|
Carta ao leitor
VEJA, 20 de novembro de 1889

Combinando jornalismo e História, VEJA conta como foi a queda da Monarquia em 15 de novembro
A edição especial VEJA República visa reconstruir um número normal da revista - caso ela já existisse em novembro de 1889. A revista combina nessa edição os instrumentos do jornalismo e da historiografia para apresentar as notícias que há um século alteraram a vida política do Brasil. Não se buscou apenas contar como foi derrubada a Monarquia e estabelecido o regime republicano naquele longínquo 15 de novembro, mas também dar um panorama fidedigno de como era o país, seus costumes, economia, arte, esporte, sua vida cotidiana. As reportagens se estendem para além das fronteiras do Brasil, flagrando diversos assuntos de outros países. A seleção e edição das notícias daquela época seguiu critérios semelhantes aos usados hoje por VEJA. As seções habituais foram mantidas, excetuando-se as anacrônicas, como Televisão, Vídeo, Cinema e Computador. Como se trata de uma revista a ser consultada com maior vagar pelo leitor, ela é publicada antes dos festejos do centenário da Proclamação.
Para ler a edição especial VEJA República é preciso levar em conta alguns critérios:
• O 15 de novembro de 1889 caiu numa sexta-feira, fazendo com que a revista seja publicada com a data da quarta-feira seguinte, dia 20. Deve-se imaginar que a revista só foi impressa no dia 19, terça-feira, e não no sábado dia 16, como ocorreria hoje. Todos os fatos que ocorrem depois do dia 20 de novembro de 1889, portanto, ainda não aconteceram - pertencem ao futuro, às especulações.
• A edição enfoca principalmente os fatos da semana, mas não só eles. Para dar um quadro do período, publicam-se notícias sobre fatos acontecidos ao longo do ano.
• Para reconstituir os acontecimentos do dia 15 deu-se preferência às fontes de primeira mão: jornais, revistas, cartas e diários dos participantes. Usaram-se, também, escritos que foram divulgados muito depois, mas só nos casos em que se referiam diretamente aos fatos da Proclamação. A entrevista com Rui Barbosa apresentada nas Páginas Amarelas, por exemplo, foi editada com alguns trechos de artigos que ele escreveu bem depois do dia 15, mas sempre se referindo a ele. Da mesma forma, o texto da seção Ponto de Vista, em que o Visconde de Ouro Preto oferece a versão dos vencidos, foi montado a partir dos artigos que o último presidente do Conselho de Ministros do Império escreveu a caminho do exílio.
• A maioria das ilustrações e fotografias foi feita nos meses em tomo de novembro de 1889. Só quando não há iconografia alguma de um episódio-chave se recorre a ilustrações produzidas posteriormente.
• As reportagens são escritas no português de 1989 e não no de 100 anos atrás, demasiado estranho para os leitores de hoje. As declarações entre aspas são literais.
• A moeda em 1889 era o mil-réis, e 1 conto de réis era igual a 1 000 mil-réis. Se a moeda não tivesse mudado de nome ao longo desses 100 anos (cruzeiro em 1942. cruzeiro novo em 1942, cruzeiro novamente em 1970, cruzado em 1986 e cruzado novo em 1989), 1 cruzado novo equivaleria hoje a 1 bilhão de mil-réis, ou 1 milhão de contos de reis. Tomando-se as médias anuais de inflação e preços ano a ano desde 1889 e a do primeiro semestre de 1989, chega-se a um cálculo aproximado: 1 mil-réis de novembro de 1889 equivale a 21 cruzados novos de hoje.
A edição especial VEJA República começou a ser preparada em janeiro passado, quando Susana Camargo e lsney Savoy, do Departamento de Documentação da Editora Abril, o Dedoc, iniciaram o levantamento da bibliografia básica. Findo o trabalho, haviam sido pesquisados onze coleções de jornais e quatro de revistas de 1889, 500 livro Dedoc e 81 emprestados de outras bibliotecas. Para a pesquisa iconográfica, foram manuseadas mais de 5.000 fotos e ilustrações. Cerca de 205 quadros e ilustrações da imprensa da época foram especialmente fotografados em museus, arquivos e bibliotecas. Os escritórios da Abril Press em Nova York e Paris enviaram outras 200 ilustrações.
Nessas pesquisa, contou-se com a boa-vontade das instituições e pesquisadores listados no expediente, sempre dispostos a esclarecer dúvidas e a fornecer informações. Para que a edição especial de VEJA se materializasse, foi fundamental a colaboração, o entusiasmo e o trabalho minucioso de três excelentes pesquisadores brasileiros: a crítica e historiadora de Literatura Flora Süsseekind, professora da Uni-Rio e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, o cientista político José Murilo de Carvalho, professor do luperj e pesquisador da Casa de Rui Barbosa, e o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor da Unicamp e pesquisador do Cebrap.
Ao aproximar jornalismo e História, VEJA voltou 100 anos no tempo para tomar presente um acontecimento decisivo do passado brasileiro. Transformar o passado em notícias e reportagens coloca historiadores e jornalistas diante de dificuldades semelhantes: destrinchar da massa de fatos o dado decisivo, separar a versão edulcorada da verdade áspera. Depois de derrubar o gabinete ministerial no Quartel-General do Exército, Deodoro da Fonseca percorreu o centro do Rio de Janeiro acompanhado pelas tropas amotinadas. Passou pela Rua do Ouvidor, onde a maioria dos jornais cariocas de então tinha sede, como O Paiz de Quintino Bocaiúva e o Diário de Notícias de Rui Barbosa. Muitos dos republicanos eram jornalistas, e vários dos participantes dos episódios do dia 15 de novembro deixaram relatos sobre os fatos. Nem por isso existe hoje uma verdade estabelecida acerca da Proclamação da República.
Há versões conflitantes, hiatos inexplicáveis e, dependendo de quem relata, ênfases enganosas na atuação de determinados personagens. Permanece, no entanto, o essencial da história: naquele dia 15, o Brasil acordou monárquico e foi dormir republicano. Permanecem ainda hoje, igualmente, muitos dos problemas, a respeito dos quais monarquistas e republicanos divergiram - o da dívida do país, o do papel dos militares, o da democracia e o da cidadania dos brasileiros.
|