
PONTO DE VISTA
VEJA, Agosto de 1914
Terrorista envolvido no atentado que provocou guerra
relata episódio – Para o radical sérvio, visita do arquiduque
Ferdinando
foi provocação – Assassino Princip é tratado como um
herói
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| Os tiros que mudaram os rumos do mundo: o jovem terrorista Gavrilo Princip executa o arquiduque e Sofia em Sarajevo |
m pequeno recorte de jornal enviado por um bando secreto de terroristas
de Zagreb aos seus camaradas em Belgrado foi a tocha que incendiou
o mundo com a guerra. Eu fui um dos integrantes do grupo de Belgrado.
E o pequeno recorte era do Srobobran, um jornal croata de
pequena circulação, tratando de um curto telegrama
de Viena, declarando que o arquiduque austríaco Francisco
Ferdinando visitaria Sarajevo, a capital da Bósnia, no dia
28 de junho, para dirigir manobras militares nas montanhas dos arredores.
O papel chegou ao nosso ponto de encontro, o café Zeatna
Moruana, no fim de abril. Sentados a uma pequena mesa, sob a luz
de um lampião, vimos a mensagem. Uma data escrita nela foi
suficiente para uma decisão unânime sobre o que fazer.
Era o 28 de junho, data que está gravada profundamente no
coração de todos os sérvios, tanto que tem
até nome próprio - é chamada de vidovnan. Esse
foi o dia em que o antigo reino sérvio foi conquistado pelos
turcos em 1389. Foi também o dia em que, na segunda Guerra
dos Bálcãs, os sérvios enfim se vingaram dos
turcos e da nossa escravidão nas mãos deles. Esse
não era um dia para Francisco Ferdinando, o novo opressor,
se aventurar às portas da Sérvia para uma demonstração
da força militar que nos mantinha sob constante ameaça.
Nossa decisão foi tomada de forma imediata. Morte ao tirano!
Faltava a organização. Foi nessa hora que Gavrilo
Princip interveio. Princip entrará para a história
sérvia como um de seus grandes heróis. Desde o momento
em que a morte de Ferdinando foi decidida, ele assumiu a liderança
do planejamento.
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| "Gavrilo Princip (na foto) entrará para a história sérvia como um de seus grandes heróis" |
Logo a manhã fatídica chegou. Duas horas antes da
chegada de Ferdinando a Sarajevo, todos os 22 conspiradores estavam
em suas posições designadas, armados e prontos. Eles
estavam distribuídos ao longo de toda a rota que deveria
ser percorrida pelo arquiduque, da estação de trem
até a prefeitura. Quando Francisco Ferdinando e sua comitiva
saíram da estação, conseguiram escapar dos
dois primeiros conspiradores. Os carros eram velozes demais para
que um atentado fosse possível, e a multidão era formada
por sérvios - lançar uma granada teria matado muitas
pessoas inocentes. Ainda assim, quando o automóvel passou
por Gabrinovic, um compositor, ele arremessou sua granada. Ela atingiu
o lado do carro, mas Francisco Ferdinando se lançou para
trás e não ficou ferido. A comitiva correu para a prefeitura, sem interferência dos
conspiradores. O general Potiorek, comandante austríaco na
região, pediu a Ferdinando que deixasse a cidade, pois previa
uma rebelião. O arquiduque foi convencido a tomar um atalho
e sair rapidamente da cidade. O caminho traçado era como
uma letra V, com uma curva acentuada na ponte sobre o rio Nilgacka.
O carro de Ferdinando poderia acelerar até esse ponto, mas
ali precisaria frear para fazer a curva. E foi ali que Princip tinha
assumido posição. Quando o carro se aproximou, ele
caminhou pela calçada, sacou sua pistola automática
e disparou dois tiros.
O primeiro disparo atingiu a mulher do arquiduque, Sofia, no abdome.
Ela estava grávida e morreu na hora. A segunda bala atingiu
o arquiduque perto do coração. Ele apenas balbuciou
uma palavra: "Sofia". Sua cabeça caiu para trás. Ele
morreu de forma praticamente instantânea. Os policiais pegaram
Princip. Bateram em sua cabeça com a bainha de suas espadas.
Depois, chutaram e socaram Princip, tiraram a pele de seu pescoço
com as espadas, o torturaram. Só faltou matá-lo. Ele
foi levado à prisão militar e acorrentado pelos pés.
Seu único sinal de arrependimento foi dizer que lamentava
ter matado a mulher do arquiduque. Ele havia mirado apenas em seu
marido. Preferia que o outro tiro tivesse acertado o general Potiorek.
Borijove Jevtic, um dos 22 conspiradores envolvidos no
assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, foi preso pouco
depois do atentado em Sarajevo. Ele foi colocado na cela vizinha
à de Gavrilo Princip, o autor dos disparos.
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