
FRANÇA
VEJA, Abril de 1917 Soldados
franceses preparam motim para protestar contra
batalhas inúteis - Também está
na pauta reivindicação de mais licenças - Herói
Philippe Pétain é chamado para
apaziguar os insurgentes
 |
| Chega de dureza: dois soldados franceses baixam as armas e tiram cochilo perto de campo de pouso de aviões |
ormalmente, o fracasso
da recém-empreendida Ofensiva Nivelle no rio Aisne seria apenas mais uma
derrota a ser acrescentada no caderninho de débâcles do vacilante
exército francês nesta grande guerra. Desta vez, porém, a
derrota parece se desdobrar em consequências não previstas pelo alto-comando
militar da França. Inconformados com a disparidade entre a vitória
fácil cantada pelos comandantes (que haviam garantido um tranquilo avanço
de 9 quilômetros em só dois dias), e a hedionda realidade enfrentada
no campo de batalha - em 12 dias, quase 100.000 baixas foram registradas, com
30.000 mortos, e o avanço foi de apenas 500 metros -, os soldados dão
indícios de um princípio de motim nas fileiras gaulesas.
Extra-oficialmente,
apesar da disposição em proteger a pátria de ataques inimigos,
uma fatia enorme do exército, que pode chegar até a metade das cerca
de 100 divisões disponíveis, garante que desobedecerá ordens
e, se convocada, não se engajará em batalhas tão sangrentas
quanto inúteis, sem compensação estratégica ou territorial
- como boa parte das últimas contendas alimentadas pelos senhores da guerra
na Europa. Em um efeito dominó, o revés na batalha do Aisne
acabou extravasando uma série de demandas dos combatentes: mais licenças,
melhor alimentação, melhor tratamento para as famílias do
soldados e o fim das injustiças e das carnificinas. Para aplacar essa animosidade
latente, no último dia 29 de abril o primeiro-ministro Aristide Briand
nomeou como chefe do Estado-Maior ninguém menos do que Philippe Pétain,
herói da batalha de Verdun, oficial de linha dura mas conhecido por sua
empatia com as tropas. Ele já prometeu licenças mais longas e regulares
e maior treinamento às tropas.
 |
| Eles querem mais licenças: soldados preparam uma ceia de Natal no front |
Cabotino - A influência
de Pétain, inclusive, pode ser ainda mais estendida dentro do exército.
Especula-se que, no caso de uma derrota definitiva em Aisne, já esperada
por todos, o coronel Robert Nivelle, mentor da malograda ofensiva à qual
empresta seu sobrenome, será destituído do cargo de comandante-em-chefe
do Exército. E com razão, é bom acrescentar. Sua situação
foi dificultada por seus próprios atos cabotinos: Nivelle espalhou aos
quatro ventos que seu plano não apenas faria a França ganhar terreno,
mas também a guerra - garantia que, é evidente, não está
nem perto de cumprir. Mais discreto, razoável, ativo e astuto no trato
com os militares, Pétain é o número um da lista.
A
reação do exército à chegada do símbolo da
resistência em Verdun ainda está por ser avaliada - o teste máximo
acontecerá no próprio Aisne, em que milhares e milhares de soldados
prometem abandonar nos próximos dias o Chemin des Dames, parte da Linha
Hindemberg alemã, um dos objetivos dos franceses. O que está cristalino
é que Pétain, por já ter cedido a algumas demandas dos insurgentes,
avisou que não tolerará qualquer ato de sublevação
ou rebeldia, a ser punido com força. O inimigo pode ser bem mais íntimo
do que se supunha. |