
ESPECIAL
VEJA, Abril de 1915
Fracassa ataque anfíbio dos Aliados a Galípoli
- Forças
otomanas
reduzidas impõem massacre aos invasores - Desastre
militar
pode
derrubar Winston Churchill do Almirantado da Grã-Bretanha
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| Mar em chamas: embarcações militares britânicas atingidas pelo fogo inimigo durante desembarque na península |
inston Churchill perguntava: "Não há alternativa que não seja mandar
nossos exércitos mastigarem arame farpado em Flandres?"
Quando o primeiro lorde do Almirantado britânico
fez sua eloquente defesa da abertura de uma frente de batalha em
território otomano, como forma de quebrar a estagnação
da guerra no front europeu e levar Constantinopla à capitulação,
certamente imaginava um cardápio algo mais saboroso para
seus homens. Pois as forças de defesa do Império Otomano,
chamadas à ação pelo desembarque aliado na
península de Galípoli, no último dia 25 de
abril, estão servindo aos invasores uma amarga mistura de
sangue, pólvora e areia. Os primeiros resultados do tão
discutido e aguardado assalto anfíbio da Força Expedicionária
Mediterrânea no cabo Helles e em Gaba Tepe não poderiam
ser mais nauseabundos: sem chegar nem perto dos objetivos, registram
centenas de baixas e repetem o retumbante fracasso dos ataques navais
no estreito de Dardanelos, entre fevereiro e março, dando
mais uma prova do despreparo e da falta de organização
da empreitada aliada. Acuados, os soldados buscam a sobrevivência
enquanto aguardam reforços que não têm data
para chegar.
Nas duas frentes da campanha, frustração e desespero
são uma constante - especialmente para o Corpo do Exército
da Austrália e Nova Zelândia (Anzac), liderado pelo
general William Birdwood e composto por 15.000 soldados voluntários
australianos e neozelandeses que desde o início do ano estavam
lotados no Egito executando treinamentos à espera de uma transferência
para os combates na França. Sua missão era desembarcar
na praia de Gaba Tepe, na costa do Mar Egeu, ocupar rapidamente
o cume de Sari Bair e dali avançar em direção
ao interior. Mas nada deu certo, a começar pelo desembarque.
Por algum motivo ainda não esclarecido, os 48 barcos que
levavam os soldados para terra firme atracaram um quilômetro
ao norte da praia, em um território inóspito com declives
íngremes e uma sucessão de espinhaços. Com
isso, os homens do general Mustafá Kemal, líder da
19ª Divisão da Infantaria otomana, puderam tomar posição
em Sari Bair e repelir os atrasados aliados - que agora estão
confinados em uma cabeça-de-praia, sob a mira inclemente
do chumbo inimigo. O comando militar da Tríplice Entente calcula
que 10.000 Anzacs já tenham perecido nessas batalhas.
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| Sebo nas canelas: sob fogo cruzado, um dos pelotões britânicos tenta avançar |
A cerca de dez milhas ao sul, no cabo Helles, encontra-se a segunda
frente, a cargo dos soldados veteranos regulares da 29ª Divisão
britânica, sob o comando do general Aylmer Hunter-Weston.
Eles deveriam invadir e subjugar cinco praias, batizadas com as
letras Y, X, W, V e S, cruciais para a tomada do estreito. Nos flancos
- Y, X e S -, praticamente não houve resistência, e
os alvos foram conquistados com tranquilidade. Entretanto, em W
e V, as duas praias principais, a defesa otomana promoveu uma verdadeira
carnificina. Recebidos com balázios de fuzil e metralhadora,
muitos dos homens de Lancashire, combatentes na praia W, pereceram
antes do desembarque; aqueles que lograram chegar à areia
toparam com uma cerca de arame farpado que escondia uma trincheira
e possibilitava aos otomanos alvejarem um a um os invasores. Na praia
V, os fuzileiros de Dublin, Hampshire e Munster não foram
incomodados até suas embarcações tocarem a
areia: no momento de deixar os barcos, porém, quatro metralhadoras
turcas abriram fogo, dizimando aliados em escala industrial. No
total, as baixas britânicas estão no cômputo
de 6.500 homens.
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Batalha em Krithia - Mesmo assim, graças a uma enorme
vantagem numérica, os aliados conseguiram desarmar as defesas
turcas em ambos os alvos principais, estabelecendo cabeças-de-praia
em V e W e permitindo o desembarque de outros batalhões da
Força Expedicionária Mediterrânea, notadamente
o Corpo Expedicionário do Oriente. Enviado pelos franceses,
este agrupamento fizera, no dia 25, manobras diversionistas no lado
asiático de Dardanelos, a fim de desviar a atenção
das forças turcas, e em seguida atravessou o estreito para
auxiliar no plano principal da Tríplice Aliança. Com
esse reforço, o general Hamilton determinou um ataque à
cidade de Krithia e ao morro de Achi Baba, que pelo cronograma original
deveriam estar subjugados desde o primeiro dia da invasão.
Iniciado às 8h da manhã do dia 28 de abril, o ataque
foi abortado às 18 horas, depois que problemas de comunicação
entre as divisões francesas e britânicas, aliados às
dificuldades com o terreno e a cada vez mais forte resistência
otomana, deixaram claro que a ideia de uma vitória fácil
e rápida em Galípoli era uma utopia.
O que torna o cenário mais tenebroso para o comando aliado
da operação é o fato de que esses revezes tenham
sido produzidos por uma fração mínima das hostes
do general alemão Otto Liman von Sanders, comandante das
forças otomanas. Toda a área invadida pelas seis divisões
da Força Expedicionária Mediterrânea era mantida
por apenas duas divisões, a 9ª e a 19ª.
Na angra de Gaba Tepe, uma companhia de 200 homens impediu o avanço
dos milhares de Anzacs. As praias V e W estavam resguardadas por
míseros pelotões de 50 homens, que impingiram verdadeiros
massacres contra os fuzileiros britânicos antes de serem controlados.
E o pior está por vir: a maioria das tropas otomanas, antes
espalhada entre Bulair e Kum Kale, na Europa e na Ásia, neste
momento se desloca célere para o estreito de Dardanelos a
fim de ajudar na defesa do solo do império. Reverter
o cenário é tarefa que deverá consumir,
além de uma forte articulação política
e altíssimos recursos dos aliados, mais inúmeras vidas
no inferno de Galípoli.
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| Na trincheira: otomanos travam combate |
A vingança de Paxá - No tabuleiro da História,
não há lugar para hipóteses. Mas os figurões
aliados se perguntam se esse panorama sombrio não poderia
ter sido evitado caso a Grã-Bretanha tivesse honrado, no
ano passado, seu acordo de colaboração naval com o
Império Otomano. Antes do eclodir da grande guerra,
dois encouraçados - o Sultão Osman I e o Reshadieh
- estavam sendo construídos em estaleiros britânicos
para reforçar a historicamente mediana marinha otomana;
às portas do conflito, as embarcações, já
praticamente prontas, eram vistas como fundamentais
pelo Ministro da Guerra Enver Paxá, que negociava secretamente
tanto com a Alemanha quanto com a Rússia sua entrada nas
hostilidades. Entretanto, tão logo as primeiras declarações
de guerra entre Alemanha e Rússia foram anunciadas, a Grã-Bretanha
requisitou os dois encouraçados, despertando a fúria
de Paxá. Este se vingou acolhendo em Constantinopla dois
cruzadores alemães, o Goeben e o Breslau, que haviam bombardeado
portos franceses no norte da África e escaparam do cerco
da frota naval britânica no Mediterrâneo. O Ministro
da Guerra deu de ombros aos protestos da Grã-Bretanha e negociou
com os alemães a anexação dos dois navios à
sua frota, em incidente que afastou o Império Otomano
de sua posição neutra e deitou-o no colo da Tríplice
Entente.
Uma vez dentro da guerra, Enver Paxá, conhecido por seu
temperamento explosivo e inconsequente, não ficaria parado.
Depois de abrir frentes de combate na Índia e no Egito, na
virada de 1914 para 1915, decidiu atacar a Rússia nas fronteiras
do Cáucaso. Apesar de desorganizado, o avanço otomano
colocou em sobressalto o comando russo, que pediu uma ação
radical à Grã-Bretanha e à França para
que fosse aliviada a pressão no Cáucaso. O apelo ecoou
especialmente nos ouvidos de Churchill, que buscava um evento novo
para tirar a guerra da Europa do ramerrão. Para o primeiro
lorde do Almirantado, os combates na França haviam chegado
a um ponto de paralisia. Os exércitos opostos estavam tão
enraizados nas trincheiras que qualquer alternativas de ataque geraria
apenas enormes baixas e pequenos ganhos. Na frente oriental, russos
e alemães estavam igualmente estáticos. Havia uma
confiança generalizada na supremacia da marinha britânica,
mas um confronto direto com a armada alemã era pouco provável.
A saída do impasse só viria com a criação
de uma ousada alternativa - e o fecundo Churchill tratou logo de
apresentar duas delas ao conselho de Guerra no início deste
ano.
A primeira opção era invadir o estado alemão
de Schleswig-Holstein pelo mar, permitindo à Dinamarca se
juntar às forças aliadas e abrindo assim os portões
do mar Báltico. Com o domínio britânico naval
do Báltico, acreditava Churchill, os exércitos russos
poderiam desembarcar a 140 quilômetros de Berlim e tomar a
capital imperial alemã. O outro cenário, que acabou
finalmente sendo colocado em prática, era Galípoli,
por não apenas atender o pedido de ajuda russo contra os
otomanos como também gerar uma série de outros
benefícios. A ideia de Churchill de forçar a passagem
pelo estreito de Dardanelos, ocupar a península de Galípoli
e penetrar com uma esquadra pelo mar de Mármora - que liga
o Egeu ao Negro - rumo à Constantinopla levaria à
capitulação do Império Otomano e traria,
ao mesmo tempo, a Grécia, a Bulgária e a Romênia
para as fileiras aliadas. O domínio marítimo na região
também facilitaria a comunicação da Grã-Bretanha
e da França com a Rússia, reabrindo a rota do mar
Negro.
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| Os estrategistas da resistência: oficiais otomanos e alemães posam juntos |
Fracasso retumbante - Quando Churchill apresentou ao Gabinete
de Guerra a segunda opção, em janeiro, encontrou a
resistência silenciosa de seu Lorde do Mar, o experiente almirante
John Fisher. Mesmo assim, conseguiu o apoio do primeiro-ministro
Herbert Asquith para execução do plano. Seu resultado,
todavia, já figura nas páginas dos mais formidáveis
fracassos da história da grande frota naval britânica.
Os bombardeios de fevereiro e março no estreito de 7 quilômetros
de largura e 65 quilômetros de comprimento não foram
suficientes para desmontar o eficiente sistema de defesa otomano.
Pior: a operação de 18 de março, com 16 cruzadores,
terminou com o afundamento de três navios, a inutilização
de outros três e avarias severas em mais quatro - isso sem
que as dez linhas de minas instaladas no estreito fossem
sequer acionadas. A frota liderada pelo almirante John de Robeck
bateu em retirada, envergonhada, ao final do dia. Era evidente a
necessidade de um ataque terrestre - mas aí, com o fator
surpresa descartado, as chances de sucesso diminuíram sobremaneira.
Como se não bastasse, a demora para a mobilização
das tropas (quase quatro semanas) ofereceu ao general Liman von
Sanders todo o tempo do mundo para o preparo da defesa, especialmente
a construção de linhas de comunicação
entre suas seis divisões. Com tudo isso, a salobra refeição
que os otomanos estão empurrando goela abaixo dos aliados em
Galípoli pode ser especialmente indigesta para Churchill,
que já têm sua cabeça pedida nas rodas militares
da Grã-Bretanha. De qualquer forma, ao menos um novo atracamento
em Dardanelos precisa ser considerado pelo conselho de guerra aliado.
Se não para despejar reforços para as tropas sitiadas,
ao menos para evacuá-las em segurança. Qualquer que
seja a opção, é bom que seja rápida
- antes que os soldados australianos, neozelandeses, britânicos
e franceses virem em definitivo o jantar dos famintos homens de
Enver Paxá, Mustafá Kemal e Liman von Sanders.
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