
CONTEXTO
VEJA, Agosto de 1914
Guerra suspende uma era de ouro dos europeus
– Últimas
décadas
foram marcadas por paz e por inovações
tecnológicas
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Grã-Bretanha
e Alemanha disputam a supremacia civil e militar
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| Tempos modernos: a tela 'Metropolis', de Hugo Krayn, mostra uma Berlim industrial e dinâmica - e também caótica e sombria |
esde o biênio 1870-71, quando franceses e germânicos
digladiaram-se à morte na Guerra Franco-Prussiana, a Europa
não se via diante de um conflito entre os gigantes
protagonizado, desta vez, logo pelas quatro maiores potências
do continente. O resultado das hostilidades ainda está longe
de ser conhecido, mas o que se pode garantir, de antemão,
é que a guerra de ontem será bem diferente da guerra
de hoje. As quatro décadas que separaram a humilhante capitulação
dos gauleses até o início das batalhas desta nova
"Grande Guerra" transformaram por completo o Velho Continente
e suas nações. Se, por um lado, o aumento populacional e a explosão da
industrialização que caracterizaram a Europa nos últimos
anos viabilizaram o fortalecimento do poder central das potências,
o que originou um período de paz e relativa calmaria no continente,
por outro também desencadearam uma corrida armamentista e
a ferrenha militarização dos estados nacionais. Com
mais soldados e novos armamentos, o cenário que se vislumbra
para o futuro próximo europeu é nada menos que devastador.
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| Transformações em marcha: um família retratada pelo holandês Van Gogh |
As inovações advindas com a Revolução
Industrial, como a indústria têxtil, de ferro e de
energia a vapor, estão solidificadas ao longo de quase toda
a Europa Ocidental, e já não servem mais para determinar
quem está na cabine, quem é passageiro ou mesmo quem
perdeu o bonde da história. Agora, são as indústrias
químicas e de precisão que causam desejo e inveja
nos líderes, com seu potencial criador de incríveis
substâncias e produtos, aplicados em uma verdadeira plêiade
de empreendimentos. Aliadas à proliferação
do uso de outras tecnologias recentes, como o motor a combustão
interna e a eletricidade, já têm gerado notáveis
avanços. A rede de bondes elétricos que cruzam a cidade alemã
de Frankfurt, construída em 1884, é uma das obras
que receberam aplausos entusiasmados, assim como a gigantesca ferrovia
Berlim-Bagdá, cujas obras iniciaram-se em 1888 e só
neste ano chegam a seu ponto final. Aliás, os dois exemplos
acima citados não são mera coincidência: a Alemanha
é a nação que mais desponta nesse processo
de evolução científica e tecnológica,
com investimentos pesados em ambiciosas pesquisas e modernos laboratórios.
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Rivalidade - Não à toa, desde o início
do século os germânicos vêm travando um intenso
duelo com a Grã-Bretanha, cuja reputação como
vanguarda continental a precede. Ousada, Berlim surpreendeu os insulares
ao incluir-se em uma corrida pela supremacia naval, até então
detida por Londres sem contestação. Estaleiros alemães
trabalham com capacidade máxima desde o início do
século; como resultado, a Marinha do país já
possui 29 navios de combate. A Grã-Bretanha dispõe
de 49, incluindo o monstruoso Dreadnought, construído em
tempo recorde 14 meses entre 1905 e 1906 justamente
para provar aos rivais que o jugo nos mares não está
em negociação.
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| São Petersburgo: as multidões urbanas |
Além da relativa tranqüilidade vivenciada com o período
de paz, a população europeia teve outros motivos para
comemorar neste início de século. Melhorias em legislações
nacionais, visando aumentar a rede de bem-estar social; no sistema
educacional, reduzindo os índices de analfabetismo; e na
agricultura, gerando enorme incremento na produção
de alimentos tudo isso colaborou decisivamente para a explosão
populacional que se verificou no continente, em todos os países
à exceção da França. A Alemanha registrou
aumento de 50% em sua população, de pouco mais de
40 milhões em 1875 para quase 70 milhões em 1913.
No mesmo período, a Rússia saltou de 80 milhões
de habitantes para 170 milhões. Com populações cada vez maiores, as nações
lograram promover um aumento sem precedentes de recrutas em suas
fileiras. Como o serviço militar obrigatório entrou
em vigor desde o final do século passado, os gigantes contam
com toda uma geração preparada para o combate e imbuída
com os ideais patrióticos e militares. É esse enorme
contingente que, com máquinas, aparelhos e armamentos de
poder de destruição nunca antes vistos na História,
mobiliza-se para tomar parte nas diversas frentes da pugna continental.
As vitórias deverão ser cada vez mais comemoradas
mas com custos cada vez maiores.
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