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Colônias
VEJA, 20 de novembro de 1889

Exploradores europeus desafiam
perigos para desvendar os mistérios do continente negro
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| A expedição de Stanley
(à esq.) chega ao seu destino na aldeia de Ujiji:
"Doutor Livingstone, eu presumo?" |
A boa notícia levou oito meses para percorrer, em mãos
de estafetas seminus, os I 000 quilômetros de florestas e
estepes que separam o Lago Vitória, no coração
do continente africano, do enclave britânico em Zanzibar;
principal reduto da civilização européia na
costa leste da África. Dali, a mensagem foi transmitida imediatamente
por telégrafo para o mundo inteiro: Henry Morton Stanley,
45 anos, o mais famoso aventureiro de nossa época, está
vivo e concluirá, no início do próximo mês,
a mais arriscada de suas expedições por territórios
onde jamais o homem branco havia colocado os pés. Junto com
ele, regressará apenas a metade dos homens que, há
quase três anos, embrenharam-se na selva sob suas ordens.
A outra metade ficou pelo caminho, abatida pelas doenças
tropicais e pelas setas envenenadas dos nativos. Mas Stanley conseguiu,
como das vezes anteriores, cumprir a missão que lhe foi confiada:
restabelecer o contato com Emin Pashá, o comandante inglês
que passou os últimos sete anos isolado com os remanescentes
de seu regimento numa das regiões mais inóspitas do
planeta.
A chegada triunfal de Stanley à feitoria britânica
de Bagamoyo, prevista para o dia 4 de dezembro, será sua
consagração definitiva como o símbolo mais
perfeito dessa admirável legião de exploradores que
vêm alargando sem cessar as fronteiras do mundo conhecido,
numa epopéia só comparável, na História,
à saga dos grandes navegadores ibéricos, na era dos
descobrimentos, ou à fantástica viagem de Marco Polo
ao Oriente. Uns, como Cecil Rhodes, que ao expandir o império
britânico pela África Austral lançou também
as bases de seu milionário império particular, agem
movidos pela insaciável ambição. Outros, a
exemplo do cientista David Livingstone, com sua vida inteiramente
dedicada a desvendar os mistérios da geografia africana,
fazem da curiosidade o seu combustível. O desafio do desconhecido,
aliás, tem atraído até mesmo poetas como o
francês Arthur Rimbaud, mergulhado atualmente no negócio
nada romântico do tráfico de armas na Abissínia
- um dos raros países independentes do continente negro sobrevivendo,
a duras penas, aos conflitos internos e às investidas das
potências européias.
No caso de Stanley, é difícil imaginar vocação
mais genuína pela aventura. Em 1859, com apenas 18 anos,
ele deixou o Porto de Liverpool, na Inglaterra, como grumete num
cargueiro com destino a Nova Orleans, nos Estados Unidos, nação
cuja a cidadania acabaria por adotar. Por alguns anos Stanley levou
uma viela errante: foi soldado na Guerra Civil americana, marinheiro
e, finalmente, repórter do New York Herald. A serviço
desse jornal, acompanhou as tropas britânicas em campanha
contra o soberano abissínio Teodoro II, conseguindo informar
aos leitores da tomada da cidade de Magdala pelos ingleses antes
mesmo que a notícia chegasse a Londres. Stanley estava em
Madri quando o dono do jornal, James Gordon Bennett Jr., o enviou
para a missão que lhe renderia a celebridade mundial: descobrir
o paradeiro de Livingstone.
Nunca mais se tinha ouvido falar de Livingstone desde sua partida
para as profundezas da África, três anos antes, à
procura das nascentes do Nilo. Saindo de Zanzibar em março
de 1871, com a bandeira dos Estados Unidos, Stanley não recuou
diante de nenhum obstáculo. Travou escaramuças com
os nativos e chegou a enforcar dois integrantes de seu grupo que
se recusavam a seguir adiante. Em novembro, por fim, localizou o
cientista na aldeia de Ujiji, já com a saúde devastada
pela malária, saudando-o com as famosas palavras: "Doutor
Livingstone, eu presumo?"
Estimulado pelo êxito, Stanley empreenderia, em novembro
de 1874, uma expedição ainda mais audaciosa. Com o
patrocínio de dois jornais - o Daily Telegraph, de
Londres, e, mais uma vez, o New York Herald -, se propôs
a decifrar os mistérios da região do Lago Tanganica,
na época uma área ainda virgem aos exploradores brancos.
Ao lado de três outros aventureiros europeus, o incansável
bandeirante penetrou na mata com uma caravana de 700 negros. Numa
primeira etapa, visitou o rei negro de Buganda, a quem convenceu
a permitir o ingresso de missionários cristãos e a
aceitar a tutela da coroa britânica. Depois, circunavegou
durante 57 dias o Lago Vitória a bordo do navio Lady Alice,
que fez transportar, desmontado em peças, nos ombros dos
nativos. Posteriormente, Stanley seria alvo de críticas na
Inglaterra pela brutalidade com que tratou os nativos que se mostraram
hostis à sua passagem. Equipado com um poderoso arsenal que
incluía até mesmo canhões, Stanley arrasou,
sem piedade, aldeias inteiras. O troco não demoraria: enquanto
explorava as margens do Lago Tanganica com uma parte da expedição,
seus companheiros que se encontravam acampados se tornariam vítimas
de um massacre.
Mas Stanley não desistiu. Acompanhando o curso do Rio Lualaba
e depois o do Congo, os sobreviventes acabariam por cruzar, pela
primeira vez, o continente africano de costa a costa a jornada
de Stanley só terminou, assim, em agosto de 1877, quase três
anos após o seu início, ao deparar com o Oceano Atlântico.
No caminho, o aventureiro esbarrou, entre outras descobertas, com
um bonito lago de águas cristalinas, que batizou, sem sombra
de modéstia, como a "Piscina de Stanley". A um majestoso
conjunto de 32 cataratas os expedicionários deram o nome
de as "Cachoeiras de Livingstone", em homenagem ao explorador falecido
em 1873.
Quando foi chamado pelo governo britânico a resgatar Emin
Pashá, em 1886, Stanley estava no Congo, a serviço
do rei Leopoldo II, da Bélgica, que assinalava assim sua
entrada, com atraso, na corrida colonial liderada pela Grã
Bretanha e pela França. O explorador aceitou a tarefa sem
hesitar. O general inglês - cujo verdadeiro nome é
Edward Schnitzer - estava desde 1882 confinado nas redondezas do
Lago Vitória, depois que uma rebelião muçulmana
havia colocado os britânicos para correr de sua colônia
no Egito Equatorial. O general Gordon, que não quis se render,
foi morto em combate, em Cartum. Partindo do Rio Congo, em janeiro
de 1887, Stanley alcançou Emin Pashá em abril do ano
passado. A nova proeza é, mais uma vez, fruto da vontade
férrea que valeu a Stanley o apelido, dado pelos seus guias
nativos, de "Bula Matari" - ou "o quebrador de rochas". Mas não
se pode negar que o valente aventureiro tem tido, até agora,
uma dose nada desprezível de sorte. Não é por
mera coincidência que, na mesma semana em que chega até
nós a notícia do desfecho glorioso da última
expedição de Stanley, o mundo toma conhecimento do
final trágico de dois outros grandes exploradores europeus.
Na Somália, os nativos massacraram uma caravana comandada
pelo historiador alemão Carl Peters, que vinha tentando expandir
os minguados domínios coloniais do Kaiser Guilherme II. E,
nas longínquas Ilhas Salomão, na Oceania, o arqueólogo
inglês Nelson e três marinheiros que o acompanhavam
foram atacados, de surpresa, por uma tribo de canibais, que depois
de matarem os forasteiros devoraram seus corpos.
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