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Cidades
VEJA, 20 de novembro de 1889

Numa missão impossível, o
engenheiro Paulo de Frontin derrota a seca no Rio em tempo recorde
Angelo Agostini/reprodução
Lula Rodrigues
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| O aqueduto do Tinguá, na
charge de Agostini: Frontin dá um banho no governo |
Histórias de jovens corajosos que realizam tarefas tidas
como impossíveis aparecem com freqüência nos contos
de fadas, mas são muito raras na vida real. O Rio de Janeiro
assistiu, com a respiração suspensa, a um episódio
desse tipo em março último, na forma de uma epopéia
que durou uma semana e teve como protagonista um engenheiro de 29
anos, Paulo de Frontin. Sua proeza: construir, em prazo recorde,
um aqueduto com capacidade para transportar, ao longo de 4 000 quilômetros,
16 milhões de litros diários - e pôr fim, dessa
maneira, ao tormento da falta d'água na capital do país.
O desafio nasceu da pena de um agitador nato da oposição,
Rui Barbosa, que anunciou nas páginas do Diário
de Notícias, sob sua batuta, um plano para resolver o
problema do abastecimento. Segundo o jornalista, o problema só
não era resolvido "porque o governo não queria".
O Rio, metrópole em rápido crescimento, sofria os
efeitos da prolongada estiagem, agravada pelo tórrido verão
carioca. Alguns, mais afortunados, ainda encontravam alívio
para o calor nos banhos de mar, mas nos bairros pobres já
pipocavam epidemias causadas pelas más condições
de higiene. Num editorial comentadíssimo, com a data de 10
de março, Rui Barbosa afirmou no Diário de Notícias
que o ministro responsável pela questão, Rodrigo Silva,
da Agricultura, poderia duplicar o suprimento de água da
cidade em apenas seis dias. Para isso, explicou, bastaria canalizar
a água das cachoeiras do Rio Tinguá, na Serra do Comércio,
até o reservatório municipal mais próximo:
"Se o povo encher as ruas e disser ao ministro que quer e há
de obter a água, tê-Ia-á", instigou o jornalista.
Embora estivesse respaldado por pareceres técnicos, nem
mesmo Rui imaginava que sua iniciativa fosse desembocar na resolução
do problema - o esperto oposicionista visava, simplesmente, deixar
o governo numa situação embaraçosa. O fato
é que, confrontado com o desafio, Rodrigo Silva reagiu com
a má vontade típica dos burocratas. "Indiquem os meios
e o profissional capaz de realizar esse milagre", rebateu o ministro,
devolvendo a batata quente à oposição. Num
primeiro momento, os que tachavam a empreitada de inviável
pareciam levar a melhor. Como alternativa à proposta de Rui,
uma firma de engenharia, a Buarque & Maia, prontificou-se a
ir buscar a água no distante Rio São Pedro - uma tarefa
que demandaria no mínimo quarenta dias -, mas o governo recusou,
alegando que sairia caro demais. De sua trincheira no Diário
de Notícias, Rui fustigava as autoridades: "Havemos de
apurar este assunto fio a fio, sem tréguas, enquanto o governo
não se resolver a encará-Io com boa-fé, ou
a peste, agradecida, não lhe fizer o serviço de levar-nos".
Foi quando, para surpresa geral, entrou em cena Paulo de Frontin,
um professor da Escola Politécnica do Rio totalmente alheio
à pendência política. No dia 16 de março,
ele anunciou que topava a parada. "Assumo a responsabilidade
de tal trabalho", escreveu. "Se esta proposta for aceita amanhã,
o suprimento de água jorrará na cidade no próximo
dia 23". Frontin não teve tempo sequer de discutir os
termos leoninos impostos no contrato que assinou com o governo naquele
mesmo dia. Se a obra não ficasse pronta no prazo combinado,
a multa seria de 10 contos de réis por dia de atraso, até
três dias de prorrogação. A partir daí,
o engenheiro nada receberia pelos serviços feitos e ainda
perderia o direito de acabar as obras.
O prazo começou a correr no dia 18 de março. Só
no dia seguinte Frontin e dois amigos que o auxiliaram - os engenheiros
Carlos Sampaio e Júlio Paranaguá - conseguiram dar
início ao recrutamento da mão-de-obra. Até
a natureza parecia conspirar contra ele: quando as primeiras levas
de trabalhadores se dirigiam ao local da obra, um violento temporal
desabou sobre o Rio de Janeiro. Na prática, os trabalhos
começaram com dois dias de atraso, debaixo de chuva torrencial.
Àquela altura, o assunto havia tomado conta da cidade. Os
cariocas opinavam nos cafés, formavam rodinhas na Rua do
Ouvidor e nos corredores das repartições. Faziam-se
apostas. Os estudantes, os republicanos e, sobretudo, o povo angustiado,
todos acreditavam na água em seis dias. Eram muitos os que
viam o desafio como uma quixotada. Os próprios engenheiros,
colegas de Frontin, duvidavam que fosse possível levar a
obra a cabo em tão pouco tempo. "Era como uma prova medieval
de decisão pelo juízo de Deus", comentou um jornalista.
Enquanto isso, o trabalho era executado em condições
dificílimas. Os pesados tubos de ferro eram transportados
em carroças até a Estação da Ponta do
Caju, na Estrada de Ferro Rio do Ouro, daí seguindo, em vagões,
até a Estação do Tinguá. Cada um deles,
então carregados, morro acima, nas costas de oito homens,
por picadas íngremes transformadas em lama pelas chuvas.
Os contratempos se sucediam. O Telégrafo Nacional não
entrega os despachos para Friburgo e Petrópolis solicitando
pessoas com urgência. Vagões cheios de trabalhadores
são deixados na estação, na Ponta do Caju.
A locomotiva parte sem aviso e tem de voltar para apanhá-los.
Mas Frontin não desistia. "Foi em frente com uma firmeza
férrea de ianque" , descreve o escritor Raul Pompéia,
autor de O Ateneu, "até que, na última hora
do último dia do prazo, ferviam em um tumulto, na Represa
do Barrelão, as águas todas recolhidas na Serra do
Comércio, sob a chama vermelha dos archotes da última
turma de operários de volta das picadas". Os descrentes estavam
derrotados. Rui Barbosa, que com sua habilidade transformara uma
questão técnica numa grande causa política,
exultava. Frontin, o herói da cidade, foi carregado em triunfo
pelas ruas do Rio, na maior festa desde a Abolição
da Escravatura, no ano passado. Na medalha que recebeu, pediu para
cunhar a seguinte frase: "Confiança na ciência
e no trabalho nacional".
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