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Arte

Em Arles, o pintor holandês
Vincent van Gogh
corta a própria orelha e agride Paul Gauguin
Artephot/Malborough
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| Auto-retrato com a Orelha Cortada:
motivo de polêmica |
Os alienistas, se consultados, poderiam prever a tragédia.
Não pode fazer bem aos loucos muito sol na cabeça.
Nem o uso desbragado de absinto e fumo. O pintor holandês
Vincent van Gogh, 36 anos, após ver malogrado seu projeto
visionário de criar uma comunidade de artistas na ensolarada
cidade francesa de Arles, acabou ameaçando com uma faca um
amigo, o artista francês Paul Gauguin, e, num acesso de fúria,
cortou a própria orelha direita, no início do ano.
Pouco depois, Van Gogh internou-se no hospício do vilarejo
de Saint-Rémy, no interior da França, e lá
se encontra até hoje. A crise rendeu ao infeliz holandês
dois Auto-retratos com a Orelha Cortada e uma polêmica
em Paris: trata-se apenas de um louco com mania de artista ou um
artista com eventuais crises de loucura? A resposta está
nas centenas de telas de Vincent que seu irmão Theodorus
conserva no sótão da galeria Goupil, em Paris, e nas
outras tantas que o doente continua a pintar no hospício.
Marchand de talento, Theodorus não tem conseguido vender
nenhuma delas. "Eu, como pintor, nunca significarei nada de
importante, sinto-o perfeitamente", comenta Vincent van Gogh.
Mas ele pode estar enganado.
Impossível ficar indiferente ao olhar que o pintor lança
de seus auto-retratos, nem deixar de perceber o traço de
um bom desenhista por trás da alucinada liberdade com que
utiliza cores fortes. Para que os quadros desse doente sejam considerados
arte, é preciso que não só o gosto do público
se modifique pesadamente, mas que muitos dos conceitos acerca do
que seja arte venham abaixo. Há algo de vibrante e intenso
nos trabalhos de Van Gogh. Algo que pode propiciar a fruição
estética, o deleite em quem os contempla. Mesmo tendo sido
feitos por um homem fora de si, que poucos dias depois de arrancar
a orelha fora já estava se auto-retratando, seus quadros
estão curiosamente vivos. Eles palpitam muito mais, por exemplo,
que os atuais espécimes da modorrenta e anêmica pintura
neoclássica, ainda em voga no Brasil. Os quadros de Van Gogh
têm alguma semelhança com os da escola impressionista,
que se firma em Paris. Mas, ao mesmo tempo, são muito diferentes:
mais violentos, mais sem prumo. Mais malucos.
"Penso em aceitar definitivamente minha profissão de
louco, assim como Degas tomou a forma de escrivão",
comenta Vincent, no asilo de Saint-Rémy, abatido e ainda
sob o impacto da tragédia que quase custou a vida dele e
do amigo Gauguin. "Provisoriamente, desejo ficar internado,
tanto para minha tranqüilidade quanto para a dos outros",
diz. "Não agüento mais recomeçar essa vida
de pintor que eu tive até hoje, isolado no ateliê,
sem outro recurso para me distrair senão ir a um café
ou um restaurante, sob a crítica de todos os vizinhos."
As críticas tinham por alvo seu modo esquisito e distraído,
com hábitos esdrúxulos como passar o dia inteiro nos
trigais, pintando sem parar e indiferente ao calor intenso. Mas
ninguém imaginava que Vincent pudesse empunhar uma navalha
e ameaçar o único amigo que se dispusera a acompanhá-Io
na aventura de fundar um novo movimento artísticos, os Impressionistas
do Sul ou Casa Amarela, pela tonalidade do sobrado de esquina onde
morava em Arles e pelas cores predominantes de suas telas .
"Minhas discussões sobre arte com Gauguin tinham uma
eletricidade excessiva, e saíamos delas com a cabeça
tão cansada quanto uma bateria elétrica depois de
uma descarga", conta Vincent, que passa boa parte do tempo
sentado sobre a colcha encardida de sua cama, no dormitório
coletivo de Saint-Rémy, onde a única privacidade possível
é improvisada com cortinas que separam um leito de outro.
Sobre a automutilação, nenhuma palavra. Sem o testemunho
direto do protagonista, sobram as versões. Há quem
diga que ele cortou a orelha como autopunição por
ter atentado contra a vida de Gauguin, um ex-negociante de ações
que começa a fazer sucesso como pintor. Também há
versões mais românticas, que creditam o ato tresloucado
a uma vingança contra a amante, Virginie, uma prostituta
arlesiana para quem teria enviado a orelha ensangüentada, dentro
de um envelope, após saber que ela se apaixonara por Gauguin.
Isso são apenas conjecturas, embora se saiba que existem
alguns antecedentes perturbadores no passado de Van Gogh. Ele não
hesitou em manter a mão sobre a chama de uma lâmpada
de óleo até queimar-se, para tentar convencer a prima
Kee Vos a casar-se com ele. Em vão. Mas Vincent era indesejável
apenas por essas estranhas atitudes. Ele pertence a uma família
sólida - filho de um pastor protestante, tem parentes abastados.
Seu tio é um rico vendedor de quadros, sócio da rede
de galerias Goupil.
Foi na filial da Goupil em Haia, na Holanda, que Vincent obteve
seu primeiro emprego, em 1869. Depois foi transferido para Bruxelas,
Londres e Paris, mas não se adaptou à profissão
de marchand. Foi ser professor primário no interior da Inglaterra
e, depois, pregador protestante nas minas de carvão de Borinage,
na França, onde assustou os paroquianos, andando em andrajos
incompatíveis com sua função religiosa. Nessa
vida errante, acabou interessando-se pela pintura e transferindo
para ela toda a paixão mística que o moveu a tentar
salvar almas nas minas de carvão. Mesmo assim, não
se mostra satisfeito. "Tenho, infelizmente, um ofício
que não conheço muito bem para me exprimir como gostaria"
, lamenta-se.
Ele tem se empenhado a fundo no aprendizado da pintura. Van Gogh
não é um completo instintivo, e isso se nota em suas
telas ou desenhos, espalhados às dezenas numa peça
acanhada que obteve da direção do hospício
para instalar seu material de trabalho e pintar. "0 medo da
loucura diminui sensivelmente ao se ver de perto as pessoas afetadas
por ela", comenta Vincent. Trabalha horas a fio, com rapidez,
como se tivesse pressa de pintar o máximo antes de cair em
nova crise nervosa. Faz muitos retratos, paisagens e naturezas-mortas,
mas esses temas clássicos ganham uma forma e uma cor inquietantes
sob seu pincel.
Dois estudos de ciprestes num difícil matiz verde-garrafa
chamam a atenção entre as telas postas a secar encostadas
contra a parede. "Os ciprestes sempre me preocuparam, gostaria
de fazer com eles algo como as telas dos girassóis, pois
me espanta que ainda não os tenham feito como eu os vejo",
diz. "Como linha e como proporção, são
tão belos quanto um obelisco egípcio." São
também impressionantes suas teIas de campos de trigo, muito
amarelos e muito claros, com uma perspectiva imponente. Os últimos
trabalhos se inspiram em desenhos de Jean François MilIet,
pintor e gravador francês que recentemente teve um de seus
quadros, O Angelus, vendido por um preço recorde em Paris:
553 000 francos. Sem saber do recorde de venda, Van Gogh admira
as imagens de camponeses e os campos retratados por Millet. "Trabalhar,
seja em seus desenhos, seja em suas gravuras, é traduzí-Ios
para a linguagem das cores", diz.
Uma intrigante Noite Estrelada - que exibe amplidões
semelhantes às de seus campos de trigo - é outra de
suas telas que mereciam ser expostas. Feita em Arles, em setembro
do ano passado, ela foi resgatada de lá pelo irmão
do pintor, Theodorus, que a mantém no depósito da
galeria Goupil, em Paris. Poucos metros a separam da sala de exposições
onde estão penduradas telas de Renoir e Degas. Talvez uma
distância enorme as separe: a mesma distância que vai
da sanidade à loucura.
Mas Vincent van Gogh será mesmo um louco? Van Gogh pinta
nos momentos de lucidez, quando tem pleno domínio do que
quer fazer. Ele não tateia a esmo, ele escolhe conscientemente
dentro de referenciais sólidos: seu traço é
influenciado pela gravura japonesa, sua temática atual se
inspira em Millet. Ele estudou na Academia de Antuérpia e
conhece perspectiva e anatomia. Não sabemos para onde vai
sua imaginação delirante nem se irá conseguir
produzir um conjunto significativo de obras. Mas ele está
pintando rápido para tentar dar a resposta.
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O companheiro
de aventuras
Um pintor colorista que já faz sucesso
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| Paul Gauguin: um auto-retrato com Cristo |
Paul Gauguin só morou dois meses com Vincent van Gogh.
Depois de quase ser esfaqueado pelo amigo, viajou às
pressas de volta a Paris e agora lamenta a aventura em Arles,
"o lugar mais asqueroso do sul da França".
A decisão de compartilhar o projeto de uma pintura
ensolarada e vibrante entusiasmou Gauguin, que nunca tinha
experimentado o temperamento difícil do amigo. "A
idéia era trabalhar sem preocupações
financeiras até que Theo van Gogh conseguisse me lançar
no mercado", conta ele. O irmão de Vincent, um
marchand, propôs-se a receber toda a produção
de Gauguin e cobrar apenas 15% de comissão sobre as
vendas. Já vinha vendendo alguma coisa. Gauguin, 41
anos, não é um artista maldito. Suas obras são
apreciadas por Degas, e o crítico Félix Fénéon
lhe comentou a exposição de dezenove telas da
última mostra impressionista, de 1886. Colorista como
Van Gogh, Gauguin procura temas exóticos para suas
telas.
Essa busca do exotismo já o levou à América
Central há dois anos, onde passou dois meses no Panamá
e voltou para Paris com disenteria e impaludismo. O sonho
romântico de ser pintor em paragens remotas do planeta
ainda o persegue, e ele planeja viajar para o Taiti. Seu prestígio
vem crescendo entre os jovens artistas como Bonnard, que lhe
levam seus trabalhos a seu ponto habitual no Café Volpini,
em Paris, para ouvir-lhe os comentários e aprender
suas teorias sobre "a visão simplificada"
das cores primárias e das formas bem delineadas que
buscam superar o impressionismo. Gauguin é uma pessoa
inteiramente diversa do que já foi há poucos
anos, quando negociava ações na Bolsa de Valores
de Paris e tinha uma vida próspera e rotineira, dedicando
apenas os fins de semana à pintura e ao convívio
com os artistas.
Há seis anos, Gauguin resolveu jogar a prosperidade
para o alto e abandonar o emprego para se dedicar inteiramente
à pintura. A esposa e os cinco filhos ainda o acompanharam
por algum tempo nas sucessivas mudanças para habitações
cada vez mais modestas. A esposa acabou indo se refugiar na
casa dos pais, em Copenhague, na Dinamarca. O pintor não
conseguia sobreviver de suas telas, como imaginava. Mas agora
- e apesar dos maus bocados vividos em Arles - a sorte já
o está tratando melhor. Sua pintura colorida e cheia
de curvas voluptuosas está caindo no agrado do público,
embora ainda seja cedo para saber se isso é resultado
de uma obra que irá se desdobrar em qualidade ou mero
resultado da moda pelas coisas estrangeiras que colocou a
arte japonesa no centro das atenções dos parisienses.
A briga entre os dois pintores, segundo Gauguin, começou
quando ele fez o retrato Van Gogh Pintando Girassóis.
Nessa tela, Gauguin não mostra o quadro que Van Gogh
está pintando, mas oferece sua própria visão
das flores. Van Gogh teria tomado a brincadeira como ofensa
pessoal e desde então "o clima já não
foi mais o mesmo e as brigas se precipitaram". Os girassóis
são uma das paixões temáticas de Van
Gogh, que pintou vários quadros com eles para decorar
o quarto de Gauguin antes de sua chegada. Gauguin não
gostou da surpresa. Viu nas telas um desafio de pintura.
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