
DEPOIMENTO
VEJA, Novembro de 1918
Piloto americano descreve euforia na base após
anúncio
do
armistício – De surpresa, faz vôo rasante no exato momento do
cessar-fogo
– ‘Ás dos ases’ testemunha incrível camaradagem entre inimigos
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| 'Ás dos ases': Eddie Rickenbacker, campeão no quesito extermínio de aviões alemães, relembra as cenas do armistício |
ais vitorioso piloto da Força Aérea Americana na Grande Guerra, Eddie V. Rickenbacker abateu nada menos que 26 inimigos – recorde inconteste que lhe rendeu o apelido “ás dos ases”. Seu esquadrão, o 94º, derrubou 69 aviões alemães, mais do que qualquer outra unidade americana. A última vitória foi registrada na tarde de 10 de novembro; na noite daquele mesmo dia, Rickenbacker e seus comandados conversavam sobre a próxima missão quando um telefonema os informou do armistício. A seguir, o comandante, de 29 anos recém-completos, relata a euforia que tomou conta da base e conta o que viu em seu último e incrível vôo sobre as trincheiras, que o colocou como testemunha única de um espetáculo igualmente ímpar no exato momento do calar das armas.
Na noite do dia 10, discutíamos a missão do dia seguinte quando o telefone tocou. Uma voz quase histérica gritou a notícia em meus ouvidos: às 11 horas da manhã seguinte, a guerra acabaria. Nossa missão estava cancelada. Para nós, a guerra acabou naquele momento. Desliguei o telefone e olhei para meus pilotos. Todos perceberam a importância daquele telefonema. Silêncio total no recinto.
“A guerra acabou!”, gritei. Todos ficamos loucos. Berrando como malucos, corremos para pegar qualquer arma ou sinalizador para atirar para o alto! O céu já estava claro: para onde eu olhava, via bombas e foguetes explodindo no céu, formando desenhos inexplicáveis. Alguém colocou o conteúdo de todas as garrafas que conseguiu encontrar em um grande jarro, e os ajudantes serviam a bebida em copos de café. Corremos para o 95º Esquadrão: eles tinham um piano, e alguém começou a castigar as teclas. Dançamos ou simplesmente pulamos para cima e para baixo. Alguém escorregou e caiu, e todo mundo caiu em cima, formando uma pirâmide. Corremos para fora para continuar nossa celebração sob a luz dos foguetes. De novo, alguém caiu e nos empilhamos em outra pirâmide humana, desta vez maior, melhor e mais enlameada, um monumento ao incrível fato de que vivemos até agora e de que vamos viver amanhã novamente.
Pela manhã do dia 11 de novembro, vieram ordens de que todos os pilotos deveriam ficar em terra. Estava um dia nublado, úmido e quente. Por volta das 10 horas, fui para o hangar e disse aos meus mecânicos que colocassem o avião para fora e testassem seus motores. Sem avisar ninguém de meus planos, subi no avião e decolei rapidamente. Cheguei a Verdun às 10h45, e continuei em direção a Conflans, sobrevoando a terra de ninguém. Estava a menos de 500 pés. Podia ver alemães e americanos agachados em suas trincheiras, espiando com a intenção inequívoca de matar qualquer homem que se revelasse do outro lado. De tempos em tempos, via do lado germânico uma explosão, e sabia que estavam atirando em mim – de volta à base, depois, encontrei buracos de balas em minha nave.
Olhei para meu relógio. Um minuto para as 11 horas. Trinta segundos. E então 11 horas, a décima-primeira hora do décimo-primeiro dia do décimo-primeiro mês. Eu era a única platéia do maior espetáculo já apresentado na Terra. De ambos os lados da terra de ninguém, as trincheiras entraram em erupção. Homens com uniformes marrons irromperam das trincheiras americanas, uniformes cinza-esverdeados saíam das alemãs. Do meu assento de observador, acima, vi atirarem seus capacetes para o ar, abandonarem suas armas e acenarem para o outro lado. Então, de um lado a outro do front, os dois grupos de homens começaram a avançar na terra de ninguém. Segundos antes, eles estavam dispostos a atirar um nos outros; agora eles se aproximavam. Inicialmente, de forma hesitante, mas depois com mais rapidez, os grupos se aproximavam.
De repente, uniformes cinzas se misturavam aos marrons. Eu pude vê-los abraçando uns a outros, dançando, pulando. Americanos distribuíam cigarros e chocolate. Voei para o setor francês. Lá era tudo ainda mais incrível. Depois de quatro anos de carnificina e ódio, eles estavam não apenas se abraçando mas também se beijando nas duas bochechas também.
Bombas, foguetes e sinalizadores subiam aos céus, e dei meia-volta rumo à base.
A guerra havia acabado.
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