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  PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
NESTA EDIÇÃO
A luta no Somme - o rio da morte
  Depoimento: o capelão na batalha
  Surgimento de tanques de guerra
  Piolhos e ratos perturbam a tropa
  A censura aos jornalistas no front
Índice

ESPECIAL
VEJA, Julho de 1916
Ação de atrito no Somme já registra 360.000 baixas entre
ataque e defesa – Ofensiva aliada não tem objetivo territorial e busca apenas
dizimar os alemães – Analistas temem uma repetição de Verdun
Nas trincheiras quentes do Somme: entre companheiros feridos e exaustos, um soldado britânico tenta defender sua posição

m rio desapressado que serpenteia por uma região remota do norte da França. Ao seu redor, apenas bosques, propriedades rurais e pequenos vilarejos. Não há ferrovias, fábricas, estaleiros ou qualquer outro ponto estratégico militar ou político em um raio de quilômetros. Uma terra ignorada pela guerra há quase dois anos, desde que o exército alemão, em uma das primeiras ações do conflito, lá fincou suas trincheiras. Pois é neste ermo, recôndito e infecundo cenário que os aliados decidiram detonar sua mais recente e pesada ofensiva. Na batalha do rio Somme, planejada no final do ano passado por britânicos e franceses e levada a cabo neste mês de julho, capturar fortificações ou subjugar territórios não é importante: a intenção explícita é extinguir o inimigo, drenando o sangue das resilientes forças germânicas e exaurindo-as para aliviar a encarniçada pressão sofrida pelos aliados em outras frentes. É, sem dúvida, a guerra pela guerra, que já cobra a devida derrama dos soldados – e, pelo menos até agora, não da forma que os aliados previam.

O supostamente implacável bombardeio de sete dias impingido às linhas germânicas, que antecedeu o ataque terrestre de 1º de julho, fez apenas fumaça. Ineficaz tanto para detonar os túneis de defesa quanto para rasgar o arame farpado das trincheiras, ainda riscou em definitivo qualquer pretensão dos agressores de se utilizar do fator surpresa, permitindo à defesa a organização da resistência. Com isso, condenou o assalto a claudicar desde o princípio. O primeiro dia da ofensiva norte, inclusive, já entrou para os registros da Grã-Bretanha como a jornada mais infausta na história das hostes de São Jorge. Os jovens e inexperientes voluntários da Força Expedicionária Britânica – que, sob as desencontradas e atrapalhadas ordens de seus comandantes, se movimentavam confiantes em linha pelos campos aparentemente vazios da terra de ninguém – foram presas fáceis para a artilharia tedesca desde o início da campanha. Dos 100.000 soldados destacados para o início do ataque, 20.000 morreram e 40.000 ficaram feridos – um chocante índice de baixas de 60% ao exército designado para capitanear a batalha. “Eram leões liderados por jumentos”, definiram os soldados germânicos.

Arsenal pesado: milhares de projéteis em depósito de munição das tropas francesas

Ao longo do mês, os insucessos se empilharam, frustrantes. Agora, no já citado front norte, a meta estabelecida pelo polêmico comandante Douglas Haig – a chegada à minúscula cidade de Bapaume, localizada 16 quilômetros atrás da trincheira inimiga –, parece estar cada vez mais distante. Aproveitando magistralmente a vantagem da localização em terras mais elevadas, os alemães mantiveram suas linhas sem sobressaltos. No sul, a empreitada até teve algum avanço, pelas mãos das cinco divisões francesas enviadas a combate, mais experientes na guerra de trincheiras que os novatos britânicos. Postergando os bombardeios até a última volta do ponteiro, os gauleses surpreenderam os homens do comandante Erich von Falkenhayn e chegaram a Hardecourt e Herbecourt, fazendo 3.000 prisioneiros e provocando a retirada germânica de sua segunda linha de trincheiras. Ainda assim, os franceses registraram cerca de 7.000 baixas nesse dia, e cidade de Péronne, do outro lado do Somme, objetivo da investida sul, também ficou longe de ser alcançada.

Mudança de planos – Uma segunda onda de ataques iniciou-se na metade do mês, com a chegada de novos reforços da França na região transversal do Somme, resultando em alguns ganhos territoriais para os aliados. O comandante Haig, que inicialmente se mostrava contrário às investidas noturnas, dobrou-se aos ataques à meia-luz; dessa forma, o espinhaço de Bazentin foi conquistado, assim como o bosque de Mametz e Contalmaison. Engrossando as fileiras aliadas estão as tropas imperiais, a brigada sulafricana e a 1ª e 2ª divisão australianas – todas veteranas de Galípoli. Os agressores obtiveram o controle de Pozières e o bosque de Delville, mas até o fechamento desta edição encontravam-se ali entocados, sem novos avanços.

Nada disso, contudo, é motivo para celebração aliada. Em um mês de combate, britânicos e franceses já perderam no Somme cerca de 200.000 homens, e a linha ofensiva moveu-se pouco mais de 4 quilômetros. Pior: o lado alemão contabiliza até agora um número significativamente inferior de baixas, 160.000 – um desastre quando a sangria pura e simples do inimigo é a meta primordial. Para mudar o panorama, só resta aos aliados esperarem a chegada de novas divisões – e eis que a batalha do Somme, também ela, corre o sério risco de se encaminhar para o tedioso porém sangrento impasse que se verifica na batalha de Verdun. Justo ela, da qual os franceses buscavam tanto um alívio. No Somme, apenas os sinais estão trocados. O produto final é o mesmo: a morte.

O cenário da carnificina: uma igreja destruída pelas bombas na região do Somme

Faltou combinar com alemão – A batalha de atrito no Somme vinha sendo gestada por franceses e britânicos desde a Conferência de Chantilly, em dezembro passado. O impasse na frente ocidental já durava 18 meses, e os países aliados cobravam desesperadamente das potências uma grande ofensiva contra os alemães. A Rússia, que perdera a Polônia depois de um longo ano de batalhas, e a Itália, que seguia trôpega no conflito em Isonzo, contavam com a abertura de uma nova frente na Europa e a consequente divisão das forças germânicas como forma de ganhar novo ânimo em seus quintais. O aumento na produção de armamento verificado em 1915 em todos os países aliados, assim como as bem-sucedidas campanhas para recrutamento de voluntários, ofereceu à França e à Grã-Bretanha segurança suficiente para armar um teatro na linha do rio Somme, meio do caminho para os dois exércitos. Pelo projeto original, portanto, a operação deveria ser anglo-francesa – mas os aliados se esqueceram de checar com os alemães seus planos para o começo de 1916.

Assim, no início do ano, enquanto o líder francês Joseph Joffre e seu colega britânico Douglas Haig discutiam o papel de cada um no Somme e pregavam tachinhas no mapa da Europa, o comandante-em-chefe alemão, Erich von Falkenhayn, já colocava seu bloco militar na rua – mais precisamente, na fortaleza de Verdun. O plano germânico era semelhante ao imaginado pelos aliados. Soberana nos cenários secundários na guerra, a Alemanha poderia apostar em uma nova investida na França. Na verdade, Von Falkenhayn acreditava que a chave da Tríplice Entente era a Grã-Bretanha – ela funcionaria como sustentáculo militar, industrial e marítimo da coligação. Mas o comandante sabia que era impossível atacar diretamente os britânicos, e optou por avançar contra sua principal aliada, em uma expedição punitiva que deveria sangrar os franceses até a morte. “Se conseguirmos fazer o povo francês acreditar que, no aspecto militar, eles não têm mais nada a esperar, atingiremos o ponto de ruptura e a melhor espada da Inglaterra seria arrancada de sua mão”, garantiu.

Autorizada pelo Kaiser, a Operação Julgamento teve lugar em Verdun, em uma curva do rio Meuse, escancarada ao ataque por três lados e localizada próxima a um terminal ferroviário tomado pelos alemães. Em fevereiro, uma força desproporcional começou a investida: defendida por apenas três divisões gaulesas, a fortaleza seria atacada por nada menos do que dez divisões enviadas por Von Falkenhayn, armadas até os dentes. Comandada por Philippe Pétain, a resistência francesa foi surpreendente e heróica, não apenas impedindo o avanço alemão como também equiparando o número de baixas apesar da enorme desvantagem numérica – até o fim de março, a França registrou 89.000 baixas, enquanto a Alemanha contabilizou pouco menos de 82.000. “Não passarão”, repetia Pétain. Manter sua palavra, contudo, mostrou-se extremamente custoso para a França: Verdun está consumindo todos os recursos que os gauleses possuem – e também os que não possuem.

Marcha para a matança: soldados senegaleses a caminho do campo de batalha

Calvário britânico – A essa altura, já estava claro que a participação francesa na ofensiva do Somme estava comprometida, e que os britânicos deveriam tomar as rédeas solitárias da ação. Entretanto, quando, no mês passado, os alemães reforçaram a estocada em Verdun, tornou-se imprescindível para os homens de Joffre que a batalha prevista em Chantilly começasse o mais rápido possível, agora também – e talvez principalmente – como ação diversionária. Joffre implorou a Haig que autorizasse a incursão ainda em junho, mas a melhor data encontrada pelos britânicos foi mesmo 1º de julho. Enquanto em Verdun franceses e alemães dividem baixas da ordem de 200.000 homens para cada lado – com uma vitória germânica cada vez mais improvável –, os ingleses começam seu calvário. A falta de entrosamento entre artilharia e infantaria, realçada pela antecipação da ofensiva, tornou mais fatídico o primeiro mês desta investida.

Mesmo assim, a Grã-Bretanha prepara nova carga para agosto, e conta para breve com o reforço dos espantosos “tanques” (leia reportagem nesta edição) para finalmente fazer valer seu poder de destruição. Haig acredita que com mais seis semanas de “pressão ofensiva contínua” a Alemanha perecerá no Somme – apesar de, nos bastidores, o governo estar incomodado com o enorme número de mortos e feridos, tão grande que a estrutura militar montada não está conseguindo dar conta de levá-los de volta para casa. No final do mês, o jovem oficial britânico Gerald Brenan descobriu por acaso alguns cadáveres que apodreciam em solo gaulês desde o frustrado ataque de 1º de julho. “Meus colegas rastejaram para buracos abertos por projéteis, enrolaram em torno de si seus cobertores à prova d’água, pegaram suas bíblias e morreram desse jeito.” Relatos desse tipo, isso sim, não cessam de chegar a Londres. É preciso colocar um ponto final definitivo nessas histórias.

Video
A artilharia no Somme
Canhões britânicos abrem fogo na batalha. Assista
às cenas de explosões provocadas pelos disparos.

 

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