
DEPOIMENTO
VEJA, Junho de 1919
Diplomata britânico Harold Nicolson relata o clima
do
histórico momento da assinatura do Tratado de Versalhes – Delegados
alemães são tratados como prisioneiros na cerimônia
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| Bastidores de um momento decisivo: 'Há uma tensão geral. Eles assinam. Há um alívio geral. A conversação reaparece' |
ntramos na Galeria dos Espelhos. Ela é dividida em três seções. Na extremidade, está instalada a imprensa. No meio, uma mesa em forma de ferradura para os plenipotenciários. Na frente disso, como uma guilhotina, uma mesa para as assinaturas. Na teoria, essa mesa está em nível superior, em um palanque – mas, se for o caso, o palanque tem apenas alguns centímetros de altura. Nas proximidades estão fileiras e fileiras de bancos para os convidados ilustres, os políticos, os senadores e os membros das delegações. Deve haver assentos para mais de mil pessoas. Isto rouba da cerimônia toda sua exclusividade– e consequentemente toda sua dignidade.
Os delegados chegam em grupos pequenos e lotam o corredor central. Woodrow Wilson e Lloyd George estão entre os últimos. Eles tomam seus assentos na mesa central, que finamente se completa. George Clemenceau olha para a direita e para a esquerda. A platéia se senta. Clemenceau faz um sinal aos assistentes. Eles dizem: “Ssh! Ssh! Ssh!”. O público se cala, e apenas o ruído de tosses ocasionais e o farfalhar dos programas do evento se fazem ouvir. Os oficiais do Ministério das Relações Exteriores vão aos corredores e exclamam: “Ssh! Ssh!” Faz-se então um silêncio absoluto, quebrado por uma incisiva ordem militar. Os guardas republicanos na porta embainham suas espadas. “Faites entrer les Allemands”, diz Clemenceau.
Pela porta oposta, aparecem dois criados com correntes de prata. Eles marcham em fila. Depois, entram quatro oficiais, da França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Itália. E depois, isolados e coitados, vêm os dois delegados da Alemanha. Dr. Muller, Dr. Bell. O silêncio é aterrador. Eles mantêm seu olhar no teto, fixando-os bem distantes dos milhares de olhos que os encaram. Eles estão mortalmente pálidos. Não parecem representar um brutal militarismo. Um é magro e tem pálpebras cor-de-rosa. O outro tem o rosto em formato de lua, e parece sofrer. É tudo muito dolorido.
Os dois são conduzidos às cadeiras. Clemenceau quebra imediatamente o silêncio. “Messieurs”, ele dispara, “la séance est ouverte.” O mandatário adiciona algumas palavras mal escolhidas. “Nós estamos aqui assinar um tratado de paz.” Os alemães levantam-se ansiosamente quando ele termina, pois sabem que serão os primeiros a assinar. William Martin, com petulância, faz-lhes um sinal, à maneira de um gerente de teatro: eles deveriam sentar-se novamente. Mantoux traduz as palavras de Clemenceau ao inglês. St. Quentin, então, se dirige aos alemães e com total dignidade os conduz à pequena mesa em que o documento encontra-se aberto. Há uma tensão geral. Eles assinam. Há um alívio geral. A conversação reaparece, em forma de murmúrios.
De pé, os delegados, um a um, vão se juntando à fila para chegar à mesa de assinatura. Enquanto isso, muitos rodeiam a mesa principal, em busca de autógrafos. A fila de plenipotenciários fica maior. Os oficiais do Quai d’Orsay ficam ao lado da mesa, indicando o local para a assinatura, o procedimento, absorvendo a tinta com pequenas almofadas limpas. De repente, ouve-se, do lado de fora, o trovoar das armas em saudação; elas anunciam a Paris que o segundo Tratado de Versalhes foi assinado pelo Dr. Muller e pelo Dr. Bell. Através de poucas janelas abertas chega o som da celebração das multidões distantes. As assinaturas continuam.
Havíamos sido advertidos pelos organizadores que o evento poderia durar três horas. Contudo, quase que de imediato, a fila ficou pequena. Somente três, depois dois, e então um delegado ainda estava por assinar. Seu nome mal havia sido firmado e os assistentes já começaram outra vez o “Ssh! Ssh!”, interrompendo o intenso murmúrio que havia novamente dominado o salão. Fez-se um silêncio final. “La séance est levée”, anunciou Clemenceau. Nem uma palavra mais, nem uma palavra menos. Ficamos sentados em nossos lugares enquanto os alemães eram conduzidos como prisioneiros, seus olhos ainda fixos em alguma parte distante do horizonte.
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