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  PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
NESTA EDIÇÃO
A luta no Somme - o rio da morte
  Depoimento: o capelão na batalha
  Surgimento de tanques de guerra
  Piolhos e ratos perturbam a tropa
  A censura aos jornalistas no front
Índice

IMPRENSA
VEJA, Julho de 1916
Correspondentes de guerra britânicos sofrem com censura
do governo – Relatos do campo de batalha são parciais e distorcidos
– Jornalistas foram acusados de espionagem no início da guerra
Os escribas infiltrados: Philip Gibbs, do 'Daily Chronicle', Hamilton Fyfe, do 'Daily Mail', e Henry Nevinson estão no front

eu no jornal: “Vitória! O primeiro dia da tão esperada batalha do Somme terminou com um acachapante triunfo da Grã-Bretanha sobre as forças alemãs.” Apesar de 60.000 soldados britânicos (conhecidos como tommies) mortos e feridos testemunharem o contrário, foi nesse tom que os jornalistas credenciados pelo governo britânico para cobrir a guerra na frente ocidental relataram a primeira jornada da ofensiva a seus leitores. Não, eles não são míopes. No entanto, com o controle oficial das notícias inaugurado por Londres no ano passado, a cobertura não consegue fugir de um terrível caráter parcial e tendencioso, prestando um grande desserviço de informação a toda uma população ansiosa por notícias do front. Não há como escapar: todos os relatos passam necessariamente pelas mãos de um impiedoso censor da Inteligência Militar. Caso o conteúdo não seja favorável à causa, puf!, o texto é liquidado em segundos, como um recruta exposto ao gás cloro.

O cerceamento da liberdade de expressão dos jornalistas é deveras grave – só não é pior do que a abordagem adotada pelos ingleses no início da guerra em relação aos repórteres independentes. Na eclosão dos combates, alguns deles embrenharam-se nas forças britânicas para enviar seus textos aos veículos de comunicação do país. Na intenção de cumprir seu ofício, porém, despertaram a ira de Londres e foram alvo de pressões e até sentenças de prisão. Philip Gibbs, repórter do The Daily Chronicle, que se juntou à Força Expedicionária Britânica e passou a relatar as notícias do front ocidental em pessoa, teve sua prisão ordenada pelo próprio ministro da Guerra, Horatio Kitchener. O jornalista foi enviado de volta para Londres com uma determinação expressa em seus ouvidos: caso fosse pego de novo com a pena na mão, seria colocado contra uma parede e executado.

Outros jornalistas ingleses também sofreram com as garras afiadas do governo: William Beach Thomas, do Daily Mail, e Geoffrey Pyke, da agência de notícias Reuters, que estavam atuando na França, foram presos pelas autoridades britânicas sob a acusação de espionagem. Outro caso emblemático foi o de Hamilton Fyfe, do Daily Mail, que alistou-se na Cruz Vermelha como carregador de macas apenas para seguir cobrindo a guerra na França. Entretanto, quando a notícia chegou aos ouvidos dos militares britânicos, Fyfe, com medo de retaliações, escusou-se do cargo, escapando para a frente oriental, na qual os jornalistas não eram incomodados.

Palpite de Roosevelt – A situação se alterou apenas no começo do ano passado, depois que o ministro do Exterior britânico, Edward Grey, recebeu uma carta do presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt. Na mensagem, o mandatário afirmava que a notícia da proibição da atividade jornalística na guerra pelo governo de Londres havia sido muito malrecebida em seu país, e que estava até mesmo “prejudicando a causa da Grã-Bretanha nos Estados Unidos” – especialmente quando confrontada com o fato de que a inimiga Alemanha incentivava a presença de correspondentes de guerras em suas fileiras.

Grey levou a preocupação de Roosevelt ao gabinete, que decidiu então alterar sua política e credenciar cinco jornalistas para a cobertura in loco das batalhas: Philip Gibbs, Percival Philips (Daily Express e Morning Post), William Beach Thomas (Daily Mail e Daily Mirror), Henry Perry Robinson (The Times e Daily News) e Herbert Russell (Reuters). A esse quinteto inicial juntaram-se nomes como John Buchan, Valentine Williams, Hamilton Fyfe e Henry Nevinson. A Grã-Bretanha, é bom que se diga, resolveu agradá-los de verdade. Além da patente honorária de capitão, todos eles recebem uma série de regalias, como auxiliares de campo, veículos à disposição e abrigo especial. Mas ainda é compensação pequena pelo ultraje de ter seu trabalho escarafunchado e remexido pelo governo.

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