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  PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
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  No front, o trabalho dos médicos
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OS MÉDICOS
VEJA, Abril de 1917

Incansável trabalho de médicos e enfermeiras reduz índice
de mortos no front – Avanços da ciência revolucionam tratamento de
militares – Feridas psicológicas também atormentam combatente

Na linha de frente: médicos franceses atendem soldado ferido enquanto companheiros ainda combatem nas trincheiras

emer as doenças tanto quanto os inimigos sempre foi um dos mandamentos básicos da guerra de longa duração. Entretanto, graças ao notável avanço da medicina militar verificado atualmente nos campos de batalha da Europa, soldados começam a se concentrar cada vez mais na ameaça que vem da trincheira adversária do que aquela que pode estar em sua própria. Os corpos médicos que hoje acompanham os exércitos, em ambos os lados da contenda, são superiores aos de qualquer outro combate na história. Auxiliados pelas novas e constantes descobertas da ciência, esses profissionais logram diminuir sobremaneira o índice de mortes no front. Estimativas apontam que uma em cada três baixas resulta em óbito, número inferior ao registrado em qualquer outra guerra de que se tem notícia. Entre outras, as armas dos doutores e enfermeiras são as vacinas contra o tétano, o Líquido de Dakin (antisséptico para tratar ferimentos) e uma novidade: a prática do moderno desbridamento – a remoção dos tecidos desvitalizados para recuperação de pacientes atingidos por estilhaços.

Diagnóstico: membro da Cruz Vemelha

O primeiro aparelho da complexa estrutura médica no campo de batalha são os postos regimentais de primeiros socorros, para onde vão os soldados feridos; de lá, são encaminhados de padiola para os postos de atendimento avançado, situados após as linhas de frente. Logo em seguida, se o caso e a necessidade assim demandarem, o paciente é transportado por estradas para estações de triagens de baixas, e depois, finalmente, por ferrovia, para os hospitais de base estacionários. No front, o tratamento de feridos por projéteis ou estilhaços vem sendo revolucionado com o procedimento de extirpar cirurgicamente o tecido necrosado ou infectado da ferida. Até então, a prática médica trabalhava com a remoção cirúrgica apenas dos corpos estranhos e com a esterilização da ferida – ineficaz para matar micróbios e bactérias, que cresciam no tecido morto das redondezas. Trabalhos como o do médico-major australiano E. T. C. Milligan e o do médico Alexander Fleming, do Corpo Médico do Exército Britânico, foram responsáveis pela mudança de conceito. Assim, desde 1915, o desbridamento é uma constante na guerra da Europa.

Tormento psicológico – Não são apenas feridas físicas que levam soldados aos postos de atendimento: nesta grande guerra, é cada vez mais comum a ocorrência do chamado “choque da bomba” – condição psicológica cujos sintomas incluem cansaço, irritabilidade, tontura, dores de cabeça e falta de concentração. Nos casos mais graves, o soldado sofre um colapso nervoso e fica sem condição de ir para a linha de frente. Médicos acreditam que o choque é causado pela proximidade da explosão das bombas inimigas. Estas, ao explodir, criariam um vácuo; quando o ar é sugado pelo vácuo acaba por afetar o fluido cérebro-espinhal, causando o funcionamento falho do cérebro. “Os casos de ‘choque da bomba’ são os piores para ver e os piores para curar. Soldados fortes, vigorosos, robustos, tremendo com febre, tartamudeando como loucos, figuras de terror, incontroláveis”, descreve o jornalista Philip Gibbs, um dos correspondentes de guerra oficiais da Grã-Bretanha.

De molho: pacientes ingleses repousam

A recomendação médica para a recuperação é repouso total e afastamento da batalha; contudo, alguns exércitos, como o britânico, tratam com dois pesos e duas medidas os casos registrados no front. Enquanto oficiais são mandados para casa a fim de receber tratamento, soldados rasos estão sendo simplesmente despejados de volta nas linhas de frente – muitos comandantes enxergam esses subordinados apenas como covardes procurando um pretexto para dispensa. Mas a coisa ainda fica pior. Caso o militar perturbado, consciente ou inconscientemente, descumprir tal ordem, sofre um castigo severíssimo. Alguns britânicos chacoalhados pelo “choque da bomba” foram condenados à temível Punição de Campo Número 1, usada para castigar desertores. Nela, o soldado é amarrado a um objeto fixo (como um poste, por exemplo) durante duas horas do dia, em local geralmente ao alcance da artilharia inimiga, em uma cruel roleta russa psicológica. Vale a pergunta: quem é o perturbado?

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