 PERFIL VEJA, Novembro
de 1918
Jovem oficial galês é novo herói militar árabe - Técnica de
guerrilha surte efeito
e ajuda britânicos a derrubar turco-otomanos na
Palestina
- Novo desafio será
costurar um estado independente árabe
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| Pequeno gigante: Lawrence é transportado num Rolls Royce com carroceria blindada pelas ruas de Damasco, na Síria |
empo de definição
também na Palestina. Dois anos depois do início da Revolta Árabe,
os insurgentes nacionalistas árabes, em parceria com as forças aliadas,
finalmente conseguiram derrotar os turco-otomanos, abrindo caminho para a criação
de um estado árabe independente e unificado, como imaginado pelo xerife
de Meca, Hussein bin Ali. Apesar de as forças revoltosas terem sido lideradas
pelos filhos de Ali, os emires Feisal e Abdullah, o mundo árabe foi apresentado
nesse período a um novo e improvável herói militar - um galês
de 30 anos, baixinho e vegetariano, que, servindo de oficial de contato entre
os britânicos e os revoltosos, tornou-se para muitos a principal cabeça
do movimento: T. E. Lawrence. Estudioso e entusiasta do Oriente Médio desde
sua adolescência, o jovem convenceu os emires a adotarem a estratégia
de guerrilha contra os turco-otomanos, tática que, garantem os especialistas,
foi crucial para a vitória. Agora, o pequeno gigante voltará para
Londres para defender diplomaticamente a causa árabe - desafio não
menor do que pegar em armas contra os implacáveis turcos.
A verdade
é que poucos homens na história entregaram-se tanto a uma causa
que não era a sua quanto T. E. Lawrence. Educado em Oxford, apaixonado
por História, o jovem aproximou-se do mundo árabe após uma
viagem de três meses pela Síria, na qual caminhou por quase mil quilômetros
visitando os antigos castelos dos cruzados - empreitada que ajudaria na elaboração
de sua tese sobre a influência das Cruzadas na arquitetura militar européia,
defendida em 1910. Ao final desse ano, partiu ao Oriente Médio para desenvolver
trabalhos de campo em arqueologia; trabalhou em escavações em Carchemish,
no norte da Síria, e em Kafr Ammar, no Egito. Durante esse tempo, viajou
por diversos pontos do Império Turco-Otomano, conhecendo autoridades locais
e também alemãs. Seu conhecimento no terreno e na cultura do Oriente
Médio levou o alto comando militar britânico a recrutá-lo
para uma missão de reconhecimento no deserto do Negev, em janeiro de 1914;
em outubro, já com a guerra em curso, o diminuto Lawrence (1,66 metro)
foi definitivamente integrado ao corpo militar britânico e enviado para
o Cairo. Captura e fuga - Inicialmente, Lawrence interrogou prisioneiros
locais e ajudou os britânicos a coletar valiosas informações
sobre o exército turco-otomano. Com a eclosão da Revolta Árabe,
partiu para o auxílio do príncipe Feisal, colaborando oficialmente
com dinheiro e armas. Mas não demorou para Lawrence, que dividia com os
locais o ideal de soberania árabe, tornar-se um leal conselheiro do príncipe
e influenciar na tomada de decisões sobre a estratégia a ser seguida
- para ele, a melhor tática era evitar o confronto direto e lançar
diversos ataques-surpresa contra as linhas de comunicação e fortificações
inimigas. Impetuoso, o britânico logo já estava pegando em armas
e percorrendo o deserto ao lado dos soldados árabes, vestido como um deles.
Mas as coisas nem sempre correram como o esperado: em 1916, foi feito prisioneiro
dos turcos, espancado e violentado pelo governador de Deera. Após fugir
do cativeiro, Lawrence participou do ataque à cidade portuária de
Aqaba. A vitória empolgou o general Edmund Allenby, supremo comandante
da Força Expedicionária Egípcia, que garantiu a Lawrence
e aos árabes apoio irrestrito para suas ações de guerrilha
contra os inimigos.
A estocada final nos turco-otomanos
veio na Batalha de Megiddo, em setembro, quando os britânicos, contando
com a valiosa colaboração guerrilheira das tropas árabes
de Feisal, arrasaram os turco-otomanos em menos de uma semana de combate. Estava,
então, aberto o caminho para a tomada de Damasco: em 1º de outubro,
T. E. Lawrence e outros líderes adentravam a cidade contemplando a importante
conquista. Damasco é a capital imaginada para um futuro estado árabe,
e deve ser também o centro de um governo provisório árabe.
Costurar esses acordos nos bastidores europeus é a nova missão de
T. E. Lawrence, recém-promovido a tenente-coronel - e que, em breve, também
virará estrela de cinema. Neste ano, o correspondente norte-americano Lowell
Thomas, em companhia do câmera Harry Chase, e com autorização
do Ministério do Exterior britânico, acompanhou as aventuras de Lawrence
em sua campanha na Palestina. No futuro próximo um filme será lançado
em circuito comercial. A imagem do oficial tem tudo para ser catapultada ao estrelato
- resta saber o quanto isso o ajudará a consolidar o tão aguardado
estado árabe. |