
VIDA NO FRONT
VEJA, Julho de 1916
Condições putrefatas de higiene atraem companhia indesejável
nas trincheiras: piolhos – Batalhões de insetos perseguem recrutas – Ratos
comedores de cadáveres enojam soldados de todos os lados
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| Caçada sem fim: combate aos piolhos numa trincheira alemã |
Eu os matava, mas eles não morriam
Sim! O dia inteiro e a noite estrelada
Por eles não posso descansar ou dormir,
Nem me esconder ou bater em retirada.
Então em minha agonia eu os massacrei
Até de vermelho minhas mãos banhar
Em vão – quanto mais rápido eu matava
Mais cruéis ainda eles conseguiam voltar.
Eu matei e matei, com loucura assassina,
Matei até esgotar toda a minha garra,
E eles se levantavam para me torturar
Porque diabos só morrem fazendo farra.
Antes eu achava que o demônio se escondia
No sorriso das damas e no vinho gostoso
Eu o chamava de Satã, de Belzebu
Mas agora o chamo de piolho asqueroso.
(“Os Imortais”, poema do soldado britânico Isaac Rosemberg)
lemães, britânicos, franceses, italianos, russos, otomanos... Sem distinção de ideologia ou credo, todos os combatentes desta grande guerra enfrentam um terrível inimigo comum: a companhia malcheirosa e incômoda dos ratos e insetos. Embora pequenos, os animais têm demonstrado uma gigante capacidade de atormentar exércitos inteiros, sem se render ou retroceder em suas investidas. O exemplo mais surpreendente é o do implacável batalhão dos piolhos, que transita com enorme desenvoltura pelas sujas e malcheirosas trincheiras, se espalhando mais rápido do que os alemães e contando com um contingente de soldados maior do que a mãe Rússia jamais poderá produzir. Ao menos no curto prazo, parece não haver solução contra o flagelo no front europeu.
O problema é mais sério do que pode parecer, em todos os sentidos. Os piolhos transmitem a doença conhecida como “febre de trincheira”, na qual uma dor lancinante nas canelas é seguida por uma febre borbulhante. Nos hospitais de campanha do exército britânico, a moléstia responde por 15% dos atendimentos. Isso sem contar as coceiras, que levam os soldados a rasgarem o próprio corpo com as unhas em busca de alívio. Militarmente falando, o prejuízo também é significativo. Relatos do front indicam que soldados perdem, por dia, de uma a duas horas de ação apenas pelo fato de precisarem se limpar e remover os ectoparasitos de suas roupas.
No mundo das trincheiras, tão importante quanto o planejamento militar tático e estratégico têm sido as técnicas de extermínio de piolhos desenvolvidas pelos soldados. A mais difundida e eficiente delas é o holocausto dos insetos com velas quentes. Entretanto, esta operação requer perícia e habilidade para exterminar o alvo sem queimar as roupas. “Eles ficam nas costuras dos uniformes, nas barras das calças, seus esconderijos parecem impenetráveis. A solução é incinerá-los com uma vela acesa: eles estouram como um biscoito chinês”, explica o voluntário britânico George Coppard, de 18 anos. “O único problema é que, depois de cada uma dessas sessões, o rosto fica coberto de gotículas de sangue espirradas na explosão vigorosa dos piolhos maiores.”
Mamadeiras de sangue - Em boa parte dos acampamentos da guerra já existem até “estações de despiolhamento” atrás das linhas, que oferecem banhos quentes e máquinas anti-piolhos para limpar as roupas. Mas tais artifícios têm efeito efêmero: logo, lá estão os insetos de volta, mordiscando a pele de seus anfitriões. Boa parte dos ovos permanece grudada nos uniformes mesmo após a lavagem; ao vestir a roupa, o soldado, com o calor de seu corpo, acaba agilizando o chocar das cápsulas dos insetos mastigadores, que sem demora já vão para as primeiras mamadeiras de sangue.
Nem tudo, porém, são piolhos. Há também a companhia de sapos, besouros e, principalmente, ratos. No front europeu, pontificam dois tipos principais de roedores, o preto e o marrom, que infestam aos milhões as trincheiras e enojam os soldados. Os ratos alimentam-se dos cadáveres abandonados – desfigurando-os de forma hedionda ao comer primeiramente olhos para chegar mais rápido às entranhas – e podem atingir o tamanho de um gato. Os ratos são lépidos e costumam roubar comida se esta ficar por um instante desprotegida. Também são conhecidos por incomodar os soldados durante a noite, passeando por seus rostos enquanto estes tentam, em vão, dormir o sono dos justos.
Unindo o útil ao agradável, milhares de homens têm a caça aos ratos como passatempo nas horas vagas da grande guerra. Atirar nos animais é proibido – para economizar munição –, mas não raramente a ordem é desobedecida. O ataque com baioneta aos roedores é mais comum. Também aqui, porém, a tentativa de extermínio é – e sempre será – pouco frutífera. Um casal de ratos tem a capacidade de procriar mais de 800 ratinhos por ano. Na guerra contra os animais indesejados, são os animais indesejados que estão ganhando a guerra.
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