vitória republicana
  D. Pedro II destronado
INTERNACIONAL
Inglaterra | O maior império
Rússia | Aliança com a França
Colônias | Aventura na África
EUA | Potência do futuro
GERAL
Religião | O papa operário
Cidades | A seca no Rio
Comportamento | Banho de mar
Sociedade | Baile da Ilha Fiscal
Vida Moderna | Moulin Rouge
Esporte | Boxe agora exige luvas
Esporte | Campeonato de futebol
Especial | A Exposição Universal
Tecnologia | A onda de invenções
Saúde | Epidemia de febre amarela
ECONOMIA E NEGÓCIOS
Memória | Visconde de Mauá
Trabalho | Benefícios na Alemanha
Falência | Companhia do Canal afunda
Fortuna | Os novos magnatas
ARTES E ESPETÁCULOS
Ópera | Lo Schiavo, de Carlos Gomes
Show | Buffalo Bill na Europa
Música | Maxixe, a dança da moda
Retórica | As pérolas de Castro Lopes
Livros | Quincas Borba, de Machado de Assis
Livros | Literatura do fim do século
Teatro | Fritzmac, dos irmãos Azevedo
Fotografia | A técnica de Marc Ferrez
Arte | A fúria de Vincent van Gogh
Índice
Colônias
VEJA, 20 de novembro de 1889

Exploradores europeus desafiam perigos para desvendar os mistérios do continente negro

A expedição de Stanley (à esq.) chega ao seu destino na aldeia de Ujiji: "Doutor Livingstone, eu presumo?"

A boa notícia levou oito meses para percorrer, em mãos de estafetas seminus, os I 000 quilômetros de florestas e estepes que separam o Lago Vitória, no coração do continente africano, do enclave britânico em Zanzibar; principal reduto da civilização européia na costa leste da África. Dali, a mensagem foi transmitida imediatamente por telégrafo para o mundo inteiro: Henry Morton Stanley, 45 anos, o mais famoso aventureiro de nossa época, está vivo e concluirá, no início do próximo mês, a mais arriscada de suas expedições por territórios onde jamais o homem branco havia colocado os pés. Junto com ele, regressará apenas a metade dos homens que, há quase três anos, embrenharam-se na selva sob suas ordens. A outra metade ficou pelo caminho, abatida pelas doenças tropicais e pelas setas envenenadas dos nativos. Mas Stanley conseguiu, como das vezes anteriores, cumprir a missão que lhe foi confiada: restabelecer o contato com Emin Pashá, o comandante inglês que passou os últimos sete anos isolado com os remanescentes de seu regimento numa das regiões mais inóspitas do planeta.

A chegada triunfal de Stanley à feitoria britânica de Bagamoyo, prevista para o dia 4 de dezembro, será sua consagração definitiva como o símbolo mais perfeito dessa admirável legião de exploradores que vêm alargando sem cessar as fronteiras do mundo conhecido, numa epopéia só comparável, na História, à saga dos grandes navegadores ibéricos, na era dos descobrimentos, ou à fantástica viagem de Marco Polo ao Oriente. Uns, como Cecil Rhodes, que ao expandir o império britânico pela África Austral lançou também as bases de seu milionário império particular, agem movidos pela insaciável ambição. Outros, a exemplo do cientista David Livingstone, com sua vida inteiramente dedicada a desvendar os mistérios da geografia africana, fazem da curiosidade o seu combustível. O desafio do desconhecido, aliás, tem atraído até mesmo poetas como o francês Arthur Rimbaud, mergulhado atualmente no negócio nada romântico do tráfico de armas na Abissínia - um dos raros países independentes do continente negro sobrevivendo, a duras penas, aos conflitos internos e às investidas das potências européias.

No caso de Stanley, é difícil imaginar vocação mais genuína pela aventura. Em 1859, com apenas 18 anos, ele deixou o Porto de Liverpool, na Inglaterra, como grumete num cargueiro com destino a Nova Orleans, nos Estados Unidos, nação cuja a cidadania acabaria por adotar. Por alguns anos Stanley levou uma viela errante: foi soldado na Guerra Civil americana, marinheiro e, finalmente, repórter do New York Herald. A serviço desse jornal, acompanhou as tropas britânicas em campanha contra o soberano abissínio Teodoro II, conseguindo informar aos leitores da tomada da cidade de Magdala pelos ingleses antes mesmo que a notícia chegasse a Londres. Stanley estava em Madri quando o dono do jornal, James Gordon Bennett Jr., o enviou para a missão que lhe renderia a celebridade mundial: descobrir o paradeiro de Livingstone.

Nunca mais se tinha ouvido falar de Livingstone desde sua partida para as profundezas da África, três anos antes, à procura das nascentes do Nilo. Saindo de Zanzibar em março de 1871, com a bandeira dos Estados Unidos, Stanley não recuou diante de nenhum obstáculo. Travou escaramuças com os nativos e chegou a enforcar dois integrantes de seu grupo que se recusavam a seguir adiante. Em novembro, por fim, localizou o cientista na aldeia de Ujiji, já com a saúde devastada pela malária, saudando-o com as famosas palavras: "Doutor Livingstone, eu presumo?"

Estimulado pelo êxito, Stanley empreenderia, em novembro de 1874, uma expedição ainda mais audaciosa. Com o patrocínio de dois jornais - o Daily Telegraph, de Londres, e, mais uma vez, o New York Herald -, se propôs a decifrar os mistérios da região do Lago Tanganica, na época uma área ainda virgem aos exploradores brancos. Ao lado de três outros aventureiros europeus, o incansável bandeirante penetrou na mata com uma caravana de 700 negros. Numa primeira etapa, visitou o rei negro de Buganda, a quem convenceu a permitir o ingresso de missionários cristãos e a aceitar a tutela da coroa britânica. Depois, circunavegou durante 57 dias o Lago Vitória a bordo do navio Lady Alice, que fez transportar, desmontado em peças, nos ombros dos nativos. Posteriormente, Stanley seria alvo de críticas na Inglaterra pela brutalidade com que tratou os nativos que se mostraram hostis à sua passagem. Equipado com um poderoso arsenal que incluía até mesmo canhões, Stanley arrasou, sem piedade, aldeias inteiras. O troco não demoraria: enquanto explorava as margens do Lago Tanganica com uma parte da expedição, seus companheiros que se encontravam acampados se tornariam vítimas de um massacre.

Mas Stanley não desistiu. Acompanhando o curso do Rio Lualaba e depois o do Congo, os sobreviventes acabariam por cruzar, pela primeira vez, o continente africano de costa a costa – a jornada de Stanley só terminou, assim, em agosto de 1877, quase três anos após o seu início, ao deparar com o Oceano Atlântico. No caminho, o aventureiro esbarrou, entre outras descobertas, com um bonito lago de águas cristalinas, que batizou, sem sombra de modéstia, como a "Piscina de Stanley". A um majestoso conjunto de 32 cataratas os expedicionários deram o nome de as "Cachoeiras de Livingstone", em homenagem ao explorador falecido em 1873.

Quando foi chamado pelo governo britânico a resgatar Emin Pashá, em 1886, Stanley estava no Congo, a serviço do rei Leopoldo II, da Bélgica, que assinalava assim sua entrada, com atraso, na corrida colonial liderada pela Grã Bretanha e pela França. O explorador aceitou a tarefa sem hesitar. O general inglês - cujo verdadeiro nome é Edward Schnitzer - estava desde 1882 confinado nas redondezas do Lago Vitória, depois que uma rebelião muçulmana havia colocado os britânicos para correr de sua colônia no Egito Equatorial. O general Gordon, que não quis se render, foi morto em combate, em Cartum. Partindo do Rio Congo, em janeiro de 1887, Stanley alcançou Emin Pashá em abril do ano passado. A nova proeza é, mais uma vez, fruto da vontade férrea que valeu a Stanley o apelido, dado pelos seus guias nativos, de "Bula Matari" - ou "o quebrador de rochas". Mas não se pode negar que o valente aventureiro tem tido, até agora, uma dose nada desprezível de sorte. Não é por mera coincidência que, na mesma semana em que chega até nós a notícia do desfecho glorioso da última expedição de Stanley, o mundo toma conhecimento do final trágico de dois outros grandes exploradores europeus. Na Somália, os nativos massacraram uma caravana comandada pelo historiador alemão Carl Peters, que vinha tentando expandir os minguados domínios coloniais do Kaiser Guilherme II. E, nas longínquas Ilhas Salomão, na Oceania, o arqueólogo inglês Nelson e três marinheiros que o acompanhavam foram atacados, de surpresa, por uma tribo de canibais, que depois de matarem os forasteiros devoraram seus corpos.

Versão para impressão Texto anterior
Próximo texto
Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados