 IDEOLOGIA VEJA, Novembro
de 1918
Rosa
Luxemburgo volta a Berlim e inflama país com ideais
libertários - Revolução
bolchevique já está em curso - Líderes
sociais-democratas
do novo governo
germânico prometem sufocar levante
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| Livre e solta
por Berlim: ninguém segura o ímpeto revolucionário da jornalista e teórica socialista Rosa Luxemburgo |
m ano depois da Revolução
Russa, os bolcheviques novamente se agitam - desta vez, no seio de uma Alemanha
em frangalhos, derrotada e humilhada. No início do mês de novembro,
a revolta dos marinheiros germânicos contra uma última - e inútil
- batalha contra a frota britânica se alastrou pelo país, furacão
que ajudou na defenestração do Kaiser Guilherme II, pouco antes
do armistício. Conselhos de soldados e trabalhadores foram criados nas
maiores cidades e provocaram uma abdicação em cadeia da realeza
de todos os estados tedescos e a criação de "repúblicas
do conselho", a primeira delas na Bavária - doravante República
Soviética da Bavária, cujo primeiro premiê é Kurt Eisner,
do Partido Independente Social-Democrata (USPD). Ainda no início do mês,
Karl Liebknecht proclamou a República Socialista Livre em Berlim, trazendo
mais desespero aos figurões do agora dominante Partido Social-Democrata
(SPD), especialmente Friedrich Ebert, que herdou o poder do príncipe Max
von Baden e é o chefe da República Germânica recém-fundada
oficialmente. Para ele, deve-se evitar a revolução social, custe
o que custar.
Se os revolucionários russos tiveram em Vladimir Lênin,
retornado do exílio pouco antes do levante, o maior ícone do histórico
novembro de 1917, os bolcheviques alemães contam com uma também
recém-repatriada como símbolo maior de um movimento socialista.
Rosa Luxemburgo, a célebre jornalista e teórica socialista, desembarcou
em Berlim no dia 8 de novembro após ser libertada da prisão em Breslau,
na Polônia, e promete alastrar ainda mais as ideias de socialismo, democracia,
pacifismo e anti-militarismo pela Alemanha. Ao lado de Liebknecht, seu companheiro
de ideais há longo tempo, a musa do socialismo europeu promete muita dor
de cabeça para Ebert. Ambos já colocam em curso a reorganização
da Liga Espártacus - fundada em 1914 como dissidência do SPD, após
o Partido Social Democrata ter apoiado a entrada da Alemanha na guerra -, com
clara orientação comunista libertária. Um jornal chamado
A Bandeira Vermelha também foi criado para difusão das mensagens
revolucionárias e dos ideais internacionalistas.
Os dois anos e meio passados
encarcerada, por tentativa de organizar uma greve geral no proletariado alemão
contra a guerra, em nada diminuiu o ímpeto revolucionário da líder
socialista. Rosa Luxemburgo produziu diversos artigos, opúsculos e panfletos,
contrabandeados para fora do xadrez e publicados na clandestinidade. O mais famoso
deles talvez seja "A Revolução Russa", em que, comentando
sobre os acontecimentos do ano passado, elogia a ideia de ditadura do proletariado
mas critica os bolcheviques orientais por sua sede de poder - texto que gerou
tensão entre ela e figurões como Lênin e Leon Trotsky. Para
ela, em defesa do povo vale até bater de frente com os camaradas - que
o diga, então, espezinhar seus adversários de luta. Livre e solta
por Berlim, a mais ilustre membro da Liga Espártacus já se movimenta
para formar um partido comunista dentro da Alemanha, cujo potencial incendiário
pode não ter limites. Que não se enganem, portanto, os manda-chuvas
do novo governo - Rosa não é flor que se cheire. |