
RÚSSIA
VEJA, Abril de 1917
Alemanha tira Lênin do exílio na Suíça e patrocina
retorno
à Rússia – Líder bolchevique cobra fim da participação na guerra e poder
total
aos sovietes – Governo provisório continua junto dos aliados
 |
| A chegada a Petrogrado: o chefão dos bolcheviques é recebido pelos seguidores depois do período de exílio em Zurique |
nganou-se quem achava que a frenética sequência de acontecimentos deste ano na Rússia – Revolução de Fevereiro, eleição de um Governo Provisório, abdicação do czar Nicolau II – fora suficiente para acalmar os ânimos da população oriental. Uma entrega especial com o generoso oferecimento da Alemanha logrou esquentar ainda mais o clima de um país em crescente ebulição: no último dia 16 de abril, recebido por centenas de simpatizantes na Estação Finlândia, Vladimir Lênin, líder do Partido Bolchevique, desembarcou em Petrogrado de volta de seu exílio em Zurique propondo virar, mais uma vez, a Rússia de cabeça para baixo. Em discurso para os representantes do soviete (conselho do povo) de Petrogrado, o bolchevique conclamou a população a romper com o governo provisório e propôs a extinção do exército em favor de milícias populares, além da uma nacionalização dos bancos, terras e propriedades privadas. Também exigiu, é claro, o fim da participação russa na grande guerra. “Todo o poder aos sovietes!”, exclamou, em delírio.
Provou-se uma tacada magistral, assim, a manobra germânica que viabilizou o retorno de Lênin e mais 31 camaradas à Mãe Rússia, na já afamada viagem do “trem lacrado” pela Suíça, Alemanha, Suécia e Rússia. Patrocinado e assegurado por Berlim, o traslado colocou uma verdadeira bomba-relógio em forma de bolchevique barbudo e careca no coração do governo provisório do príncipe Georgy Lvov, enfileirado com os aliados desde a primeira hora – e, por tabela, rival ferrenho da Alemanha. Lênin e seus companheiros lutarão à morte contra a maioria de suas determinações: a principal delas – e, claro, a que mais desagrada o governo germânico – é a manutenção do compromisso russo com a guerra. O governo provisório recusa-se a deixar a batalha neste momento, para não perder os diversos pontos do território imperial que estão ocupados por forças inimigas. O notável rearmamento do exército verificado neste ano e uma possível recuperação do espírito patriótico, após a destituição dos Romanov, são argumentos usados pelos líderes para seguir no confronto.
 |
| Dupla incendiária: com o camarada Stalin, que também voltou do afastamento |
A Alemanha, sem sequer disfarçar suas intenções, apóia entusiasticamente as idéias pacifistas de Lênin no tocante ao conflito pan-europeu: não há sentido para o povo russo lutar uma guerra “imperialista” conduzida por um governo provisório “capitalista”, que deve ser extirpado da Rússia. Tais ideias têm reverberado bem entre camponeses, trabalhadores, marinheiros e soldados. Sob o estandarte “paz, terra e pão”, o Partido Bolchevique registra notável ascensão na Rússia – hoje já pode ser considerado um movimento de massa de primeira grandeza. Suas idéias belicosas, como era de se esperar, incomodam sobremaneira o governo provisório, que, não à toa, excluiu os bolchevistas da esfera de poder. Lênin e os camaradas que também estão retornando do exílio, como Josef Stalin (antes na Sibéria) e Nikholai Bukharin (em Nova York), suarão sangue se preciso para reverter esse cenário.
Expurgo dos derrotistas – No lado da situação, o príncipe Georgy Lvov, escolhido o novo primeiro-ministro russo, tem formação monarquista-liberal e é homem de princípios. Mas não são poucos os que acreditam que não tem pulso suficiente para comandar o país em tempos de guerra. Tem crescido nos bastidores de Moscou a influência do socialista Aleksandr Kerenski, vice-presidente do soviete de Petrogrado e Ministro da Justiça do governo provisório. Kerenski é a única figura a ter assegurado um papel no soviete e no governo; trabalhando bem dos dois lados, vem ganhando força e já é cotado para assumir o Ministério da Guerra. A amigos, Kerenski, que é um fervoroso defensor da participação russa na batalha, confidencia planejará uma nova ofensiva “revolucionária” contra os alemães tão logo seja efetivado no cargo. Mas não são apenas os inimigos seu alvo. Fontes secretas garantem que, no momento em que o poder lhe cair nas mãos, Kerenski comandará um expurgo do alto comando “derrotista”, em suas palavras. Calejada, a Mãe Rússia nem se surpreende mais.
|