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  PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
NESTA EDIÇÃO
Um armistício encerra as batalhas
  Cessar-fogo: relato de um piloto
  T.E. Lawrence, 'herói das Arábias'
  A Gripe Espanhola provoca pânico
  Na Alemanha, Rosa Luxemburgo
Índice
SAÚDE PÚBLICA
VEJA, Novembro de 1918
Pandemia causada pelo vírus Influenza causa terror e
morte em todo o planeta – Combatentes em ambas as trincheiras são derrubados
pela Gripe Espanhola – No Brasil, moléstia traz pânico às ruas
Rastro sombrio: galpão lotado de soldados contaminados pelo implacável vírus; no mundo, já são milhões de cadáveres

uando se pensava que nada poderia ser mais devastador do que a fúria das colossais bombas e metralhadoras da Grande Guerra, eis que um ente microscópico, sem pedir licença, avançou igualmente por campos de batalha e regiões em paz para deixar um rastro sombrio de desespero e morte. Desde que apareceu, em fevereiro deste ano, até agora, a pandemia do Influenza, batizada Gripe Espanhola, tem índice de mortalidade fulminante e já rivaliza com a Peste Negra como o maior holocausto médico da história. Cientistas trabalham em ritmo acelerado para tentar frear o vírus – sem sucesso, como atestam os milhões e milhões de cadáveres verificados apenas nas primeiras 25 semanas da doença em locais tão distantes como a França, a Índia, os Estados Unidos, a África do Sul, a Austrália e o Brasil. O fim da guerra e a conseqüente desmobilização dos exércitos podem, em teoria, ajudar a diminuir a disseminação do vírus. Em teoria. Na prática, ninguém sabe como, nem se é possível, parar o irascível Influenza.

Além das armas, o vírus: tropa americana no enterro de colega vítima da doença

Quando primeiro se noticiou um surto nas trincheiras da França, em março, com soldados apresentando dor de cabeça, dor de garganta e perda de apetite, a recuperação ainda era rápida – médicos apelidaram a doença de “febre dos três dias”. As baixas eram pequenas, e concentradas nos Estados Unidos e Europa. Em agosto, contudo, o vírus ganhou o mundo, e em versão mutante e fatal, já sob o epíteto Gripe Espanhola – o batismo explica-se pelo fato de que a imprensa da Espanha, sem a censura imposta aos países em guerra, foi a primeira a noticiar a pandemia. Os doentes pereciam pouco tempo após os sintomas: além de febre e dor de cabeça, falta de ar, rostos marrons ou roxos e pés pretos. Os pulmões dos vitimados enchem-se de fluidos e o afogamento é fatal. Quem não sucumbe de imediato, frequentemente morre devido a complicações da gripe, como a pneumonia. Outro fato intriga os cientistas: ao contrário da gripe comum, que atinge principalmente recém-nascidos e idosos, a Gripe Espanhola tem um pico de infecção de 20 a 40 anos. O motivo, como diversos outros, segue desconhecido.

Nesse cenário, soldados de ambos os lados das trincheiras vinham tombando dia após dia. Os aliados – notadamente americanos e franceses – sofreram demais o impacto da pandemia; mas foi no lado oposto que a Gripe Espanhola se verificou ainda mais fatal, ao menos em termos militares. Analistas avaliam que as baixas alemãs e austro-húngaras causaram estragos irreparáveis – com seus exércitos operando no limite, não havia como repor a mão-de-obra ceifada pelo Influenza –, e contribuíram para a queda e a consequente capitulação. Igualmente terríveis têm sido os relatos da pandemia em locais não afetados pela guerra: na Índia, calcula-se que mais de 10 milhões de pessoas já tenham morrido.

'Diga aaa!': médico examina um soldado

De Dacar para Recife – A nova doença já traz pânico também no Brasil. Rio, São Paulo e Curitiba contabilizam milhares de mortos; a Diretoria Geral de Saúde Pública entrou em ação e chamou o sanitarista Carlos Chagas para chefiar a campanha contra a gripe. O discípulo de Oswaldo Cruz criou hospitais e laboratórios improvisados. Acredita-se que o Influenza, em sua forma assassina, tenha chegado a Recife no final de setembro, por meio do retorno de marinheiros que prestaram serviço militar em Dacar. Outros apontam o navio inglês Demerara, que aportou em Salvador naquele mesmo mês, como o portador do vírus. Seja como for, a Gripe Espanhola já interfere também na vida política do país – acometido pela moléstia, o presidente eleito Rodrigues Alves não pôde ser empossado para o início de seu segundo mandato, no último dia 15. O vice Delfim Moreira assumiu interinamente em seu lugar.

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