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  PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
NESTA EDIÇÃO
Assinado o Tratado de Versalhes
  Por dentro da Sala dos Espelhos
  Ferdinand Foch, herói contrariado
  A Liga das Nações - sem os EUA
  'Maré vermelha' cobriu à Hungria
Índice

PERFIL
VEJA, Junho de 1919
Após levar os aliados à vitória, Ferdinand Foch não esconde
frustração com Tratado de Versailles - Marechal prevê que Alemanha
deverá buscar sua vingança contra vencedores da contenda
A voz da experiência: o comandante das forças aliadas tem previsões preocupantes para o futuro da Europa

dívida de gratidão da Europa com o marechal francês Ferdinand Foch jamais poderá ser paga por inteiro. Ainda assim, desde o término das hostilidades da Grande Guerra, não vêm faltando homenagens ao homem que, a contar de abril do ano passado, quando foi empossado comandante supremo das forças aliadas, brecou o avanço das tropas da Alemanha e, em uma irresistível contraofensiva, recuperou boa parte do território francês e belga ocupados. No dia do armistício, o militar foi nomeado membro da Academia de Ciências da França, em reconhecimento pelos serviços prestados; dez dias depois, a Academia Francesa, fundada em 1635 pelo cardeal Richelieu e que congrega os 40 maiores letrados gauleses, elegeu Foch para sua cadeira número 18, outrora ocupada por pensadores do naipe de Alexis de Tocqueville. A lista não pára: a Grã-Bretanha e a Polônia outorgam ao líder a mesma condecoração de marechal de que desfruta em sua França materna: Marechal; em Portugal, recebe o mais alto galardão luso: a Ordem Militar da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito.

Tudo isso, claro, é assaz lisonjeiro. Mas não esconde a grande frustração de Foch: o extremo desapontamento com os plenipotenciários aliados, notadamente os britânicos e americanos, por uma alegada frouxidão na negociação com os alemães – fato que gerou um Tratado de Versalhes, em suas próprias palavras, “genuflexo e traiçoeiro”. Desde o início do ano, Foch vinha se engajando nos debates da Conferência de Paz de Paris, iniciada em janeiro, para garantir a futura neutralização militar da Alemanha. O marechal exigia que a província do Reno fosse anexada pelos aliados, evitando que se a região tornasse um atalho para novas invasões à Bélgica, Luxemburgo, França e mesmo Grã-Bretanha, protegendo a costa do Mar do Norte. Sentido o pendor de Woodrow Wilson e David Lloyd George por manter o Reno dentro das fronteiras alemãs, e ciente da incapacidade de Georges Clemenceau de convencer seus colegas do contrário, Foch enviou um duro memorando aos mandatários, antes da assinatura do tratado, demandando pulso firme à mesa de negociações.

“O que a população da Alemanha mais teme é uma retomada das hostilidades militares, pois, desta vez, a Alemanha seria o campo de batalha e o palco de uma inevitável devastação. Por isso é impossível que o ainda instável governo alemão rejeite qualquer exigência de nossa parte, desde que esta seja claramente formulada. A Entente, desfrutando desta situação militar favorável, pode obter a aceitação de qualquer condição de paz que seja imposta à Alemanha – desde que seja apresentada sem muita demora. Só é preciso decidir qual será.”

Para desespero de Foch, o Tratado de Versalhes acabou optando por manter o Reno ligado à Alemanha, ainda que militarmente ocupado pelos aliados por 15 anos. Depois disso, a soberania do território voltará aos germânicos. Ainda que muitos tenham considerado o documento nefasto para a Alemanha, o marechal acredita que Berlim foi na verdade poupada, e que terá, em alguns anos, totais condições de iniciar outra altercação com seus vizinhos europeus. Sobre o assunto, a frase que usou para definir o Tratado de Versalhes é auto-explicativa: “Isto não é a paz. É apenas um armistício válido pelos próximos vinte anos.” O mundo torce para que o herói, desta vez, esteja equivocado.

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