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Arte
VEJA, 20 de novembro de 1889

Em Arles, o pintor
holandês Vincent van Gogh corta a própria orelha e agride Paul Gauguin
Artephot/Malborough  |
| Auto–retrato com a Orelha Cortada: motivo de polêmica |
Os alienistas, se consultados, poderiam prever a tragédia.
Não pode fazer bem aos loucos muito sol na cabeça. Nem o uso desbragado
de absinto e fumo. O pintor holandês Vincent van Gogh, 36 anos, após
ver malogrado seu projeto visionário de criar uma comunidade de artistas
na ensolarada cidade francesa de Arles, acabou ameaçando com uma faca um
amigo, o artista francês Paul Gauguin, e, num acesso de fúria, cortou
a própria orelha direita, no início do ano. Pouco depois, Van Gogh
internou–se no hospício do vilarejo de Saint–Rémy, no interior da
França, e lá se encontra até hoje. A crise rendeu ao infeliz
holandês dois Auto–retratos com a Orelha Cortada e uma polêmica
em Paris: trata–se apenas de um louco com mania de artista ou um artista com eventuais
crises de loucura? A resposta está nas centenas de telas de Vincent que
seu irmão Theodorus conserva no sótão da galeria Goupil,
em Paris, e nas outras tantas que o doente continua a pintar no hospício.
Marchand de talento, Theodorus não tem conseguido vender nenhuma delas.
"Eu, como pintor, nunca significarei nada de importante, sinto–o perfeitamente",
comenta Vincent van Gogh. Mas ele pode estar enganado. Impossível
ficar indiferente ao olhar que o pintor lança de seus auto–retratos, nem
deixar de perceber o traço de um bom desenhista por trás da alucinada
liberdade com que utiliza cores fortes. Para que os quadros desse doente sejam
considerados arte, é preciso que não só o gosto do público
se modifique pesadamente, mas que muitos dos conceitos acerca do que seja arte
venham abaixo. Há algo de vibrante e intenso nos trabalhos de Van Gogh.
Algo que pode propiciar a fruição estética, o deleite em
quem os contempla. Mesmo tendo sido feitos por um homem fora de si, que poucos
dias depois de arrancar a orelha fora já estava se auto–retratando, seus
quadros estão curiosamente vivos. Eles palpitam muito mais, por exemplo,
que os atuais espécimes da modorrenta e anêmica pintura neoclássica,
ainda em voga no Brasil. Os quadros de Van Gogh têm alguma semelhança
com os da escola impressionista, que se firma em Paris. Mas, ao mesmo tempo, são
muito diferentes: mais violentos, mais sem prumo. Mais malucos. "Penso
em aceitar definitivamente minha profissão de louco, assim como Degas tomou
a forma de escrivão", comenta Vincent, no asilo de Saint–Rémy,
abatido e ainda sob o impacto da tragédia que quase custou a vida dele
e do amigo Gauguin. "Provisoriamente, desejo ficar internado, tanto para
minha tranqüilidade quanto para a dos outros", diz. "Não
agüento mais recomeçar essa vida de pintor que eu tive até
hoje, isolado no ateliê, sem outro recurso para me distrair senão
ir a um café ou um restaurante, sob a crítica de todos os vizinhos."
As críticas tinham por alvo seu modo esquisito e distraído, com
hábitos esdrúxulos como passar o dia inteiro nos trigais, pintando
sem parar e indiferente ao calor intenso. Mas ninguém imaginava que Vincent
pudesse empunhar uma navalha e ameaçar o único amigo que se dispusera
a acompanhá–Io na aventura de fundar um novo movimento artísticos,
os Impressionistas do Sul ou Casa Amarela, pela tonalidade do sobrado de esquina
onde morava em Arles e pelas cores predominantes de suas telas . "Minhas
discussões sobre arte com Gauguin tinham uma eletricidade excessiva, e
saíamos delas com a cabeça tão cansada quanto uma bateria
elétrica depois de uma descarga", conta Vincent, que passa boa parte
do tempo sentado sobre a colcha encardida de sua cama, no dormitório coletivo
de Saint–Rémy, onde a única privacidade possível é
improvisada com cortinas que separam um leito de outro. Sobre a automutilação,
nenhuma palavra. Sem o testemunho direto do protagonista, sobram as versões.
Há quem diga que ele cortou a orelha como autopunição por
ter atentado contra a vida de Gauguin, um ex–negociante de ações
que começa a fazer sucesso como pintor. Também há versões
mais românticas, que creditam o ato tresloucado a uma vingança contra
a amante, Virginie, uma prostituta arlesiana para quem teria enviado a orelha
ensangüentada, dentro de um envelope, após saber que ela se apaixonara
por Gauguin. Isso são apenas conjecturas, embora se saiba que existem
alguns antecedentes perturbadores no passado de Van Gogh. Ele não hesitou
em manter a mão sobre a chama de uma lâmpada de óleo até
queimar–se, para tentar convencer a prima Kee Vos a casar–se com ele. Em vão.
Mas Vincent era indesejável apenas por essas estranhas atitudes. Ele pertence
a uma família sólida – filho de um pastor protestante, tem parentes
abastados. Seu tio é um rico vendedor de quadros, sócio da rede
de galerias Goupil. Foi na filial da Goupil em Haia, na Holanda, que Vincent
obteve seu primeiro emprego, em 1869. Depois foi transferido para Bruxelas, Londres
e Paris, mas não se adaptou à profissão de marchand. Foi
ser professor primário no interior da Inglaterra e, depois, pregador protestante
nas minas de carvão de Borinage, na França, onde assustou os paroquianos,
andando em andrajos incompatíveis com sua função religiosa.
Nessa vida errante, acabou interessando–se pela pintura e transferindo para ela
toda a paixão mística que o moveu a tentar salvar almas nas minas
de carvão. Mesmo assim, não se mostra satisfeito. "Tenho, infelizmente,
um ofício que não conheço muito bem para me exprimir como
gostaria" , lamenta–se. Ele tem se empenhado a fundo no aprendizado
da pintura. Van Gogh não é um completo instintivo, e isso se nota
em suas telas ou desenhos, espalhados às dezenas numa peça acanhada
que obteve da direção do hospício para instalar seu material
de trabalho e pintar. "0 medo da loucura diminui sensivelmente ao se ver
de perto as pessoas afetadas por ela", comenta Vincent. Trabalha horas a
fio, com rapidez, como se tivesse pressa de pintar o máximo antes de cair
em nova crise nervosa. Faz muitos retratos, paisagens e naturezas–mortas, mas
esses temas clássicos ganham uma forma e uma cor inquietantes sob seu pincel.
Dois estudos de ciprestes num difícil matiz verde–garrafa chamam
a atenção entre as telas postas a secar encostadas contra a parede.
"Os ciprestes sempre me preocuparam, gostaria de fazer com eles algo como
as telas dos girassóis, pois me espanta que ainda não os tenham
feito como eu os vejo", diz. "Como linha e como proporção,
são tão belos quanto um obelisco egípcio." São
também impressionantes suas teIas de campos de trigo, muito amarelos e
muito claros, com uma perspectiva imponente. Os últimos trabalhos se inspiram
em desenhos de Jean François MilIet, pintor e gravador francês que
recentemente teve um de seus quadros, O Angelus, vendido por um preço recorde
em Paris: 553 000 francos. Sem saber do recorde de venda, Van Gogh admira as imagens
de camponeses e os campos retratados por Millet. "Trabalhar, seja em seus
desenhos, seja em suas gravuras, é traduzí–Ios para a linguagem
das cores", diz. Uma intrigante Noite Estrelada – que exibe
amplidões semelhantes às de seus campos de trigo – é outra
de suas telas que mereciam ser expostas. Feita em Arles, em setembro do ano passado,
ela foi resgatada de lá pelo irmão do pintor, Theodorus, que a mantém
no depósito da galeria Goupil, em Paris. Poucos metros a separam da sala
de exposições onde estão penduradas telas de Renoir e Degas.
Talvez uma distância enorme as separe: a mesma distância que vai da
sanidade à loucura. Mas Vincent van Gogh será mesmo um louco?
Van Gogh pinta nos momentos de lucidez, quando tem pleno domínio do que
quer fazer. Ele não tateia a esmo, ele escolhe conscientemente dentro de
referenciais sólidos: seu traço é influenciado pela gravura
japonesa, sua temática atual se inspira em Millet. Ele estudou na Academia
de Antuérpia e conhece perspectiva e anatomia. Não sabemos para
onde vai sua imaginação delirante nem se irá conseguir produzir
um conjunto significativo de obras. Mas ele está pintando rápido
para tentar dar a resposta.
| O companheiro
de aventuras Um pintor colorista que já faz
sucesso
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| Paul Gauguin: um auto–retrato com Cristo | Paul
Gauguin só morou dois meses com Vincent van Gogh. Depois de quase ser esfaqueado
pelo amigo, viajou às pressas de volta a Paris e agora lamenta a aventura
em Arles, "o lugar mais asqueroso do sul da França". A decisão
de compartilhar o projeto de uma pintura ensolarada e vibrante entusiasmou Gauguin,
que nunca tinha experimentado o temperamento difícil do amigo. "A
idéia era trabalhar sem preocupações financeiras até
que Theo van Gogh conseguisse me lançar no mercado", conta ele. O
irmão de Vincent, um marchand, propôs–se a receber toda a produção
de Gauguin e cobrar apenas 15% de comissão sobre as vendas. Já vinha
vendendo alguma coisa. Gauguin, 41 anos, não é um artista maldito.
Suas obras são apreciadas por Degas, e o crítico Félix Fénéon
lhe comentou a exposição de dezenove telas da última mostra
impressionista, de 1886. Colorista como Van Gogh, Gauguin procura temas exóticos
para suas telas. Essa busca do exotismo já o levou à América
Central há dois anos, onde passou dois meses no Panamá e voltou
para Paris com disenteria e impaludismo. O sonho romântico de ser pintor
em paragens remotas do planeta ainda o persegue, e ele planeja viajar para o Taiti.
Seu prestígio vem crescendo entre os jovens artistas como Bonnard, que
lhe levam seus trabalhos a seu ponto habitual no Café Volpini, em Paris,
para ouvir-lhe os comentários e aprender suas teorias sobre "a visão
simplificada" das cores primárias e das formas bem delineadas que
buscam superar o impressionismo. Gauguin é uma pessoa inteiramente diversa
do que já foi há poucos anos, quando negociava ações
na Bolsa de Valores de Paris e tinha uma vida próspera e rotineira, dedicando
apenas os fins de semana à pintura e ao convívio com os artistas.
Há seis anos, Gauguin resolveu jogar a prosperidade para o alto
e abandonar o emprego para se dedicar inteiramente à pintura. A esposa
e os cinco filhos ainda o acompanharam por algum tempo nas sucessivas mudanças
para habitações cada vez mais modestas. A esposa acabou indo se
refugiar na casa dos pais, em Copenhague, na Dinamarca. O pintor não conseguia
sobreviver de suas telas, como imaginava. Mas agora – e apesar dos maus bocados
vividos em Arles – a sorte já o está tratando melhor. Sua pintura
colorida e cheia de curvas voluptuosas está caindo no agrado do público,
embora ainda seja cedo para saber se isso é resultado de uma obra que irá
se desdobrar em qualidade ou mero resultado da moda pelas coisas estrangeiras
que colocou a arte japonesa no centro das atenções dos parisienses.
A briga entre os dois pintores, segundo Gauguin, começou quando
ele fez o retrato Van Gogh Pintando Girassóis. Nessa tela, Gauguin não
mostra o quadro que Van Gogh está pintando, mas oferece sua própria
visão das flores. Van Gogh teria tomado a brincadeira como ofensa pessoal
e desde então "o clima já não foi mais o mesmo e as
brigas se precipitaram". Os girassóis são uma das paixões
temáticas de Van Gogh, que pintou vários quadros com eles para decorar
o quarto de Gauguin antes de sua chegada. Gauguin não gostou da surpresa.
Viu nas telas um desafio de pintura. |
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